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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

O melhor de cada um

29.01.19, Miguel Oliveira

Agradecer é uma das minhas palavras de ordem. Não deixo nada por agradecer àqueles que me são queridos. Agradecer o gesto, o carinho, a palavra, o abraço, o sorriso, a presença.

Como não agradecer a pessoas que estão ali, em todos os momentos, para todas as ocasiões? Pessoas que captam o nosso melhor lado, que revelam em nós o nosso melhor sorriso, a nossa mais profunda gargalhada, o nosso lado mais atrevido e inusitado. Pessoas completas, que nos fazem chorar de tanto rir, da mesma forma como se sentam diante de nós e nos lançam a mais profunda das conversas.

Precisamos de pessoas que nos dão colo num momento difícil, da mesma forma como nos dão o mais apertado abraço de felicitações. Precisamos urgentemente de pessoas genuínas, que reconheçam o poder da sinceridade, do olhar, do sorriso e do toque. Ao meu lado, tenho os melhores, que revelam em mim o meu melhor!  

Ao lado

23.01.19, Miguel Oliveira

Capturamos mais os momentos do que os vivemos. 

Mandamos mais mensagens com corações do que as vezes que dizemos “gosto de ti” à pessoa em questão. 

Perdemos mais tempo a editarmos e filtrarmos as nossas fotos do que a procurar amar o que somos.

Enviamos mais mensagens calorosas do que os abraços quentes que partilhamos. 

Sonhamos ansiosamente com o que vamos fazer num amanhã, em vez de tornarmos o dia de hoje num dia rico. 

Olhamos mais para o que ainda nos falta do que para o que já conseguimos. 

 

Se é ao lado ou do lado contrário, não sei, mas andamos desviados do que realmente importa.

Virgindade sem tempo

22.01.19, Miguel Oliveira

Uma rapariga de 18 anos, participante de um programa de televisão, afirma nunca ter namorado nem beijado alguém. Estas afirmações são usadas na divulgação do episódio, nas redes sociais. Reações imediatas? Insultos, troça e comentários desprovidos de qualquer noção. 

Estamos em pleno século XXI, altura em que as redes sociais fazem parte do nosso dia a dia e servem para tudo. A era das aplicações revolucionou a forma como contactamos, como nos conhecemos uns aos outros e como partilhamos parte da nossa vida com quem queremos. Hoje conseguimos marcar encontros, sexuais ou não, num click, sendo fácil (e rápido) ter envolvimentos sexuais com qualquer pessoa, independentemente da sua localização geográfica. Se isto é um facto e uma das consequências dos tempos modernos, o direito à privacidade, à intimidade e à vontade própria continuam a existir e devem ser respeitados. 

Os envolvimentos sexuais começam cada vez mais cedo, é sabido. Da mesma forma, também a investigação (Kinsey Institute, 2017) revela que é entre os 18 e os 29 anos que se tem uma vida sexual mais ativa, com uma média de três relacionamentos sexuais por semana. Porém, isto tem de ser imposto? Temos de obrigar todos os jovens a envolver-se sexualmente só "porque está na idade", da mesma forma como somos obrigados a ir ao Dia da Defesa Nacional? E digo jovens porque isto não é um assunto apenas de raparigas.

Longe vai o tempo onde as pessoas se "guardavam para o casamento". Porém, todos temos o nosso tempo, os nossos interesses, as nossas convicções e os nossos fantasmas. E perante isto, basta apenas respeitar!

A "propaganda" ao sexo está presente em livros, séries, filmes, novelas e nas conversas de qualquer grupo. Fala-se dele com mais naturalidade, desde idades cada vez mais jovens. Mas esquecemo-nos de algo importante: iniciar a nossa vida sexual é entrar num mundo desconhecido, um mundo repleto de informações, de vivências, de possibilidades. Iniciar a nossa vida sexual é iniciar uma aventura onde raramente tudo corre bem à primeira, é envolvermo-nos com questões de autoestima, de imagem corporal e de performance, onde o nu e o desempenho sexual são avaliados e julgados. Ainda que faça parte de nós e do nosso desenvolvimento, é uma área da nossa vida que envolve muitas questões e que não deveria ser tão banalizado. 

Não sei quais foram as razões para a dita rapariga não ter iniciado a sua vida sexual. Sei, apenas, que está no seu direito, porque é dona de um corpo e de um espaço que só a ela pertencem. Quanto aos "especialistas" que a insultaram ou fizeram troça, gostava apenas de dizer que é por atitudes gratuitas como essas que muitas vezes crescemos envoltos de ideias feitas e que interferem com o nosso bem estar. 

