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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Amor, uma brincadeira de criança

20.10.18, Miguel Oliveira

Hoje venho falar-vos de amor, amor nos tempos modernos. 

Imaginem duas crianças. Uma delas tem um quarto cheio de brinquedos, de todas as cores e feitios, um cenário idílico capaz de abrilhantar o olhar da pequenada. No entanto, esta criança salta de brinquedo em brinquedo, não se satisfazendo com o muito que tem, dizendo que não prestam, que já não gosta de brincar com eles, que não servem para aquilo que gostava de fazer.  Por outro lado, a segunda criança tem apenas um brinquedo, ali no centro do quarto, ladeado por mobílias. Esta está satisfeita, brincando todos os dias com o mesmo, sendo-lhe exigido que se reinvente, que seja criativa, que ora use o alto da sua cama para simular um castelo, onde um guerreiro vai salvar a sua aldeia das tropas que vêm lá longe, como o mesmo boneco serve de professor de artes marciais, naquele tapete vermelho farfalhudo, onde todos os seus alunos o escutam com atenção, lá no fundo da sala. Apenas um boneco, que ora é uma coisa ora é outra; ora tem dias em que serve todo o imaginário daquela pequena criança, ora outros há em que falta ali qualquer coisa, mas brinca e procura fazer diferente.

Agora perguntam-me o que é que isto tem a ver com o amor nos tempos de hoje? Tudo! Uma simples analogia que retrata bem aquilo que somos e aquilo que fazemos com o que temos e com o que sabemos.

Dizem os mais velhos que somos a geração do digital, onde tudo é feito online e sem ele não vivemos. É um facto, não o posso nem o quero negar. Mas neste jogo do online, há coisas que se ganham e outras, tantas outras, que se perdem. Nestas, nas que ficam pelo caminho, fica a noção de amor, de conquista, de entrega, de luta, de paixão, de felicidade, de brilhantismo. Trocamos de parceiro da mesma forma como a primeira criança troca de boneco, não se envolvendo verdadeiramente com nenhum, não se dedicando ao momento, ao seu par, não dando de si nem esperando para receber. Salta, joga fora, deixa esquecido, olha e nada sente. Com bonecos ou com sentimentos, a conduta é sempre a mesma: falta de envolvimento, de entrega, de sentido, de dedicação, de vontade de fazer mais, de fazer e ser diferente. Troca-se em busca de algo melhor, mais fácil, mais imediato, mais e mais e mais, um mais que nunca se concretiza porque nada será suficiente para alguém insatisfeito e que não dá de si. 

Podem dizer que este desapego, esta falta de vivência das emoções é um sinal dos tempos. Não diria que seja um sinal dos tempos, mas antes uma consequência dos tempos. É por haver tanta facilidade que nada se valoriza; é por haver tanto e tanto estímulo que queremos chegar a todo o lado; é por não nos darem amor, que não sabemos reconhecê-lo e vivê-lo; é por sermos tão egoístas na nossa forma de estar e viver a vida, que vamos atrás de uma ilusão de felicidade plena, algo que não acontece por muito que se mude. E porquê? Porque muda o brinquedo mas a criança continua sem saber viver o momento, sem se deixar envolver, sem ser genuína o suficiente para que se entregue e descubra se realmente aquela janela pode ser um local secreto para os espiões, ou se tem luz a mais para tal efeito, aprendendo que da próxima vez tem de agir de forma diferente. 

Porém, tudo isto é simples de ser entendido pela primeira criança, não porque se resigna ao facto de ter só um brinquedo, mas porque vê nele todas as suas potencialidades, mesmo quando lhe falta um braço, perdido numa guerra, ou fica com um pé esborrachado, sendo o paciente ideal para uma operação. Há entrega, há criatividade, há espírito de sacrifício, há imaginação, há entusiasmo. E o amor, simplesmente amor, é isso mesmo: é sacrifício, energia, brilho, lágrimas, excitação, esforço e entusiasmo. É como uma moeda, onde as suas diferentes faces se casam em harmonia para constituir aquele objeto perfeitamente harmonioso, redondo e simétrico. E o amor, seja por quem for ou pelo que for, será sempre assim! Tudo o resto são tentativas frustradas de uma brincadeira que não apaixona, que não envolve, que não prende, que não faz crescer nem sonhar.

