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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Vaidades

25.09.18, Miguel Oliveira

Comecei a minha vida profissional. À falta de um trabalho a tempo inteiro, inscrevi-me numa agência de trabalho temporário e tenho sido chamado para hotéis da zona onde resido. Num deles sou copeiro, pessoa responsável pela louça e limpeza/arrumação das cozinhas; noutro, tecnicamente sou empregado de manutenção, que mais não é do que andar a acartar móveis e materiais de uns pisos para os outros, assim como separar lixo e entulho das obras de requalificação que o hotel sofreu. 

Sempre tive a ideia de que o trabalho não me assustava. Adoro dinheiro, adoro juntar e gastar dinheiro, por isso, sempre tive a ideia de que não haveria problema em trabalhar, fosse no que fosse, porque seria para mim, para as minhas poupanças e para as minhas coisas. No entanto, durante as tarefas que são solitárias, dou muitas vezes por mim a pensar no que faço, e em como seria, um dia mais tarde, um filho meu dizer que eu fazia mudanças num hotel ou que lavava louça, fosse um desses o meu emprego a tempo inteiro. Desconfio que seria muito melhor, ou por outra, melhor aceite pela sociedade/colegas/amigos, ele dizer que o pai era psicólogo, médico, advogado... Mas a ser verdade esta minha ideia, por que razão assim seria? Pelo trabalho? Pelo ordenado? Pela ideia que se cria em torno da pessoa em função da sua profissão? Não me faz sentido. Não acredito em trabalhos menores. Há trabalho, ponto! Agora, o que pode haver é trabalho que podemos querer fazer a vida toda e outros não, mas isso por gosto e ambição pessoal. E se olharmos bem, não é nobre lavar bem a louça para servir bem um cliente? Não é de extrema importância deixar uma cozinha arrumada e lavada, com tachos e utensílios prontos para o chefe brilhar com as suas receitas? Como se instalava confortavelmente um hóspede num hotel se houvesse lixo e mobília antiga à entrada do seu quarto? Que seria este mundo sem os pedreiros/trolhas? Como teríamos iluminação em casa se não houvesse eletricistas? Como seriam as ruas das cidades cada vez mais cheias, se não houvesse quem recolhesse o lixo? Penso nisto e só me lembro de uma frase que a minha avó costuma dizer: vivemos num mundo de vaidades. 

Trabalhem e lutem pelo que querem. Há uns trabalhos melhores que outros, uns mais fáceis do que outros, uns bem remunerados e outros, tantos outros, muito mal pagos, mas é trabalho. Não precisamos de o fazer a vida toda, se não for esse o nosso objetivo/desejo. Mas lá por não ser algo a longo prazo para nós, não quer dizer que seja desprezível ou que não seja algo onde outra pessoa se sinta bem e o queira para si. 

Descompliquemos o que é simples. Vivamos sem grandes aparências, vaidades ou fogos de artifício. Haverá sempre quem nos aponte o dedo, quem nos olhe de alto a baixo, quem nos critique, quem não goste. O que podemos fazer? Viver e seguir em frente. Com amor, sempre com amor! 

Pessoas sem piscas

25.09.18, Miguel Oliveira

Sabem quando vamos na estrada e parece que os outros carros deixaram os piscas nas oficinas? Não conduzo, mas uma das coisas que mais me irrita, seja quando ando a pé ou de carro com alguém, é o facto de grande parte das pessoas não fazerem pisca. Vamos atrás, seguindo o caminho tranquilamente e depois somos obrigamos a abrandar e a esperar uma decisão que nos elucide sobre o caminho que vão tomar. Num ápice, e sem dar aviso de si, mudam de rumo e nós ficamos ali, apanhados de surpresa, sendo obrigados a reagir de imediato para seguir caminho, que atrás vem gente.