Papéis e papás

18.01.19, Miguel Oliveira

António sempre foi o palhacinho da família. Desde pequeno que fazia rir todos à sua volta. Na escola era o mestre das situações inusitadas e das gargalhadas. Cresceu, formou-se e hoje é advogado, profissão que exigiu de António um lado mais sério e concentrado. 

Somos seres humanos, seres inseridos numa sociedade com a qual vivemos. Nela, temos múltiplos papéis, diferentes funções em variadíssimas circunstâncias. Somos filhos, irmãos, colegas, profissionais, amantes, amigos, pais. Cada circunstância, cada momento exige de nós um papel, um determinado comportamento, uma postura que tem de ser adequada àqueles que nos rodeiam. Imaginam o palhacinho do António a contar anedotas numa audiência? Talvez não. Mas não deixa de poder ser uma pessoa extrovertida e que aplica os seus dotes no seio de amigos e da família, certo? Apenas tem de se adequar ao local em que se encontra e ao papel que ocupa. O exemplo deste António é apenas isso, um exemplo para falar de algo bem mais sério. 

Ontem, na TVI, foi transmitida uma reportagem que procurava abordar a questão dos divórcios e da violência doméstica, levantando-se a questão de os filhos serem também vítimas da mesma violência, pelo facto de estarem envolvidos e presenciarem as guerras dos pais. Pois bem, é sobre pais que quero falar. 

Duas pessoas começam uma relação. Neste momento, forma-se um casal. Posteriormente, existe a possibilidade de este casal querer alargar a sua família e querer ter filhos. Quando tal acontece, o casal passa também a desempenhar a função de pais. Aquelas duas pessoas, que inicialmente tinham recebido o papel de serem companheiras uma da outra, agora receberam um novo papel - o de serem responsáveis por alguém.

É comum ouvir-se dizer, sobretudo aquando do nascimento do primeiro filho, que os recém papás não se podem esquecer que também são um casal, devendo olhar por si e pelos momentos a dois, pois é importante conciliar todos os papéis. Até aqui acho que está tudo claro e parece ser fácil distinguir as coisas. Porém, tudo se complica quando um casal com filhos se separa. E complicam-se quando existe a dificuldade em diferenciar tais papéis.

O que ali está a terminar é o tal primeiro papel que aquelas duas pessoas assumiram, o de serem companheiras uma da outra, o de terem uma relação amorosa. O que ali se finda é o projeto de vida conjunta que aquelas duas pessoas decidiram começar. Os filhos, aqueles que foram gerados por dois adultos, são e continuarão a ser isso mesmo, filhos. Da mesma forma, aqueles dois seres adultos que agora romperam com a sua união enquanto casal, continuarão a ser pais, estatuto que lhes foi atribuído a partir do momento em que geraram uma criança. É tudo uma questão de papéis.  

Os filhos não escolheram a sua família nem tão pouco o rumo amoroso da relação dos seus pais. Nasceram e a eles deve apenas incumbir-se a tarefa de serem filhos. Aos pais, cabe-lhes a tarefa de proteger, acarinhar e responder, na medida do possível, a todas as necessidades dos filhos. Por outro lado, e porque são coisas distintas, ao casal que agora se desfez resta-lhes resolver o que a eles diz respeito, enquanto ex-casal. Se há guerras entre A e B, devem ser resolvidas entre A e B, sem envolver os filhos. Se um não paga a pensão de alimentos ou o outro agarrou o seu direito de seguir com a sua vida, constituindo uma nova família, isso não deve ser colocado aos ombros de um filho. Não se têm de fomentar e alimentar jogos de rivais entre pais e filhos. Não é preciso A dar mais do que B; B comprar viagens mais caras do que A; A continuar solteiro(a) para mostrar que só quer amar o(a) filho(a) e não outra pessoa. Não é preciso nada disso. Sendo pais, porque o são até morrerem, têm apenas de cumprir o seu papel, permitindo à sua descendência a existência de dois progenitores, num ambiente harmonioso e de qualidade.

 

Quando termina um casamento, termina uma relação amorosa entre dois adultos, e não a obrigação desses dois adultos cuidarem e protegerem os seus filhos. É tudo uma questão de papéis, queridos papás. 

