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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Um menu repleto de ingredientes extra

30.11.18, Miguel Oliveira

Hoje fui a um workshop sobre intervenção sexual em terapia de casal. A paixão pela terapia de casal descobria-a o ano passado, aquando do meu estágio curricular. As questões da intimidade, do sexo e do erotismo sempre me disseram muito, pela naturalidade e abertura que tenho para os assuntos e, paralelamente, pelo tabu que existe em torno destas questões. 

Quem fala abertamente de sexo anal?

Quem fala abertamente de ejaculação na boca? 

Quem fala abertamente de prazer e de tudo aquilo que vai além da penetração? 

Não sou nenhum entendido na matéria, longe disso. Mas sou um curioso, teórico e prático, gosto de saber, de explorar, de aplicar naturalidade no que é natural. 

Este workshop, além de um cheirinho essencial daquilo que deverá fazer parte da formação de um técnico, foi uma amostra do que deveria ser apresentado à população em geral. As pessoas precisam de ser informadas, precisam de ter as cabeças desempoeiradas e as ideias desmistificadas. Como em muitas outras questões, hoje temos um acesso fácil e instantâneo à informação, mas não a retemos, nem sempre a filtramos e não raras vezes serve apenas para complicar uma situação que já nos incomoda, só por si. 

Existem disfunções e dificuldades sexuais, existem questões muito específicas que deverão ser trabalhadas individualmente ou em casal, mas existe muito além disto. Existe um trabalho muito grande que chamaria de educação sexual, uma passagem de informação pertinente e esclarecedora, que chegue às pessoas e que permita a abertura que esta temática exige.

Questões como “pode haver sexo sem penetração”, “o orgasmo não é o objetivo do sexo” ou “os homens deviam ter o pénis nas costas” são ideias que podem soar a estranho e descabido. Mas não, longe disso. Já as tinha ouvido proferidas pela terapeuta sexual que deu a formação e hoje pude compreendê-las melhor. 

A ideia, errada, de que sexo é sinónimo de penetração (vaginal, dado que a penetração anal é uma questão ainda mais sensível) reduz a muito pouco aquilo que é a vivência da intimidade, do erotismo, do toque e da descoberta dos corpos de cada um dos parceiros. Chamar preliminares ao que antecede o “verdadeiro sexo” atribui-lhe um caráter secundário/opcional, enfraquecendo a envolvência íntima de um casal. Ter o orgasmo como o fim último de uma relação, que já por si está reduzida a muito pouco, quando se aplica sinonímia entre sexo e penetração, é uma ideia que precisa de ser trabalhada. Como nos foi dito, e que faz pensar, o orgasmo são os últimos 10 segundos de uma relação sexual. Valerá a pena sobrevalorizar este momento em detrimento de tudo o resto? E o toque? E a pele? E as sensações tidas em cada parte do corpo? E os arrepios que nos fazem morder o lábio? E a exploração das fantasias e dos desejos de cada elemento do casal?

Já aqui falei da necessidade de se ser criativo, de se descobrir o próprio corpo antes de descobrir o corpo do outro e continuo a achar que é uma tarefa muito útil, mesmo na vivência de uma intimidade a dois. E pensar num corpo a ser explorado imaginando-o sem mamas/mamilos e sem genitais? Parece estranho? Ora aí está um trabalho interessante de ser feito. 

E se for dito que SIM e NÃO têm (ou deveriam ter) o mesmo caráter positivo quando se fala de um convite sexual por parte do parceiro? Tal como explicado pela terapeuta, “honestidade”, “bem estar” e “liberdade” são questões essenciais a trabalhar com os casais, e elementos a estarem presentes nas bases da sua relação. É com base nestes conceitos que haverá abertura para a comunicação, para a expressão sincera daquilo que são as vontades e os desejos de cada um. 

Este post não serve, nem de longe nem de perto, para transmitir aquilo que pude aprender e vivenciar hoje. Antes disso, e à semelhança do que tento fazer em muitos outros posts, serve para dar voz às coisas, chamá-las pelos nomes e lançá-las para o mundo, esperando que façam alguém questionar-se, pensar sobre elas e daí surgir algo novo. 

Como diz a terapeuta, Marta Crawford, a sexualidade deve ser entendida como um menu de degustação (e há tanto por degustar)...