 

Marcha sem Orgulho LGBTI

18.10.18, Miguel Oliveira

Este pode ser um tema delicado para ser falado e pensado a uma só voz, a minha, com uma visão redutora que um só ser humano aplica às coisas quando as encara sozinho. No entanto, é algo que me incomoda e que há muito penso sobre ele. Falo das intituladas Marchas de Orgulho LGBTI e aquilo que a elas está associado. 

A sociedade diz-me, pelos rótulos que elabora e aplica, que eu sou um jovem adulto LGBTI, pessoa lésbica, gay, bissexual, transexual ou intersexo. 

Antes de qualquer outro comentário, e de uma forma muito generalizada, referindo-me apenas às nomenclaturas que criamos para tudo e mais alguma coisa, acho curioso o esforço que uma sociedade faz para normalizar as “minorias” quando é ela própria a criar rótulos e artifícios cada vez mais minuciosos, aumentando essas “minorias”. Somos seres humanos, com qualidades e defeitos, pessoas que nasceram sem nada, que vão morrer de igual forma e que apenas devem viver com os mesmos direitos e deveres. Mas sim, reconheço que precisamos de uma organização e que é a partir dela que podemos dar voz e corpo às coisas, mas não deixa de ser curioso travar uma luta para acabar com aquilo que se cria. Este é o primeiro ponto. 

O segundo ponto, talvez o mais sensível deles todos, diz respeito às Marchas ou Paradas de Orgulho LGBTI. Acho que não podia haver pior designação para um ato cívico de merecido valor como este. As palavras têm poder, têm força e não consigo entender a aplicação de uma delas. Passo a explicar: segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, orgulho é a “manifestação do alto apreço ou conceito em que alguém se tem”; uma outra definição do conceito diz-nos que orgulho é um “sentimento de satisfação de alguém pela capacidade, realizações ou valor de si próprio ou de outrem”. Tendo em conta estas definições, retiradas da Internet sem qualquer critério de seleção, onde é que se enquadra a noção de “orgulho” ao facto de ser LGBTI, ou no meu caso, gay? Eu, Miguel, tenho-me em melhor conta/apreço por ser gay? Tenho mais valor enquanto pessoa por uma condição que não escolhi? Sou digno de mais respeito ou orgulho por parte dos outros, passo a redundância, pelo simples facto de me sentir atraído por homens e ser ao lado de um que queira fazer vida? Não me faz sentido. Tal como diz a segunda definição, que aliás se aproxima da minha definição de orgulho, eu fico orgulhoso quando conquisto algo, quando me supero, quando alcanço determinado objetivo. Ora, se ser gay não é uma escolha e não é algo influenciado pelo meio em que se vive ou cresce, então eu não vejo o porquê de ter orgulho numa coisa que não escolhi, lutei ou conquistei. Nasci assim. No entanto, não estou a querer dizer que apenas podemos ter orgulho quando se conquista algo externo a nós. Podemos e devemos ter orgulho no que somos, enquanto pessoas, enquanto seres dotados de humanidade. O que eu quero dizer quanto à questão do “orgulho” é que eu não tenho orgulho em mim pelo simples facto de ser gay. Ser gay é apenas um pormenor, uma ínfima parte de tudo aquilo que eu sou enquanto pessoa, amigo, filho, neto, namorado, irmão, etc. Eu tenho (e podemos e devemos ter todos nós) orgulho por tudo aquilo que sou e não apenas por um rótulo que nos diz com quem queremos ter sexo, com quem queremos fazer vida ou qual a nossa postura na vida. São coisas distintas e assumir-me gay, por si só, não é uma questão de orgulho.