Tempo

17.01.19, Miguel Oliveira

Um dia tem 24 horas. O mesmo será dizer que tem 48 períodos de 30 minutos ou 96 períodos de 15 minutos. 

Todos os dias, cada um de nós dispõe destes períodos de tempo. Porém, e reconheço isso, cada pessoa tem o seu ritmo de vida, as suas obrigações, as suas rotinas, mas começo a acreditar na célebre frase "se os outros conseguem, tu também consegues". As horas são as mesmas. O que difere é a forma como as gerimos e rentabilizamos. 

Um dia, ao folhear um livro sobre gestão de tempo, li uma frase que dizia mais ou menos isto: quantos de nós dizem que não têm tempo? Quantas vezes adiamos arrumar a casa, por falta de tempo, mas se a sogra nos liga a dizer que vai passar por lá, em dez minutos conseguimos colocar tudo no lugar? Não tenho sogra, mas atribuí verdade à frase.

Estou a desafiar-me. A procurar cumprir um novo desafio a cada dia, ainda que balizado no tempo, nos tais períodos de tempo. 15 minutos hoje de uma atividade. 15 minutos amanhã de uma nova atividade e os mesmos 15 da atividade de ontem. Seja o que for, se nos fizer sentido e nos fizer bem, é bem feito, ainda que seja pouco o tempo que lhe dediquemos. Com o tempo, fará a diferença. 

Tempo, tudo é uma questão de tempo e do que fazemos com ele. 

Ir

16.01.19, Miguel Oliveira

Quarta feira, 16 de janeiro, 15h39. 

Não é uma segunda feira, não é dia 1 nem dia 15, muito menos uma hora certa. Talvez pudesse esperar pela próxima segunda, ou por um dia mais animado, já que nas desculpas nós humanos somos mestres. Mas foi o momento, o momento de fazer algo diferente, o momento de mudar. 

Passaram 16 dias desde o início do ano. Estamos na terceira semana do ano, num total de 52. O que já fizeste de novo? O que já fizeste de diferente? 

A mudança está na diferença. É preciso ir, mesmo a medo.

À procura do amor

15.01.19, Miguel Oliveira

Ao contrário de muita gente da minha idade, eu continuo a gostar de ver televisão e televisão portuguesa, na sua maioria. Cresci com ela e habituei-me a ocupar os serões com a sua companhia.

Uma das coisas que me cativa na televisão, à semelhança dos demais meios de comunicação, é o seu poder de entrar pela nossa casa e de nos trazer mensagens, de nos fazer parar para escutar o que nos é dito.

Nunca como agora vi tantos programas de amor, de procura de um(a) parceiro(a), de uma cara metade. Em Portugal, realizado com portugueses, temos  quatro recentes exemplos disso mesmo: Love on Top (TVI, que vai na sua décima edição); Casados à Primeira Vista (SIC, 2018); O Carro do Amor (SIC, 2019) e First Dates (TVI, 2019). À exceção do primeiro, do qual não sou fã devido aos concorrentes escolhidos e à dinâmica que dão ao programa que, a meu ver, nada tem a ver com a procura de uma cara metade e em muito se afasta da dinâmica original do formato, os outros três programas dizem-me muito.

São pessoas, de diferentes idades e com variadíssimos percursos pessoais que querem encontrar alguém especial. É a única coisa que os motiva e afirmam-no sem problemas, que é o que mais admiro. Chegam às cegas, sem ideia alguma daquilo que poderão encontrar, mas com uma certeza: querem gostar, reconhecem que merecem ser gostados e, acima de tudo, estão a entrar num desafio para partilhar momentos de felicidade. Dali em diante vive-se uma aventura. Uns casam, outros fazem uma viagem de carro e há quem se fique por um jantar, mais ou menos animado, mais ou menos demorado. Mas estão ali, a partilhar experiências, a partilhar receios, mágoas e inseguranças, a dividir um espaço e, quando as coisas correm bem, a multiplicar sorrisos.

Paralelamente ao que aquelas duas pessoas estão a viver, em casa, os telespectadores recebem exemplos de coragem, de esperança, de espírito livre, de situações falhadas, de comunicações nem sempre funcionais, de momentos infelizes. Mas tudo é útil, porque todos somos também aquilo que estamos a ver e nem sempre nos conseguimos escutar e observar em relação com alguém. Seja como for, há uma coisa a salientar: o amor tem valor, não tem idade, não se subjuga a ideologias e chega a todas as casas, como algo apetecível e merecido. Há coisa mais bonita do que procurar o amor?