Lembranças

28.11.18, Miguel Oliveira

Vejo-me como alguém romântico, dedicado, que procura valorizar as pequenas coisas, enaltecendo-lhes o valor e não o seu custo. Não sou de dar prendas, nunca fui. Prefiro pequenos miminhos, algo simbólico feito por mim, onde esteja espelhado um pouco do que aquela pessoa significa para mim. Acho mais pessoal e representativo da união que existe entre as pessoas, muito mais do que um qualquer bem que qualquer pessoa poderia comprar. No entanto, houve alturas em que me senti um ser à parte, alguém que tinha umas ideias diferentes, gostos estranhos e pouco entendidos. Mas a vida fez-me manter a minha visão e tem-me trazido pessoas com os mesmos "gostos estranhos". 

Nestas pequenas coisas, onde podem estar cartas, bilhetes deixados propositadamente em determinado sítio, fotografias com um beijinho ou uma mensagem enviada só para dizer algo sentido a alguém, há sentimento, há entrega, há dedicação.

Nas épocas festivas, altura eleita para demonstrar afetos, tendemos a querer impressionar, dar algo bom, quanto mais caro melhor porque só assim demonstramos o quanto aquela pessoa significa para nós. Nada contra isto, mas a minha filosofia e a minha conta bancária encaram isto de forma diferente. Por que é que não nos contentamos com um postal? Por que é que menosprezamos um "simples" porta chaves? Por que é que recebemos com um sorriso amarelo aquela moldura com uma fotografia ou aquela caixa de cartão repleta de recordações daqueles momentos vividos a dois? Porque custou pouco? Porque não é digno de ser partilhado e apresentado aos outros, com a mesma felicidade de quem recebe um iPhone ou uma câmara fotográfica acabada de lançar? Quando nos dão essas coisas "simples", esquecemo-nos de que aquela pessoa, com o muito ou o pouco que tem, disponibilizou-se a partilhá-lo connosco, dedicou-nos parte do seu tempo para nos fazer algo diferente, para nos presentear com um gesto carinhoso.

Mais do que nunca, acho que devemos ter atenção às lentes que usamos para encarar a vida, para encarar os que nos rodeiam e aprendermos a ser mais gratos. Gratidão, precisamos de mais gratidão!

Uma ferida aberta

27.11.18, Miguel Oliveira

É uma manhã chuvosa de outono. Lá fora as árvores acenam a quem passa. As folhas caídas no chão envolvem-se numa dança sem fim. Tudo parece ter movimento e energia, menos eu. Faltas-me tu. Ou talvez me falte a parte de mim que levaste contigo no dia em que foste embora. Ou talvez me faltem os dois. Mas sinto falta de ti, de mim, de nós. É um vazio difícil de explicar. É como se olhasse para dentro de mim e houvesse um buraco fundo, gelado, escuro, daqueles onde não há vida e o mínimo som ecoa até mais não.

Olho para trás e parece que ainda ontem estavas aqui. Ainda ontem estávamos nos braços um do outro, naquele conforto tão nosso, nos olhares que falavam e nos lábios que sorriam. Falta o teu abraço, o teu toque, a nossa gargalhada, os nossos sorrisos. 

Em tempos pensei no fim de uma relação como um golpe que não sara. Um corte que está sempre fresco, pronto para nos magoar ao mais pequeno toque. É como se tivesse de fazer tudo como dantes, mas com aquele golpe no dedo que me atrapalha em tudo. É fazer de tudo para que feche, para que se reduza a uma simples marca, e quando está quase a ficar curado, um novo percalço acontece e volta tudo ao início. Não sei como me ocupar, como preencher este espaço e sarar esta ferida. Até nisso fazes falta.

 

Sex toys: vamos brincar?

21.11.18, Miguel Oliveira

Nas palavras da psicóloga clínica e sexóloga Alexandra Carvalheira, autora do livro "Em defesa do erotismo", as fantasias sexuais são como as impressões digitais, cada um tem as suas, mais ou menos elaboradas, mais ou menos ficcionadas, passíveis de serem realizadas ou não. Porém, todas elas têm a função de "recriar e elaborar as vivências sexuais com o objetivo da excitação sexual", afirma a autora. 