A olhar para estes carros, numa manhã agitada em hora de ponta, como tantas outras, lembrei-me de certas pessoas com quem nos vamos cruzando. Entram nas nossas vidas, fazem parte da viagem connosco mas ao fim de algum tempo, sem quê nem porquê, seguem sem dar sinal de si. Fomos atrás delas e quando esperávamos que nos dessem um sinal, umas luzes, seguem inesperadamente por outro caminho. Resultado? Ficamos inquietos, questionando qual a necessidade, mas sem grande tempo para reflexões porque a situação obriga-nos a aceitar e a seguir em frente. Não era mais fácil terem feito sinal e cada um seguia a sua vida, sem abrandamentos? 

Acho que nos esquecemos das ferramentas com que vimos incorporados. Mas estão lá, não custa nada usar... 

(s)Em rede

23.09.18, Miguel Oliveira

Todos sabemos que o mundo hoje em dia é feito de conexões. Estamos constantemente ligados e o nosso smartphone é o fiel companheiro de todas as horas. Nele, temos tudo, sobretudo com as redes sociais, que nos permitem manter contacto com amigos, familiares, conhecidos, famosos e até estar a par de tudo o que acontece nos grupos de trabalho. Num instante, com apenas meia dúzia de cliques, conseguimos saber tudo o que queremos, seja sobre o que for ou sobre quem for. 

No entanto, no outro dia, numa entrevista, ouvi algo que ainda não me tinha ocorrido, pelo menos de forma consciente. O entrevistado dizia que não usa redes sociais e que o deixou de fazer porque além das suas vantagens, as redes sociais tiravam a magia de um primeiro encontro, do começo de algo novo. Segundo ele, quando nos encontramos pela primeira vez com alguém, graças às redes sociais e ao facto de ser o primeiro contacto direto que temos com aquela pessoa, já levamos uma ideia feita sobre ela, porque vimos as fotos que publica, os sítios que frequenta, com quem se dá, etc. Confesso que nunca me tinha ocorrido mas de facto acredito que isso aconteça. Pelo menos comigo já aconteceu (e acredito que isto aconteça não só com pessoas por quem possamos ter algum interesse íntimo, sexual ou de amizade, mas também em termos profissionais. Vamos aceitar numa empresa que segue um padrão rigoroso de valores e de ética de conduta alguém que coloca fotos de nu integral ou que frequenta locais "pouco recomendados"?! É melhor não...). Temos ali “tudo” à nossa frente: as poses, os efeitos, as companhias, os locais, os momentos que resolve partilhar, as legendas que acompanham cada publicação que, em última instância, podem ser um vislumbre da forma de pensar e estar na vida daquela pessoa. Recebemos muita informação, ainda que filtrada, mas é informação "fidedigna", pelo menos por ter sido partilhada pela pessoa que estamos prestes a conhecer. E na lógica do que uma professora costumava dizer, não podemos negar algo que sabemos, e não nos é fácil ir conhecer alguém desprendidos de qualquer ideia, depois de tamanha recolha de informação. E por muito que se tente fazer o oposto, facilmente delineamos um perfil para a pessoa, formamos as mais variadas ideias sobre ela, indo a um primeiro encontro com uma série de considerações elaboradas do ar porque, em bom rigor, nem a conhecemos. Perde-se parte da magia e da curiosidade sobre aquela nova pessoa, quem é, o que gosta, o que faz e o que já viveu. Criam-se expectativas, imagens e rótulos que interferem no único momento em que poderíamos tecer qualquer tipo de consideração: o momento em que estamos frente a frente com a pessoa. E com este processo também nós mudamos. Mudamos porque já criámos uma imagem, já a delineamos e preenchemos com meias verdades, filtrando o que damos porque já "sabemos" o que podemos receber, porque já a "lemos", já a "sentimos" e "interpretámos". 

