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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

A nossa viagem

19.02.19, Miguel Oliveira

Lembro-me como se fosse ontem. Na rua, o vento e a chuva faziam-se ouvir. Nós, no aconchego do colo um do outro, sonhávamos com dias mais alegres e luminosos. Dali a dois meses iríamos celebrar uma data importante, tão importante que era desejada desde o primeiro dia. Foi naquele sofá, ao lado um do outro, que preparámos a nossa primeira viagem. O gosto de viajar e descobrir novos mundos era de ambos. O sonho de viver as descobertas ao lado de alguém especial era comum. A vontade de partir de mãos dadas e sorriso no rosto estava presente. Era uma data há muito desejada e não nos queríamos poupar a nada. Tudo tinha de ser como sempre desejámos, mesmo antes de nos conhecermos e de termos o privilégio de estarmos nos braços um do outro. Quase em jeito de telepatia, desejávamos o mesmo quarto de hotel com janela virada para o mar. A vontade de fazer amor, tendo o mar como fundo, era enorme. Sabíamos que éramos pirosos entre quatro paredes, mas também sabíamos que era essa a nossa forma de amar. Se era para ser, era com tudo. E lá aconteceu. Procurámos, procurámos e procurámos, até que encontrámos o quarto perfeito. De um lado um hotel lindo, do outro um mar imenso. Era ali. Tinha de ser ali. Escolhemos o melhor quarto e fizemos a reserva. Nesse momento, sorrimos e beijámo-nos. Lembro-me como se fosse ontem. Olhaste-me com um sorriso rasgado, deste-me a mão e assim ficaste, como uma criança feliz, de coração cheio e olhar brilhante. Estavas feliz. Estávamos felizes. 

Escolhido o local, preparámos tudo o resto. A minha vontade de preparar tudo com antecedência sempre foi acompanhada da tua permissão e vontade de fazer acontecer. Gostávamos de ter tudo controlado, não fosse acontecer algum imprevisto que nos impedisse de estarmos como mais gostávamos: nos braços um do outro.

O tempo foi passando, a espera dava cabo dos nossos corações, mas lá chegou o momento de irmos. Depois de meses de espera, chegou a nossa hora. 

A viagem, à semelhança de todas as outras, foi feita entre olhares e sorrisos, gestos simples de dois adolescentes apaixonados que vão em busca de um sonho, de um momento desde sempre desejado e que estava a dois passos de acontecer. Lembro-me como se fosse ontem. Estávamos de mão dada em frente ao mar. O vento frio que envolvia aquele cenário idílico fez-nos andar sempre abraçados. O mar dava-nos calma, esperança e vontade de seguir em frente, sempre juntos. Depois de muito andarmos, era tempo de irmos para o nosso castelo, aquele que por trás de nós guardava o nosso sonho. Meio a medo, entrámos no quarto. Parecia ter sido desenhado e pensado por nós. Tudo estava como deveria estar. Um longo quarto, fresco mas acolhedor, com um mar a perder de vista mesmo à nossa frente. De lado, uma cama imensa, com roupas brancas e delicadas. Como duas crianças, saltámos para ela e testamos a sua resistência. Estávamos no nosso sonho, no nosso mundo, com tudo aquilo que sempre quisemos viver ao lado um do outro, mesmo antes de nos conhecermos. Foi uma longa tarde de amor. Os nossos olhares sorriam, os nossos lábios pediam só mais um beijo e a nossa pele estava quente. Perdemo-nos nos braços um do outro. Algum tempo depois, o pôr do sol avizinhava-se e não o poderíamos deixar escapar. Sentados no chão, abraçados e apaixonados, ali ficamos, a sorrir e a sentir cada segundo. Devagarinho, o sol desapareceu e nós apenas nos olhámos. De tudo, foi sempre o que mais gostei: os nossos olhares, intensos mas serenos, que tanto nos davam um ao outro. 

Esta foi a nossa primeira viagem, ou melhor, aquela que seria a nossa primeira viagem. Quis a vida que nos separássemos antes de ela acontecer. Dizem que a passagem de ano é tempo de introspeção e foi ela quem te levou para um caminho diferente do meu. De ti guardo tudo, até mesmo o sonho de uma viagem que só aconteceu na minha cabeça e com o meu coração. Mas sei que, estejas onde estiveres, guardas esta viagem com tanto carinho como eu. Afinal de contas, esta será sempre a nossa viagem.