Cada pessoa é detentora do seu património erótico, uma espécie de arquivo onde colecionamos fantasias, sensações, memórias e cheiros de caráter erótico. Surge, assim, o erotismo como "aquilo que a imaginação acrescenta à natureza". Estas parecem-me ser ideias essenciais para princípio de conversa, com o objetivo de clarificar as nossas cabeças e as nossas conversas, empregando naturalidade ao que é natural, ao que é humano. A imaginação não tem limites, faz parte de todos nós e é um dos componentes principais do erotismo, essa chama que acende o desejo sexual. 

Autorizada que está a liberdade da minha imaginação e criatividade (sexuais), passo ao assunto principal deste texto - os sex toys (brinquedos sexuais).

Antes de qualquer outra coisa, lanço a questão: já visitou uma sex shop, em loja física ou loja online? Curioso por natureza, só mesmo para ter conhecimento de causa, devia ter os meus 16/17 anos quando visitei uma pela primeira vez. São um mundo. Se não conhece, existem várias lojas online, onde a timidez e a vergonha de dar uma espreitadela não têm lugar. 

Agora, uma pergunta que só me lembro de fazer a duas pessoas com quem tenho muita confiança, mas que mesmo assim me causou algum desconforto no momento de a fazer: já usou um brinquedo sexual?

Já por aqui partilhei que o sexo tem vindo a ser banalizado, estando presente em novelas, filmes, livros, programas de televisão, etc. Conseguimos falar de sexo com alguma naturalidade, sobretudo quando as pessoas pertencem à mesma faixa etária. Nos mais novos, penso que é ainda mais fácil de falar, sobretudo nas primeiras experiências sexuais, com um pouco de vaidade até, onde a "nossa primeira vez" constitui um marco que tende a ser partilhado. E aqui não vou entrar em questões de género, porque sexo é sexo e é uma necessidade fisiológica para todos. Mas então, não estará aqui a maior porta de entrada para a nossa intimidade? Falamos da nossa maior conquista íntima com grande naturalidade, mas somos incapazes de falar abertamente sobre brinquedos sexuais, meros acessórios que dão cor e vida às nossas fantasias? Falar de dildos, vibradores ou algemas não é "coisa de tarado". Pode, isso sim, ser uma realidade que faça sentido a umas pessoas e não a outras, consoante os seus desejos e fantasias. E sim, sei que as questões sociais e culturais, nomeadamente no que diz respeito ao papel de género e às orientações sexuais, têm muito impacto nesta temática. Mas porquê? Falta de informação? Falta de conhecimento? Será que falta chegar informação como esta a mais casas? 

E desengane-se quem pensa, como eu julgava, que isto dos brinquedos é algo recente. Uma antropóloga brasileira que se dedica a este assunto descobriu referências a objetos sexuais, de madeira ou couro, com a forma do órgão genital masculino, no século III. Mais próximo da nossa realidade, no início do século XX, os vibradores eram aconselhados por médicos americanos como prendas que os maridos deviam oferecer às esposas. 

É já depois da segunda metade do século XX, com o aparecimento das sex shops, que surge a noção de sex toy, definido como um acessório, um elemento adicional que serve para divertir. E é apenas isto: um acessório, de entre muitos, onde as suas formas, cores e materiais convidam a outras possibilidades de fantasias. Independentemente da orientação sexual, sozinho(a) ou com parceiro(a) sexual, os brinquedos sexuais são meros auxiliares de prazer e diversão. Foram criados com esse intuito. Não vamos complicar o que não é complicado. A maldade das coisas está na mente das pessoas, como dizem as gentes do Norte, por utilizarem asneiras na sua comunicação.

Vamos a um exemplo dos meus que, para quem não sabe, são sempre ao lado daquilo que é o foco da conversa: as lojas de bijuteria têm brincos, colares e pulseiras. Existem peças masculinas e femininas. Usa quem gosta, quem se identifica com o acessório e faz as combinações que julga adequadas à sua imagem. Há quem os use a todos e quem use apenas um. Há quem os use todos os dias,  com alguma regularidade ou quem os coloque uma vez por festa. Com os brinquedos sexuais é exatamente a mesma coisa. 

Se me dizem alguma coisa? Dizem!

Se todos temos que os usar? Não!

Se tem de haver constrangimento ao falar neles? Nem pensar! 