Peço desculpa se esta descrição não acontece desse lado. Talvez seja eu muito influenciável e ainda bem que o mesmo não acontece convosco. Porém, no fim desta entrevista, fiquei a pensar em quem já tinha conhecido e antes de estar olhos nos olhos com a pessoa, já a tinha olhado e pensado. Daqui percebi que se perde a liberdade e a genuinidade de um primeiro encontro, sempre rico e recheado de novidade. Vivemos em rede mas, na verdade, sem rede nenhuma.

Detalhes (que não são detalhes)

19.09.18, Miguel Oliveira

Há pequenas coisas que nos passam ao lado, de uma forma tão simples que nem damos conta, muitas vezes. 

Há uns tempos estava a assistir a um filme e, num jantar de família, um dos casais entrava numa discussão sem fim, o que em termos teóricos toma a designação de escalada simétrica. Ambos se insultavam e agrediam verbalmente, num tom de voz cada vez mais alto e ríspido. A certa altura, Rui levanta-se da mesa e sai de casa. Horas depois, envia à esposa, Ana, uma mensagem a dizer que estava farto da situação em que viviam, que para ela, ele nunca fazia nada bem, que da parte da mulher havia sempre uma crítica a fazer e nunca um elogio, nunca uma palavra atenciosa. Ana ficou desolada, caindo em lágrimas no colo da irmã Júlia, sem conseguir perceber o porquê de tamanha decisão. Era algo que lhe parecia brusco e descabido. Por que razão teria ele tomado aquela atitude? O que teria acontecido no jantar para ele decidir terminar com o casamento? Nisto, Júlia pede a Ana para que lhe mostrasse o seu telemóvel, para ver a troca de mensagens do casal. Há meses que as mensagens do agora ex-casal se assemelhavam a uma lista de lembretes, desprovidas de qualquer gesto atencioso, palavra meiga ou reconfortante. Atenção que isto pode ser uma realidade absolutamente normal e rotineira para um determinado "tipo" de casal. Cada casal tem os seus próprios ingredientes para a confeção da sua receita ideal. No entanto, ali este era um ingrediente necessário e que há muito estava fora de stock. Perante tal situação, sem Ana saber, Júlia mandou uma mensagem a Rui, do telemóvel da esposa desolada, pedindo-lhe desculpa por toda a falta de atenção e de carinho que mostrara nos últimos meses. Foi o suficiente. Pouco depois Rui regressou a casa, correndo para os braços de Ana, dizendo que a amava e que não conseguia viver sem ela. Mesmo sem perceber o que se passou, Ana ficou a perceber que ambos se precisavam de mimar, de namorar, de nutrir o que juntos iniciaram - uma relação - que longe de ser perfeita, é também uma obra nunca acabada. 