 

Olhar ao espelho

13.01.19, Miguel Oliveira

No outro dia dei por mim a pensar o que me despertava nas outras pessoas, aquilo que me chamava a atenção, o que me atraía nelas. Depois de algum tempo cheguei à conclusão que em cada pessoa me chama a atenção determinado aspeto, procurando em cada uma delas coisas diferentes. Então, se assim é, também eu tenho coisas boas para oferecer; cada um de nós é motivo de interesse para alguém, mesmo que tal não nos pareça ou nos seja dito diretamente.

Acredito que nos desvalorizamos, que nem sempre estamos cientes das nossas qualidades, do que somos e do que temos para partilhar com alguém. Sim, é uma questão de partilha, de troca. Todos temos qualidades, todos temos atividades em que somos realmente bons, todos temos uma sensibilidade ou um sentido mais apurado para determinados aspetos. E o que para uns não agrada ou cativa, para outros é o ideal. 

Talvez fosse um bom exercício olharmo-nos mais, olharmo-nos ao espelho e vermos o que temos de bom, pensar no que damos aos outros, pensarmos onde nos sentimos bem e em que atividades estamos completos. 

Obrigado!

11.01.19, Miguel Oliveira

No Dia Internacional do Obrigado, um grande obrigado! 

Obrigado a todos os que vão lendo o que aqui escrevo e, sobretudo, obrigado aos que comentam e partilham comigo o que pensam sobre o que escrevo. Saber o que chega a esse lado e de que forma recebem a minha mensagem e os meus pensamentos é a melhor retribuição que me podiam dar. 

Hoje e sempre, obrigado! E agradeçam sempre, cada gesto, cada palavra, cada telefonema, o que for. Numa sociedade cada vez mais apressada e egoísta, agradeçam quem ainda tem um gesto de carinho para convosco. 

Amor sem compromisso

10.01.19, Miguel Oliveira

"Procuro diversão sem compromisso" foi a primeira mensagem que Martin enviou a Gabi, depois de a aplicação de encontros ter feito match entre os dois. É mais ou menos desta forma que começa o filme que vi ontem (Newness). Pouco tempo depois, num bar, Martin diz sentir-se "um dildo agarrado a um corpo quente", quando os dois falavam da utilização de aplicações para encontros. 

Chamam-lhe amor, mas dos tempos modernos. É o tempo das relações abertas, das relações que não têm nome, das relações sem compromisso (se é que é possível existir uma relação sem compromisso entre duas pessoas). É o tempo de relações sem tempo, porque não se espera, porque não se dedica tempo a ninguém. Tudo é cada vez mais descartável e apressado. A visibilidade é muita e a oferta ainda maior. A facilidade de chegar até alguém e de ter aquilo que de mais íntimo poderíamos ter com essa pessoa, faz com que haja uma necessidade constante de êxtase, de estímulos cada vez mais intensos, de novos corpos, novas experiências e aventuras. O sexo é sobrevalorizado e a intimidade desvalorizada. 

Num livro sobre relações e sexualidade, a autora diz que vivemos numa época em que encontrar um(a) parceiro(a) é como ir ao supermercado: pegamos no telemóvel, vamos lendo a descrição das pessoas (entenda-se "perfil") como quem lê rótulos de produtos e trazemos para casa o que tiver melhor aspeto. Não podia estar mais de acordo, ao mesmo tempo que a minha inquietação não podia ser maior.

Porém, não consigo prosseguir este tema sem fazer dois comentários prévios, de forma a não ser mal interpretado. 

Em primeiro, o sexo é uma necessidade fisiológica e, como todas as outras, deve ser satisfeito para o nosso bem estar. Reconheço o facto, concordo com ele e gosto de sexo, afirmando isto de forma a deixar claro que é algo importante e que não devemos ser fundamentalistas ao ponto de crucificar alguém só por querer ter sexo com outra pessoa. Há momentos para tudo. Conexões, ligações e sentimentos à parte, podemos ter apenas sexo, como um apelo do nosso corpo, do nosso desejo e de uma necessidade ardente que precisa de ser satisfeita. Já o fiz, sem peso na consciência, e com a mesma naturalidade com que como ou bebo água, dado que se trata do mesmo tipo de necessidades. 