À velocidade de um fósforo

20.11.18, Miguel Oliveira

Queremos tudo, achamos que temos o direito a tudo e abraçamos tudo antes que tudo acabe. Se há algum mal? Penso que não, pelo menos até certo ponto. Afinal, só temos esta vida e é com ambição e sonhos que nos descobrimos e evoluímos. O problema é quando essa ânsia e rapidez se instala na nossa vida e passamos a viver num fragmento de segundo. Tudo é vivido à velocidade de um fósforo, um countdown semelhante ao dos Insta Stories que nos invadem e acompanham o dia a dia. 

Conhecemos alguém e algo surge entre ambos. Tudo é combustão, só comparável à chama intensa e luminosa que surge quando se passa um fósforo na faixa rugosa da sua caixa. É calor, é brilho, é uma magia que nos invade o olhar e nos prende fixamente. Com o tempo, não muito tempo, essa magia vai passando e a chama vai ficando cada vez mais fraca, deixando para trás um passado recente. A memória de um ontem vivo e ardente, dá lugar a um agora que se vislumbra sombrio e solitário, culpa das relações descartáveis e momentâneas que hoje se procuram e cultivam. E não falo apenas de relações amorosas. As relações de “amizade” hoje em dia seguem o mesmo padrão: muita cumplicidade, muita alegria, muitos planos e, do dia para a noite, tudo desaparece, ora porque há outros planos e interesses ora porque outros encontros e necessidades se atravessam no caminho de uma ou ambas as partes. Mas porquê? Por que é que nos cansamos uns dos outros? Por que motivo não dedicamos tempo a quem nos rodeia, a quem já entrou nas nossas vidas? De onde vem tanta falta de sentimento e de envolvimento? De onde vem tanto medo de gostar e ser gostado? 

Cristina, por exemplo

19.11.18, Miguel Oliveira

Cristina Ferreira foi eleita Mulher do Ano na gala Men of The Year, da revista GQ Portugal. As notícias dão conta do acontecimento e os comentários, muitos deles como têm sido hábito sempre que se fala da apresentadora, são depreciativos, questionando o seu papel e contributo para a sociedade, não faltando os comentários à sua voz estridente, ao seu estilo “parolo”, como dizem, e às muitas férias que faz. Como pessoa influente que é, e isso é inegável, há quem a adore e quem a odeie. Gostos à parte, este é só um exemplo para abordar o assunto sobre o qual escrevo hoje. 

Não temos de gostar nem de nos identificarmos com toda a gente. Nisso não há mal nenhum e este não é um texto a favor ou para defender a apresentadora. No entanto, os comentários e as questões que se levantam em torno desta nomeação são o exemplo daquilo que é a realidade dos nossos dias: olhamos pela superfície, tecemos comentários rápidos e fáceis sobre tudo e todos, lá do alto da nossa sabedoria e poder de argumentação.

As redes sociais tornaram-se poços de (múltiplas) verdades absolutas, auditórios de gente informada e detentoras de conhecimento fidedigno, onde a ofensa e o insulto surgem de forma gratuita. Sobre isto, penso que falta humildade, que falta noção, que falta algum controlo nas palavras e na "língua", porque estamos a falar de pessoas e de vidas, que não conhecemos, porque mais ou menos familiar, só quem está no convento sabe o que lá vai dentro. Se pudesse deixar um conselho, assinava por baixo do psicólogo Jordan Peterson - "Ponha a sua casa em ordem antes de criticar o mundo". 

À superfície

16.11.18, Miguel Oliveira

Vivemos numa sociedade sem tempo, onde as horas são reféns das obrigações e não nos sobra tempo para nos olharmos, para nos escutarmos, para sermos aquilo que deveríamos ser: mais humanos. 

Quantas vezes, na azáfama do dia a dia, nos vamos distanciando daqueles que em tempos nos foram próximos? Quantas vezes já nos aconteceu cruzarmo-nos com alguém que não víamos há algum tempo e o nosso primeiro impulso é perguntar como está a sua vida? Se já namora ou casou, se já saiu de casa dos pais ou se tem filhos, se já comprou ou concretizou aquela ideia que tinha em mente da última vez que a vimos? Voltamo-nos para fora, para as conquistas, para os desafios, mas não lhe perguntamos se está bem, como se sente, se anda feliz, se está satisfeita com a sua vida, se precisa de falar sobre alguma coisa.

Sim, essa pessoa pode até já estar numa relação, mas está bem? Sente-se amada e está feliz?

Sim, conseguiu concluir o curso ou foi promovida, mas como se sente no novo cargo? Foi uma mudança positiva ou foi um virar de página acompanhado de sentimentos menos positivos?