Modas sem medida

14.09.18, Miguel Oliveira

Uma alimentação equilibrada e nutritivamente rica, juntamente com a prática de exercício físico regular são conselhos que ouvimos desde pequenos para um correto e saudável desenvolvimento. No entanto, tenho para mim que essas noções foram elevadas ao patamar de "moda", nos últimos anos. Isto não é, de todo, uma crítica. Não sou nem nunca fui de modas, mas se há moda que apoio é essa, em que somos alertados para vivermos de forma consciente, olhando por nós e pela nossa saúde. Porém, como em todas as modas, a sociedade rapidamente nos categoriza de duas forma: ou estamos "in" ou estamos "out", e quem está "out" é um alvo fácil para comentários dos milhares de gurus da alimentação e do desporto que brotam como cogumelos, em qualquer canto. E isto não é só um "problema" de pessoas que apresentam uns quilinhos a mais ou a quem as roupas já não assentam (ou não apertam) como dantes. Isto é também um "problema" para os "magros", aqueles cuja imagem mais se assemelha a "um pau de virar tripas", como facilmente podemos ouvir. Mas acho que há uma coisa que as pessoas não sabem ou que tendem a ignorar de forma a dar voz ao pouco caloroso comentário: à exceção dos distúrbios alimentares, onde tudo ganha contornos diferentes, quem viu a sua imagem corporal alterar-se, por força do ganho ou da perda de peso, tem consciência disso; sabe que isso aconteceu. E como sabe? Porque toma banho e se limpa, porque se toca, porque experimenta roupa, porque usa (ou tenta usar) a sua roupa de sempre. Não é preciso que ninguém de fora nos diga que "ah, estás gordo!" (ou "estás ainda mais magro"). Não se esforcem nem se cansem. Nós sabemos que sim, acreditem que sabemos. Dificilmente alguém conhece o nosso corpo como nós próprios. Agora pergunto, sabem o porquê dessa alteração? Por instantes pensaram em perguntar se estaria tudo bem, se estaríamos a passar por alguma situação complicada? Já se perguntaram que podemos estar efetivamente mais gordos (ou mais magros) e que poderíamos precisar de falar abertamente sobre o facto de estarmos assim, com alguém que não nos julgasse ou fizesse uma lista das coisas que fazemos incorretamente? O comentário é fácil, é quase instantâneo. Abriu-se a boca e já cá está fora. Mas essa elaboração tão simples constitui, muitas vezes, uma ofensa, um ataque, a gota de água num dia nada fácil, onde não nos sentimos bem connosco próprios, onde estamos fragilizados e desconfortáveis na nossa própria pele. 

Acredito que há pessoas que ao lerem este texto digam coisas do género "se estás gordo é porque queres. Ninguém te obriga a comer o que não deves." ou "se não fazes nada para emagrecer como é que queres que tal aconteça?" ou ainda "alguém te abriu a boca e te enfiou comida lá para dentro?!"... Não lhes tiro toda a razão. De facto ninguém nos obriga a comer e também reconheço que somos o resultado das nossas escolhas. Mas a vida é bem mais do que escolhas conscientes, bem mais do que um frigorífico cheio de taças com refeições prontas e marcações de treinos na agenda. Há stress, carências, ritmos inesperados, pensamentos que nos acompanham todo o dia, sentimentos de frustração e um reflexo que não nos agrada. Estas e tantas outras questões ou situações que numa só cabeça, num só corpo e numa sociedade tão cheia de rótulos fragilizam qualquer pessoa, alimentando o ciclo vicioso em que ela se encontra. 

Precisamos de ser mais sensíveis, de ter mais tacto para com tudo aquilo que nos rodeia. Seja qual for a situação, cada um de nós é muito mais do que aquilo que apresenta. Por isso, há muito mais diante dos nossos olhos do que aquela imagem. Como escreveu uma amiga, "Os distúrbios alimentares são patologias muito graves, umas mais invisíveis que outras, e não devem ser desvalorizadas, nem perpetuadas só porque naquele momento temos uma opinião desinformada sobre os outros. Nunca sabemos o turbilhão em que os outros se encontram.". 

(doces) Panquecas

08.09.18, Miguel Oliveira

Gosto de cozinhar. Para mim cozinhar é um momento de entrega, de criação, de preparação de algo para o outro. Dizem que quando se cozinha com amor sai sempre bem. Partilho dessa ideia. 

Hoje experimentei uma receita nova e resolvi partilhá-la. É uma receita de panquecas, tão simples e tão saborosas. Daqueles pequenos prazeres que nos enche a alma e o coração, que nos faz fechar os olhos e ficar ali, apenas a saborear o momento e a iguaria. De tão boas que eram, resolvi intitulá-las de "(doces) Panquecas":

 

Ingredientes
230 gr de sorrisos
2 colheres (de sopa) de gargalhadas
3 abraços
1 pitada de brincadeira
350 ml de lágrimas (de tanto rir)

Preparação
Num lar aconchegante, coloque todos os ingredientes, mexendo delicadamente até obter laços fortes. De seguida, disponha pequenas porções do preparado anterior num colo previamente aquecido, até ficarem felizes de ambos os lados.