Um outro aspeto que me inquieta nestas Marchas é todo o lado feérico e exuberante que lhes tende a ser incutido. Sim, assumo desde já que pode ser um preconceito meu, que não me revejo nem me identifico com determinadas condutas ou formas de estar na vida. Mas a questão é: se as Marchas servem para lutar pelos direitos de todos, "para abraçar a inclusão e a representatividade das pessoas (...) [relembrando] os decisores políticos, a sociedade civil e a opinião pública que há muitas questões ainda por resolver" (in MOG), então qual a necessidade de fazer daquilo um desfile excêntrico que pouco tem de natural? Não sou de purpurinas, brilhos, lantejoulas nem de bandeiras coloridas e desconfio que apenas uma pequena parte desses manifestantes assumam aquela imagem no seu dia a dia, nas idas ao médico ou no seu local de trabalho, por exemplo. E perguntam agora, lá porque eu não sou os outros não podem ser? Claro que podem! Aceito que o façam, são livres para isso e cada um tem o direito de se sentir confortável na sua própria pele, seja com o que for. Mas se estão ali para lutar pela naturalidade, então como vão fazer isso agindo de uma forma não natural? Todos sabemos que o preconceito é gerado por ideias feitas daquilo que não se conhece, certo? Então como vamos transmitir que esta nossa condição LGBTI é algo natural se o que oferecemos não o é na totalidade? Peço que me ajudem a entender porque acho mesmo que poucos são aqueles que lá figuram para lutar verdadeiramente pela causa.

Por fim, e voltando à questão inicial dos rótulos e das "minorias" criadas, fico espantado quando se criam Gay Games, uma espécie de Jogos Olímpicos com desportistas LGBTI, uma atividade iniciada nos anos 80 para "promover o espírito de inclusão e participação" em atividades desportivas. Isto não tem particularmente a ver com as Marchas, mas vai de encontro às ideias transmitidas anteriormente. 

A Federação dos Gay Games diz que o objetivo dos mesmos é "fomentar e aumentar a autoestima de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, e todos os indivíduos sexualmente de género variante ao longo do mundo, para promover o respeito e a compreensão dos outros". Entendo este ponto, mas mais uma vez me questiono qual a necessidade de segmentar, de criar algo à parte. Todos sabemos que há gays em qualquer desporto, desde o futebol ao judo, passando pela natação, basquetebol, ténis ou golfe, por exemplo. Partindo do princípio que o objetivo é dar visibilidade e lutar pela normalidade e naturalidade das coisas, porque para ser atleta basta ter aptidões para a prática desportiva, não seria mais benéfico, por exemplo, criar movimentos em que as pessoas se assumissem e dessem o seu testemunho, dentro dos próprios clubes ou associações desportivas? Não seria mais inclusivo do que criar competições com LGBTI onde heteros também podem participar? Reconheço que esta iniciativa possa aumentar a visibilidade, posso entrar pelas casas das famílias de uma forma mais natural, reforçando a forma como devemos encarar as pessoas, naquele caso desportistas, sendo apenas isso, desportistas, mas fico com as minhas dúvidas... 

Todos falamos em inclusão, em normalização e assuntos que não o deveriam ser, mas depois somos os primeiros a criar dias comemorativos, encontros, cerimónias e artifícios para segmentar e rotular a diferença que não deveria ser diferença. 

 

Tarefas inadiáveis

09.10.18, Miguel Oliveira

O tempo passa e vamo-nos tornando cada vez menos atentos ao que nos rodeia e, sobretudo, a quem nos rodeia. Por culpa de quem? Acredito que, em grande parte, do ritmo de vida que levamos, onde as obrigações e responsabilidades nos sugam o tempo, a atenção, a criatividade, a sensibilidade. A par desta azáfama em que vivemos, somam-se as tarefas para realizar nos amanhãs, iludidos num amanhã que pode não chegar, ignorando a noção de finitude que tem a vida. 

Cada pessoa tem a sua vida e os seus planos mas posso afirmar, sem sobre de dúvida, que se tudo acabasse no próximo minuto, ficava muita coisa por cumprir.

Então, pense comigo:

 

- O que quer fazer que há muito anda a adiar?

- Com quem não está há muito tempo e gostava de encontrar?