No entanto, e este é o segundo comentário, tenho alguma dificuldade em compreender a procura de uma suposta relação assente nestes moldes. E mesmo que não se queira uma relação, porque a nossa vida é feita de fases e há alturas em que não queremos e/ou não estamos preparados para ter alguém ao nosso lado, o que é que se ganha com uma coleção de fodas com estranhos? Peço desculpa pelo termo, mas é exatamente por considerá-lo grosseiro que o coloco aqui.

Um amigo meu, utilizador das ditas aplicações, disse-me que a maioria das vezes que as usa é por mera carência. Apesar de querer mais para a sua vida, aqueles momentos de sedução e excitação são reconfortantes, sendo os poucos momentos em que se sente vivo, desejado e alvo de interesse por parte de alguém. Então falamos de carências? De falta de autoestima? De uma vida tão vazia que precisamos de sexo para nos sentirmos bem connosco, ainda que por meros momentos? Isto é um assunto complexo, há muita coisa envolvida e é difícil falar dele em moldes lineares, mas são estas as leituras que me ocorrem.

Reconheço que, por um mero acaso, podemos cruzar-nos com "o amor da nossa vida" numa dessas aplicações da mesma forma como o poderíamos encontrar na correria do dia a dia, num encontrão ou numa ida ao supermercado. Mas quer-me parecer que as probabilidades de isso acontecer são escassas.

Esclarecidos os pontos prévios, este tema suscita em mim muitas dúvidas. Fico sempre a pensar como é que chegamos ao ponto de recorrer a aplicações móveis para encontrar pessoas, escolhendo a que queremos da mesma forma como quem escolhe roupa num catálogo? Como é que desvalorizamos tanto o poder e importância de uma relação? Como é que podemos reduzir a nossa vida íntima a um conjunto de momentos soltos, como uma manta de retalhos? Como é que nos anulamos, em certa medida, para ir para a cama com alguém e, depois disso, se tal se proporcionar, é que vamos conhecer a pessoa de quem já conhecemos o corpo? 

Estes meus comentários não se prendem com uma posição a favor ou contra à utilização das aplicações. Admito que, se assim o quisermos, utilizar um Tinder ou um Grindr, por exemplo, pode ser semelhante a utilizar um Facebook ou Instragram na medida em que escolhemos o que queremos fazer com uma determinada pessoa. Contudo, o que me inquieta é o rumo que as coisas levam. É o facto de alimentarmos e passarmos a ideia de que as relações são fáceis, de que basta um click para não estarmos sozinhos. É o facto de nos desvalorizarmos, de nos termos em tão pouca consideração e de nos reduzirmos a "um dildo agarrado a um corpo quente". É o facto desta aparente facilidade não nos mostrar o que realmente importa, de não nos ensinar o que as relações têm para nos ensinar, sobretudo quando falham.

Sou alguém que gosta de gostar e de ser gostado, que reconhece nas relações muitos pontos positivos, mesmo que para os ter seja preciso enfrentar alguns dias cinzentos. Sou alguém que acredita no amor, que vê nele a possibilidade de crescer, de estar bem e de contribuir para o bem estar de outra pessoa, onde juntos as coisas são ainda melhores e com mais significado. Mas voltemos ao filme.

A certa altura os protagonistas estão num lançamento de um livro e a autora, que fala de amor nos tempos modernos, diz que as relações atuais enfrentam novas exigências. Por um lado, os casais veem no outro elemento a segurança e a estabilidade de se saber ter alguém, ao mesmo tempo em que é exigida a liberdade de cada um para a sua realização pessoal, mesmo a nível sexual. Entendo, em certa medida, este ponto. Nunca como agora se falou tão abertamente de sexo, de fetiches e de experiências sexuais, aceites socialmente com maior naturalidade. Por isso, é compreensível que queiramos explorar o mundo erótico, que tanto tem para oferecer. Porém, e muito honestamente, estas "relações modernas" fazem-me lembrar apólices de seguros. Subscrevemos o seguro, temos os papéis assinados em casa mas raramente nos lembramos deles. Um dia, por acidente ou necessidade, damos-lhe valor e exigimos a sua aplicação imediata.

Custa-me, admito que me custa. Custa-me por tudo o que já disse e custa-me porque estou solteiro, numa sociedade onde muitos são os que querem estar solteiros para viver muito, que é o mesmo que dizer, foder muito. Por mim, na minha inocência ou estupidez, prefiro não ter sexo e sentir-me bem comigo, sentir que me respeito a mim e aos meus ideais, em vez de andar iludido, num mundo de aparências e de fast food

 

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