Por fim, sirva num ambiente com luz natural, com a família disposta à volta da mesa. Acompanhe com uma boa conversa e polvilhe com uma dose generosa de carinho. Bom apetite!



Sugestão: ideais para pequenos almoços, lanches ou sobremesas, sempre em boa companhia e com muito amor!

Sexualidade(s)

05.09.18, Miguel Oliveira

Celebrou-se ontem, dia 4 de setembro, o Dia Mundial da Saúde Sexual e o jornal Público apresentou os resultados de um estudo feito em Portugal. Conclusões? 40% dos portugueses assumem ter problemas sexuais. Noutro jornal, no Expresso, é feito um retrato da vivência da sexualidade em Portugal. No vídeo ("Saúde sexual: Temos mesmo de falar sobre isto") são apresentados os resultados de uma investigação feita com portugueses, abordando questões como o tempo médio da relação sexual, a avaliação do desempenho sexual e o desejo sexual sentido. 

Falar abertamente sobre sexo parece que ainda é um pouco tabu, apesar da grande visibilidade que a temática tem em tudo à nossa volta, desde séries, filmes ou livros. Somos capazes de dizer, protegidos pelo tom de brincadeira, que "até os bichinhos gostam", mas sempre que a temática surge noutro contexto, parece vir acompanhada de algum prurido e um tom de voz mais trémulo, mesmo entre amigos. Mas é preciso falar de sexo, da vivência da sexualidade e da forma como esta temática (tão importante) é discutida pelos casais. 

Arrisco-me a dizer que as relações amorosas são um pack completo, envolvendo não só estabilidade e romantismo, mas também a existência de uma satisfação emocional e sexual. Porém, estas não são dimensões definidas da mesma forma por todas as pessoas (muito menos de casal para casal) nem tão pouco apresentam a mesma importância para cada par conjugal. Ora, como em tudo na vida, é necessário que os casais comuniquem (e/ou aprendam a comunicar) sobre todas estas questões (não sendo esta "a" solução infalível, é a este aspeto importante que agora me refiro). Parece-nos claro que um casal discuta se é muito ou pouco "meloso", se gosta ou não de surpresas românticas, se fazem muita ou pouca coisa juntos, entre outras coisas, mas fico com a sensação de que não se fala muito sobre a vivência da sexualidade. Do que vou lendo, ouvindo e até da minha experiência pessoal, fico com a ideia que se fala (mais ou menos) abertamente de sexo no início da relação, onde a paixão e o desejo sexual iniciais exigem o levantamento das questões. Conseguimos partilhar algumas experiências anteriores, algumas fantasias, trocar uma ou outra posição sexual preferida, tudo porque é importante conhecer os gostos do(a) parceiro(a), a fim de agradarmos. E quando o tempo passa? E quando as relações vão passando para patamares superiores, onde outras questões são valorizadas e intensificadas? Ainda se fala sobre sexo? Ainda há disponibilidade/abertura para que se diga (e se seja ouvido sobre) o que se gosta e o que não se gosta? Conseguimos dizer, com frontalidade e firmeza, o que queremos que continue igual e o que queremos que mude porque não estamos satisfeitos? Arrisco-me a dizer que na maioria dos casos não, sobretudo porque as questões de falta de desejo sexual ou o fingimento dos orgasmos, por parte do sexo feminino, não são resultados só de agora. 

Vivemos numa época bastante sexual (esta é apenas uma opinião pessoal), mas tirando a concretização do ato, enaltecido e sobrevalorizado, pouco mais é falado. Consequências disso? Casais sem intimidade. Casais que procuram ajuda profissional devido à insatisfação sexual. Casais que se separam porque encontram fora a chama e o desejo que se perdeu dentro de casa. As pessoas têm gostos e necessidades diferentes. Têm um historial sexual diferente, marcado por experiências diversas. Todas as pessoas são diferentes e o que é bom e suficiente para uma, pode ou não ser suficiente para outra, ainda que seja bom. Se temos alguém ao nosso lado, temos que o conhecer, saber o que gosta, como gosta, o que precisa, em que quantidade/intensidade, etc.