- A quem quer dar um abraço?

- A quem gostava de dar um beijo?

- Há quanto tempo espera pela altura ideal para tomar aquela decisão?

- Com quem gostava de passar um bom momento?

- Quantos obrigados é que deve?

- A quem deve um pedido de desculpas?

- Com quem precisa de ter uma conversa séria?

- Há quanto tempo adia aquele encontro?

- De que sorriso tem saudades?

 

Isto são apenas algumas das muitas questões que deveríamos fazer com regularidade, não para diminuir a lista de tarefas pendentes, mas para vivermos enquanto temos essa oportunidade, com tudo aquilo a que temos direito. 

Ao comando do corpo

08.10.18, Miguel Oliveira

Era a primeira vez que se viam, apesar de já há muito se conhecerem. Era uma manhã de nevoeiro, gélida e cinzenta.

Rui era alto, cuidado com a imagem e confiante, bastante confiante. Filipe era tímido, encorpado e ligeiramente mais baixo. Viram-se ao longe, no meio da multidão que enchia a estação de comboios. Os olhares fitaram-nos e algo os aproximou, quase telecomandados. Era a primeira vez que se olhavam, que se cheiravam, que se sentiam como realmente se deve sentir alguém: ao vivo. 

- Olá! - disse Filipe, com um sorriso tímido e um pouco nervoso;

- Olá pequenino - respondeu Rui, lá do alto da sua estatura e seguro de si, puxando Filipe para junto do seu corpo, envolvendo-o nos seus braços longos e fortes.

Precisaram apenas daquilo, de um simples toque para que algo acontecesse, de forma natural e automática. O cheiro de um envolvia o outro, as pessoas à volta ficaram como personagens de um filme mudo, criando uma cena onde só eles os dois interessavam. Estavam ali os dois, debaixo daquele amanhecer gelado, nos braços um do outro, onde o olhar falava e o corpo pedia que se libertassem de toda a roupa que tinham. Diz quem percebe do assunto que a atração física mais não é do que um conjunto de alterações hormonais e moleculares, despoletadas pelo fluxo de informação entre dois neurónios, o que origina um aumento de dopamina, uma substância estimulante do sistema nervoso. Porém, eles não detinham tais conhecimentos. Sabiam apenas que algo os atraía, que fazia acender uma chama intensa que desejavam apagar a todo o custo.

Como combinado, iam passar a manhã a casa de Rui. Não falaram muito durante aquela hora de metro, até casa. Apenas se olhavam. Olhavam-se de alto a baixo, absorvendo cada pormenor, cada traço, cada curva, cada desenho do corpo um do outro. Olhavam-se e gostavam do que viam. Os olhares abertos e os lábios mordidos refletiam toda a incrível magia que acontecia dentro deles. Contorciam-se para não saltarem para o colo um do outro, da mesma forma como é difícil evitar que dois ímanes de lados opostos se atraiam. Tocavam-se discretamente, de quando em vez, nas mãos um do outro. Os dedos de Filipe passavam delicadamente nas mãos de Rui, percorrendo os seus dedos grossos e as veias salientes que marcavam aquelas mãos quentes. Calaram as bocas e foi com o corpo e o olhar que falaram durante todo aquele encontro.

Uma hora depois lá estavam, em casa de Rui. Não houve espaço nem tempo para apresentações. Não era isso que precisavam naquele momento. Os corpos e os corações acelerados pediam apenas uma parede, uma parede onde se pudessem encostar e entregar um ao outro. Bastou um instante. Apenas um abrir e fechar de olhos para que Rui segurasse em Filipe ao colo e o beijasse intensamente. As bocas falavam a mesma língua, a do desejo, a do prazer carnal, da entrega a um momento de puro prazer. Olhavam-se intensamente e beijavam-se como se não houvesse amanhã, como se existisse todo um mundo que precisasse de ser libertado daqueles dois corpos que agora ganhavam as marcas das mãos um do outro. Entre beijos, suspiros e arrepios, Rui e Filipe encontravam-se um ao outro, agora nus, numa atmosfera que lhes era familiar: a do toque. Nada mais adoravam do que a sensação de estarem nus com alguém, de sentir corpo com corpo, pele com pele, envolvidos num ambiente ardente e ofegante.