Temos de desenvolver esta nossa forma de abordar os outros, de nos fazermos chegar e demonstrar interesse genuíno pela pessoa, pelo seu bem estar e pela sua tranquilidade. Talvez gostássemos que fizessem o mesmo por nós...

Já não se fala de amor

15.11.18, Miguel Oliveira

Crescemos com contos de fadas, histórias de príncipes e princesas que tudo fazem para vingar o seu amor, filmes onde as personagens principais se encontram em determinado momento do seu percurso e algo acontece, de forma inesperada, marcando-os e dando um novo rumo às suas vidas. Assim sendo, não é de estranhar que o primeiro impulso quando se fala em amor, sobretudo nos mais novos, seja o de um sinónimo de felicidade, um sentimento de nível superior onde tudo é bom e os problemas não entram. Porém, parece que a noção de amor se tem tornado num bem apenas acessível a gente crescida...

Num congresso a que fui recentemente, uma das palestrantes dizia que os jovens já não falam em amor, que não utilizam a palavra “amor” para se referir aos seus relacionamentos e aos seus sentimentos. Utilizam antes outras expressões, exprimem-se de uma outra forma. Ao ouvir isto, a minha reação foi imediata: ainda bem que não falam em amor, ainda bem que não rotulam as suas experiências com o mais nobre dos sentimentos. Caso contrário, iriam estar a menosprezar algo tão bonito, tão rico e de tanto valor! Mas atenção, eu não estou a dizer que o amor não faz falta e que não se falar de amor é uma conquista há muito desejada. Nada disso! Apenas se despertou algum contentamento por saber que os mais jovens não descrevem as suas relações e experiências como sendo amor. 

O amor não é um patamar que se atinge, mas sim um terreno que precisa de ser nutrido e conquistado, muito além do tempo ou das experiências já vividas. O amor implica lágrimas, cedências, comunicação (ou melhor, metacomunicação, um outro nível de comunicação que tem o poder de fazer a diferença nas relações), esforços, dedicação, atenção.

Amar não é só mandar mensagens com emojis fofinhos e cheios de cor, capazes de fazer sorrir o destinatário. É, antes, mandar essas mesmas mensagens juntamente com outras que cuidem o outro, que demonstrem interesse, preocupação e genuinidade. Amar é ligar para saber como está aquela pessoa especial, como se sente e como foi o seu dia. Mas gestos feitos com coração e com interesse, onde a obrigação não tem lugar. 

Amar não é só estar presente para passear ou para celebrar. O amor está longe de se resumir a momentos maravilhosos e brilhantes, dignos de serem partilhados nas redes sociais, de forma a mostrarmos ao mundo como somos felizes e "sortudos" por ter alguém ao nosso lado. Também é amor quando não há passeios nem festas, e o mais inóspito espaço ou recanto se converte num local aconchegante para um abraço, para um amparo e um desabafo de um dia em que não deveríamos ter saído da cama. 

Amar não é só fazer sexo, mas estar presente mesmo quando o outro não o quer fazer. É amor quando se procura criar espaço para que ambos se exprimam, partilhem o porquê de não querer fazer sexo ou o que querem fazer de diferente.

Amar não é facilitismo. Não ama quem simplesmente fecha a porta ou deixa de responder às mensagens só para não se chatear ou estragar o seu dia, só porque não está para aturar quem está ao nosso lado. Ama quem tem a porta aberta e permanece, mesmo nos nossos piores dias, que se preocupa e demonstra vontade de ajudar, mesmo que não o consiga. Ama quem tem a consciência de que há dias bons e dias menos bons, hoje para um e amanhã para o outro. Somos muito egoístas e paradoxais. Não temos paciência para "aturar as coisas dele/a", mas queremos e achamo-nos donos da razão quando precisamos que ele/a esteja ao nosso lado. 

Amar não é só dar prendas bonitas ou convidar para jantares românticos. Amar são também refeições simples e pequenas demonstrações de carinho, porque mesmo com pouco, aquela pessoa dedicou-se a preparar algo para ti. 

É um legado comum ouvir-se a expressão "não há nada garantido nesta vida". O amor não é exceção. E não é preciso pensar muito para perceber porquê: como é que começou a relação? Não foi com uma sucessão de encontros, de partilhas e de momentos que se foram tornando especiais ao longo do tempo? Então se nasceu assim, morrerá no momento em que isso terminar. 