Costumo dizer que dou exemplos muito inapropriados para retratar as situações, mas pense comigo: se não perguntarmos a uma criança qual o sabor do gelado que mais gosta, como é que lhe vamos satisfazer o desejo? Se não perguntarmos a um professor quais as orientações para a formatação de um trabalho, quais são as hipóteses de obtermos uma boa nota sem sermos penalizados por termos feito tudo ao lado? Não será igual na vivência da sexualidade do casal? Se um não fala sobre a sua insatisfação e o outro nada pergunta, tudo vai continuar na mesma, até ao dia em que terminam as relações sexuais, eventualmente (sim, sou exagerado por natureza, mas acontece!). 

Tal como é referido no vídeo acima mencionado, é necessário que se comunique sobre o que se gosta e o que não se gosta, que se partilhem receios e vontades, inquietações e fantasias. A vivência da sexualidade num casal é uma dimensão importante, que deve ser alimentada e explorada como qualquer outra dimensão/temática. 

Não existe a sexualidade, existem múltiplas "sexualidades", cada pessoa com a sua, cada casal com a sua, algo que é construído (e destruído) a quatro mãos. 

O hipocentro da mudança

04.09.18, Miguel Oliveira

"- Começa de novo.

- por onde?

- por dentro!"

 

Tão simples quanto isto. Seja no que for, começar sempre por dentro. É lá que estão todos os recursos, todas as forças, todas as linhas de socorro para qualquer emergência, todos os manuais de instruções, mesmo que julguemos que nada mais vinha na caixa.

Desconfio que dificilmente se conseguirá uma boa mudança, que prolongue os seus efeitos no tempo, sem olharmos para dentro de nós. Se todos os dias nos tornamos pessoas diferentes daquilo que éramos no dia anterior, pela força das circunstâncias e dos acontecimentos que vão surgindo nas nossas vidas, então todos os dias surgem novos dados dentro de nós. Por isso, é preciso que nos escutemos, que nos olhemos com olhos de ver e pensemos o que somos, onde estamos, o que queremos. Por maior que seja o medo, por mais tenebrosa que pareça a escuridão que nos invade, só assim se conseguirá um bom trabalho. 

Temos de olhar para nós, para olharmos por nós!

 

Banho de realidade

03.09.18, Miguel Oliveira

Vivemos numa época em que a evolução é rápida, a mudança é permanente e instantânea e somos obrigados a seguir todo o fernezim, todos os jogos, todos os desafios online e tudo aquilo que as mentes brilhantes se lembram de inventar. É um jogo de sim ou não, cuja resposta define se estamos ou não incluídos na sociedade, se somos ou não interessantes. É um jogo em espiral, uma espiral de modas e ilusões sem fim, que nos engole por inteiro. Fora desta espiral ficam a individualidade, o sentido crítico e a realidade. Vivemos a nossa realidade com base num fragmento da realidade dos outros e, muitas vezes, sem darmos conta que isso acontece.