Depois daquela viagem de metro, onde cada traço dos corpos havia sido imaginado, era agora tempo de o contemplar, ali, frente a frente, despido e iluminado por aquele sol de inverno que começava a raiar na janela. À vez, percorreram o corpo um do outro, de olhos fechados, dando vida ao melhor adereço que podiam pedir: as suas mãos. Eram dez dedos; dez delicados dedos que percorriam um corpo bem delineado, que estremecia quando a boca dava sinal de si e beijava cada recanto. Nada era previsível. Ora se perdiam na carícia e na descoberta um do outro, ora se entregavam à voz que lhes pedia mais e mais, agarrando, mordendo e beijando como se aquele fosse o último instante das suas vidas.

Depois de os corpos se tratarem por tu, agora marcados pelo desejo que os unia, seguiram enternecidos para a cama. Deitaram-se suavemente, ainda abraçados, arrepiando-se com a frieza da roupa que os esperava. Voltaram a olhar-se. Olharam e sorriram, meios desconcertados com tudo aquilo que estava a acontecer, mas confiantes que nada mais certo podiam estar a viver. Não eram eles que comandavam tudo aquilo, mas sim ambos os corpos que falavam e se aproximavam magneticamente, com uma força tão visceral que era impossível conter ou controlar.

Beijaram-se delicadamente, sentido cada centímetro dos lábios carnudos um do outro, enquanto os corpos se entrelaçavam entre si. Pouco depois, continuando sem ser necessário falar, perceberam que era o momento de se fundirem, entregando-se por completo um ao outro. Num gesto rápido, Filipe colocou-se de barriga para baixo, pernas afastadas e Rui assumiu o seu papel. Segurando firmemente o corpo que estava diante de si, Filipe respondeu ao pedido que lhe havia sido feito. Segundos depois, eram um só. Um só corpo em movimento, um só pedaço de carne que ganhava vida e se entregava ao desejo e ao calor do momento. O sol continuava a entrar pela pequena janela ao canto. Ao seu lado, dois seres viviam intensamente um momento único, inexplicável, mas desejado, muito desejado! Estavam ali, suados, marcados, envolvidos num jogo sem regras, onde apenas a vontade dos corpos importava. Durante aqueles longos minutos, nunca se falaram. Apenas se entregaram ao desejo, olhando-se intensamente. Sabiam bem o que fazer para encher o outro de prazer. Sabiam bem como dar uso a tudo o que tinham naquele momento: dois corpos sedentos de paixão e de fervor. O corpo humano consegue ser um lugar muito rico, se bem explorado e aproveitado, e isso eles sabiam! Não entendiam como se conseguiam satisfazer tão bem, apenas se olhando, mas sabiam que não podiam pedir nada mais. Continuaram, até o desejo atingir o seu ponto alto e culminar na maior libertação que aquele momento podia pedir.

Vivido aquele tempo de puro desejo, Filipe pediu para que Rui o guiasse até à casa de banho. Lá, e já seguro e confortável com toda aquela magia, Filipe encheu a banheira, pedindo a Rui para que entrasse e se deitasse confortável. Depois de cheia, foi a vez de Filipe entrar. Mais uma vez, um novo gesto que se assumiu de forma natural foi ao encontro dos desejos um do outro.

Já deitados, num banho de espuma reconfortante e igualmente envolvidos no corpo um do outro, beijaram-se e ali ficaram, entre sorrisos e carícias, num corpo até então desconhecido e agora tão familiar. Os corações, antes acelerados e ávidos de um momento intenso, estavam agora tranquilos. As mãos, esses grandes adereços daquela manhã, percorriam agora os braços um do outro, cheios de espuma e levemente perfumados. Estavam como sempre quiseram estar, da forma mais natural que dois amantes podem assumir: nus e entregues um ao outro, onde bocas não falam e corpos não se calam.

