Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Vaidades

25.09.18, Miguel Oliveira

Comecei a minha vida profissional. À falta de um trabalho a tempo inteiro, inscrevi-me numa agência de trabalho temporário e tenho sido chamado para hotéis da zona onde resido. Num deles sou copeiro, pessoa responsável pela louça e limpeza/arrumação das cozinhas; noutro, tecnicamente sou empregado de manutenção, que mais não é do que andar a acartar móveis e materiais de uns pisos para os outros, assim como separar lixo e entulho das obras de requalificação que o hotel sofreu. 

Sempre tive a ideia de que o trabalho não me assustava. Adoro dinheiro, adoro juntar e gastar dinheiro, por isso, sempre tive a ideia de que não haveria problema em trabalhar, fosse no que fosse, porque seria para mim, para as minhas poupanças e para as minhas coisas. No entanto, durante as tarefas que são solitárias, dou muitas vezes por mim a pensar no que faço, e em como seria, um dia mais tarde, um filho meu dizer que eu fazia mudanças num hotel ou que lavava louça, fosse um desses o meu emprego a tempo inteiro. Desconfio que seria muito melhor, ou por outra, melhor aceite pela sociedade/colegas/amigos, ele dizer que o pai era psicólogo, médico, advogado... Mas a ser verdade esta minha ideia, por que razão assim seria? Pelo trabalho? Pelo ordenado? Pela ideia que se cria em torno da pessoa em função da sua profissão? Não me faz sentido. Não acredito em trabalhos menores. Há trabalho, ponto! Agora, o que pode haver é trabalho que podemos querer fazer a vida toda e outros não, mas isso por gosto e ambição pessoal. E se olharmos bem, não é nobre lavar bem a louça para servir bem um cliente? Não é de extrema importância deixar uma cozinha arrumada e lavada, com tachos e utensílios prontos para o chefe brilhar com as suas receitas? Como se instalava confortavelmente um hóspede num hotel se houvesse lixo e mobília antiga à entrada do seu quarto? Que seria este mundo sem os pedreiros/trolhas? Como teríamos iluminação em casa se não houvesse eletricistas? Como seriam as ruas das cidades cada vez mais cheias, se não houvesse quem recolhesse o lixo? Penso nisto e só me lembro de uma frase que a minha avó costuma dizer: vivemos num mundo de vaidades. 

Trabalhem e lutem pelo que querem. Há uns trabalhos melhores que outros, uns mais fáceis do que outros, uns bem remunerados e outros, tantos outros, muito mal pagos, mas é trabalho. Não precisamos de o fazer a vida toda, se não for esse o nosso objetivo/desejo. Mas lá por não ser algo a longo prazo para nós, não quer dizer que seja desprezível ou que não seja algo onde outra pessoa se sinta bem e o queira para si. 

Descompliquemos o que é simples. Vivamos sem grandes aparências, vaidades ou fogos de artifício. Haverá sempre quem nos aponte o dedo, quem nos olhe de alto a baixo, quem nos critique, quem não goste. O que podemos fazer? Viver e seguir em frente. Com amor, sempre com amor! 

Pessoas sem piscas

25.09.18, Miguel Oliveira

Sabem quando vamos na estrada e parece que os outros carros deixaram os piscas nas oficinas? Não conduzo, mas uma das coisas que mais me irrita, seja quando ando a pé ou de carro com alguém, é o facto de grande parte das pessoas não fazerem pisca. Vamos atrás, seguindo o caminho tranquilamente e depois somos obrigamos a abrandar e a esperar uma decisão que nos elucide sobre o caminho que vão tomar. Num ápice, e sem dar aviso de si, mudam de rumo e nós ficamos ali, apanhados de surpresa, sendo obrigados a reagir de imediato para seguir caminho, que atrás vem gente.

A olhar para estes carros, numa manhã agitada em hora de ponta, como tantas outras, lembrei-me de certas pessoas com quem nos vamos cruzando. Entram nas nossas vidas, fazem parte da viagem connosco mas ao fim de algum tempo, sem quê nem porquê, seguem sem dar sinal de si. Fomos atrás delas e quando esperávamos que nos dessem um sinal, umas luzes, seguem inesperadamente por outro caminho. Resultado? Ficamos inquietos, questionando qual a necessidade, mas sem grande tempo para reflexões porque a situação obriga-nos a aceitar e a seguir em frente. Não era mais fácil terem feito sinal e cada um seguia a sua vida, sem abrandamentos? 

Acho que nos esquecemos das ferramentas com que vimos incorporados. Mas estão lá, não custa nada usar...