Pense comigo: lembra-se quando íamos aos casamentos e tirávamos fotografias ora à saída da igreja, ora na quinta do copo de água, ora nos momentos de pausa, muito divertidos e de estômago aconchegado? De volta e meia lá vinha o fotógrafo de máquina em punho, pronto a disparar mais umas dezenas de flashes no meio dos convidados. Horas depois, ao fim do dia, surgia de novo, mas com aqueles painéis repletos de fotografias, prontas a serem escolhidas para serem reveladas (peço desculpa se esta é uma visão retrógrada dos casamentos, mas já não vou a nenhum há muito tempo e a última vez que fui era assim). A questão é: que fotografias escolhíamos? Por que razão teríamos de escolher duas ou três fotografias e não eram reveladas todas aquelas em que estávamos presentes? Em todas elas estávamos nós, com tudo aquilo que somos, de bom e menos bom. Então por que razão existia uma seleção? A resposta mais óbvia deve ser por questões financeiras, que os fotógrafos trabalham bem mas também são bem pagos. Por outro lado, selecionávamos as fotografias porque apenas queríamos aquela(s) que mais gostávamos, onde estávamos mais aprumados, com um melhor sorriso e o cabelo no lugar. Queríamos a melhor das melhores, que retratasse de forma fiel aquele dia de festa, aquele momento especial. Porém, outras questões me surgem: aquele pedacinho de papel brilhante era o retrato da nossa realidade? A pessoa aprumada da fotografia, agora guardada no álbum de família, era a mesma do dia a dia? Em casos muito pontuais diria que sim, que há pessoas na faculdade, por exemplo, da mesma forma como vão a um casamento, mas de resto a resposta é não! Aquela fotografia retrata um momento; simboliza um acontecimento que há de ficar datado e guardado. É o resultado de uma seleção feita de dezenas de momentos de um dia inteiro de festa.

Até aqui acho que não disse nenhuma barbaridade e com arestas mais ou menos limadas, todos se hão de identificar com esta minha descrição. Mas então, se é claro que aquelas fotografias são meros momentos, que vimos e aceitamos com grande naturalidade, porque nos deixamos iludir (e deprimir) com aquilo que chega aos nossos olhos quando entramos nas redes sociais? Não será aquele quadradinho bonito o resultado de uma edição atenta, da aplicação de um ou outro filtro, de uma seleção entre duas ou três (ou até mais) fotografias? A pessoa que colocou aquela paisagem bonita e paradisíaca não está ali toda a sua vida. Sabe Deus, passo a expressão, o que trabalhou e o que teve de abdicar para estar ali. Aquele corpo bonito, atraente e delineado não surgiu do dia para a noite. É o resultado de meses de treino e de uma alimentação mais ou menos cuidada, já para não falar das edições, das poses, dos jogos de luz e da forma certa de colocar a roupa para que se acentuem as formas do corpo. Aquela casa linda, toda arrumada e brilhante só está assim quando é acabada de limpar e de ser arrumada. Experimente olhar para a sua, com pessoas de um lado para o outro, e pense quantos minutos seriam necessários para que aquela imagem idílica se desvanecesse... 

Tal como acontece (ou acontecia) nos casamentos, aquilo que recebemos ao abrir uma aplicação é um momento, o retrato fiel de uma seleção, de um conjunto de escolhas em prol da melhor versão de si ou da sua vida. Só muito pontualmente encontramos alguém carregado de olheiras, a salientar a sua gordura e celulite, a mostrar a quantidade de compras de mercearia que tem para arrumar ou a mostrar o seu quarto desarrumado, pouco iluminado e com a vista para os portões ferrugentos das garagens. Se pensarmos no próprio jogo que fazemos quando publicamos alguma coisa, na seleção que fazemos daquilo que mostramos ao mundo, com mais ou menos edição, com mais ou menos critérios de seleção, não nos deixamos levar tão levemente por uma espiral de ilusões, de mundos glamorosos e vidas fantásticas, onde a nossa fica encostada às boxes, à espera que aconteça um milagre e a nossa triste realidade seja reparada.  

Vamos levantar o cu do sofá e lutarmos por nós, pela melhor versão de nós mesmos, vivendo a realidade tal como ela é, a nossa e a de todos os que nos rodeiam, que todos somos humanos - com dias bons e dias maus, com todos os nossos defeitos e imperfeições. Se sonhar com alguma coisa, sonhe consigo e com aquilo que pode fazer para conquistar o que deseja, e não com a vida de A ou B. Há muito, mas muito mais, para além daquilo que os nossos olhos recebem!