Estranha forma de ser

06.10.18, Miguel Oliveira

À medida que o tempo passa fico mais convencido de que somos seres estranhos, seres com uma estranha forma de viver. Só quando temos uma doença grave é que começamos a dar valor à nossa saúde e às pequenas coisas que nos rodeiam, antes ignoradas e trocadas por tantas outras coisas sem grande importância; quem adora adrenalina e andar no limite, só quando tem um susto valente é que pondera a sua atitude para que consiga viver mais tempo; só quando nos magoam emocionalmente (e acrescentando um pouco de sensatez) é que olhamos para aquilo que fazemos e para a forma como nos relacionamos daí em diante; só quando passamos por um momento de crise ou dificuldade financeira é que começamos a olhar para os gastos e a diferenciar aquilo que é essencial do que é supérfluo. Estes são apenas alguns exemplos da nossa forma de estar na vida, vida essa que começa sem nada e onde o nosso choro, sinal de saúde e bem estar, é motivo de festa para a equipa médica que assiste ao nosso nascimento. 

Vivemos sem prestar atenção ao que recebemos, ao pouco que damos e ao ínfimo que valorizamos. Damos tudo por garantido até que nos falte ou que nos seja pregada uma partida.

Isabel Allende diz que "temos dentro de nós uma reserva insuspeita de força que surge quando a vida nos põe à prova", o que concordo, mas se assim é, se conseguimos mudar a nossa forma de estar na vida quando algo nos corre mal, por que razão não vivemos de uma outra forma? Por que razão precisamos que o elástico quase quebre para prestarmos atenção ao uso que fazemos dele? Não seria mais proveitoso e gratificante vivermos com mais consciência, de uma forma mais sensata e respeitosa, para connosco e para com os que nos rodeiam? 

 

Fragmentos

04.10.18, Miguel Oliveira

Durante muito tempo fui alguém que se preocupava somente com o futuro. Pensava só no amanhã, de como e quando chegaria, o que me iria trazer, onde iria estar, como me iria sentir. Vivia desmesuradamente uma realidade que não é possível viver porque nada mais temos do que aquilo que somos a cada segundo. Com o tempo, e desiludido por esperar por um amanhã que nunca chegava como ansiava, fui aprendendo a viver o presente, a aceitar o passado e a ter esperança no futuro, mas um futuro que acredito que me trará coisas boas para viver e sentir, e não como uma realidade para onde quero dar o salto neste momento. Aprendi, na minha ótica da coisa, a viver o momento. E porquê na minha ótica? Porque acredito que hoje em dia se vive essa ideia de uma forma exagerada. Olho à volta e as pessoas querem viver o momento, mas como se não houvesse amanhã. Querem viver tudo hoje, experienciar tudo e mais alguma coisa, viver no limite, tudo porque a grande máxima é “só temos esta vida. Se não viver agora, já não vivo”. Não tenho nada contra essa ideia de vivermos as coisas intensamente porque, de facto, só temos esta vida e não sabemos quando acaba. Porém, acho que é tudo muito desmedido. Eu posso viver o momento, entregar-me a ele e tirar tudo o que ele tem de bom, se o momento me disser algo, se me acrescentar alguma coisa, se me fizer feliz, se me preencher. Esta é a minha ótica, e não viver o momento como seres autómatos, que apenas estão ali e vão atrás de tudo o que lhes surge “porque é o momento”.

Acredito que nos devemos conhecer, saber o que somos, o que queremos e o que valorizamos para, aí sim, viver os momentos ao máximo, mas apenas aqueles que nos fazem sentido, que vão de encontro à nossa pessoa, aos nossos objetivos, porque depois de todos os momentos, é connosco que ficamos, quando tudo se apaga e tudo à nossa volta vira silêncio. E depois? Como nos vamos sentir se fizermos algo de forma inconsequente, inconsistente com os nossos valores?

Acredito que vivo o momento, mas para a minha vida ser um conjunto de momentos especiais, onde me revejo e fico confortável com isso, e não um conjunto de momentos fragmentados, que substância alguma me acrescentam. Vivo os momentos para ter história e não para ter momentos.