Por tudo isto, e apesar de ser "um jovem", ainda bem que os meus pares já não falam em amor. Ainda bem que não se aplica um rótulo de tamanha importância a um conjunto de experiências cada vez mais físicas e sexuais, tantas vezes desprovidas de esforço e genuinidade. Vivam o que querem viver, experienciem, troquem de par, "comam-se" como se não houvesse amanhã. Isso ao lado do amor não é nada!

A vida num novelo

09.11.18, Miguel Oliveira

Imaginem dois novelos de lã, perfeitamente enrolados. Um deles, pensem-no com cores alegres, cores vivas e que vos transmita coisas positivas. O outro, imaginem-no com tons mais tristes. O primeiro, o das cores garridas e positivas, é o novelo do amor. O outro, carrancudo e cinzentão, é o novelo do medo. Esta analogia surgiu-me depois de me cruzar com uma citação de um livro que dizia algo do género: o ser humano é norteado apenas por dois marcos - o amor e o medo. É cada um deles que norteia a nossa conduta, que nos faz avançar ou ficar paralisados, que nos faz envolver ou afastarmo-nos de determinada tarefa ou acontecimento.

Quando li esta afirmação parei. Quis pensar se realmente poderíamos descrever todo o nosso comportamento de um modo aparentemente tão simples e linear. Ou era uma coisa ou era outra. O que concluí? Que sim, perante qualquer situação ou é o amor ou o medo que nos faz tomar a decisão, e foi aí que surgiram os dois novelos. No entanto, nada existe só porque sim nem é o que é de forma isolada, então "amor" e "medo" são muito mais do que apenas "amor" e "medo". 

Pegando no novelo do amor e começando a desfazer a sua forma esférica encontro alegria, entusiasmo, prazer, excitação, admiração, coragem, esperança, conforto, amizade, superação, motivação. Por outro lado, ao pegar na ponta do novelo do medo, à medida que o vou desenrolando surgem os seus elementos: ansiedade, desânimo, falha, culpa, solidão, desconhecido, arrependimento, inseguranças. 

É assim que nós vivemos, é com base nestes elementos e nas experiências anteriores que avançamos ou ficamos parados, que nos entregamos a algo que nos apaixona, que nos dá motivação e prazer, ou que com medo de falhar, de não ser capaz ou de nos arrependermos, ficamos no mesmo sítio, da mesma forma, sem nenhum acrescento. Então, a vida pode estar num novelo, tudo depende de qual escolhemos e de que elementos queremos fazer a nossa história. 

Cuidar do Eu

06.11.18, Miguel Oliveira

Façamos ou não, certamente já todos lemos estes ou outros conselhos de beleza/cuidado pessoal: é à noite que uma correta higiene dentária mais falta faz, dado tudo aquilo que vamos ingerindo ao longo do dia; é à noite que melhor devemos limpar e hidratar o rosto dada a transpiração, oxidação celular e poluição que enfrentamos ao longo de todo o dia; é à noite que uma boa hidratação das mãos e dos pés é mais recomendada dado o nosso período de repouso.

Tudo isto são dicas para cuidarmos do nosso exterior, para nos apresentarmos com uma imagem mais cuidada. Porém, que imagem apresentamos a nós próprios? Se cuidamos do nosso exterior, porque não cuidamos igualmente do nosso interior? Quando fazemos a nossa limpeza e nutrição interna? Porque não à noite também? Porque não quando nos deitamos? Acredito mesmo que um curto momento de reflexão sobre o que foi o nosso dia pode fazer a diferença. Algo tão simples como o que fizemos de bom e de menos bom; o que nos agradou, dada a nossa atitude, e o que nos deixou inquietos e insatisfeitos, de forma a manter o bom e a ter mais atenção ao menos bom; qual o momento alto do dia e qual o pior. Estas e tantas outras questões vão fazer com que olhemos por nós, com que olhemos para nós e saibamos onde e como estamos. 

Vivemos ritmos alucinantes, sempre de um lado para o outro, agindo muitas vezes em modo de piloto automático. E onde ficamos no meio dessa correria? Como e onde nos encontramos connosco?

Se todos os dias são um novo recomeço e uma nova oportunidade para fazer mais e melhor, então olhemos pelo que fizemos hoje, e o amanhã será mais rico.