À distância de um toque

04.02.19, Miguel Oliveira

É incrível quando encontramos espelhado num livro algo em que acreditamos e da forma como pensamos, certo? Isto ganha ainda mais força e interesse quando as palavras são proferidas por alguém a quem atribuímos valor e conhecimento. Foi o que me aconteceu ao ler um capítulo sobre sexualidade no casamento, de um conceituado Professor. 

A comunicação é algo inerente a nós, é o nosso veículo, a nossa forma de transmitirmos mensagens. Porém, na maior parte das vezes, usamos os conceitos "a torto e a direito", sem sabermos como realmente se definem e ao que dizem respeito. Acredito que é o que acontece quando falamos (e pensamos) em sexualidade. Por isso mesmo, e à semelhança do autor, trago a definição de sexualidade da Organização Mundial de Saúde - "a sexualidade é uma energia que nos motiva para encontrar amor, contacto, ternura e intimidade; ela integra-se no modo como sentimos, movemos, tocamos e somos tocados, é ser-se sensual e ao mesmo tempo ser-se sexual. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações e, por isso, influencia também a nossa saúde física e mental.". Considero que este post já seria útil só com esta definição, mas vou tecer alguns comentários. 

Quando falamos em sexualidade, independentemente das faixas etárias em causa, o nosso pensamento direciona-se para o coito ou para as nossas posições sexuais preferidas. Isto acontece porque resumimos a sexualidade à penetração e à interação entre os órgãos genitais. Perante tal situação, como afirma o Professor, é natural a existência de um foco no desempenho sexual.

Vejamos um exemplo do que poderia ser uma fofoca entre amigas: "Como correu ontem à noite? O sexo foi bom? Ele é bom na cama?". São perguntas simples, sem maldade aparente, mas que espelham a forma como encaramos este tema e como são proliferadas algumas ideias. O foco é quase sempre colocado no desempenho, na obtenção de prazer pela penetração e pela duração do ato sexual, o que reforça os papéis de género nas relações heterossexuais, em que é colocada no homem a obrigação de satisfazer a parceira, como se o seu pénis fosse a varinha mágica de um bom envolvimento. Privilegia-se, assim, o desempenho em detrimento do momento. É-se muito sexual e pouco sensual. Procuramos ser muito físicos, mas recorremos muito pouco a tudo aquilo que dois corpos podem oferecer para um momento prolongado, intenso e prazeroso, o que é possível de acontecer mesmo sem penetração. 

Estes aspetos ganham ainda mais importância numa relação de longa duração, como nos casamentos, onde a rotina tende a ganhar poder e o envolvimento íntimo fica comprometido. 

A vida adulta é complicada, traz muitas obrigações e exige demasiado de cada um. Numa casa, onde dois adultos são simultaneamente pessoas, cônjuges, profissionais e pais, tudo ganha outros contornos. Por este motivo, o Professor afirma que "o sexo no casamento não é química inesperada, mas intenção valorizada pela imaginação". É preciso criatividade, mistério, sedução e surpresa. É preciso entrega e investimento para criar momentos que as circunstâncias nem sempre deixam que sejam espontâneos. 

Nas relações mais longas é natural que o casal se conheça bem, que saibam muito um do outro, podendo pensar-se que não existe espaço para que nada novo surja, que o outro já não consegue surpreender. Ora, é mesmo aí que se deve intervir - "para levar o desejo para dentro de casa precisamos de repor a distância que tão arduamente nos empenhamos em anular". O tempo passa e as pessoas vão partilhando muito. Tudo é familiar e conhecido. É preciso recuar um pouco, ganhar espaço individual e dar largas à imaginação. Ambos precisam de redescobrir o seu corpo e o(a) do(a) parceiro(a), redescobrir sensações e fantasias. É preciso brincar, erotizar os momentos e despertar novas vontades. É preciso beijar, tocar, sentir e imaginar. Afinal de contas, tudo pode estar à distância de um toque. 

Fevereiro: sentir

01.02.19, Miguel Oliveira

Fevereiro é, mais do que em qualquer outra altura do ano, mês de sentir.

Fevereiro traz consigo o Dia dos Namorados. As lojas enchem-se de decorações alusivas ao amor, onde os corações e o vermelho reinam sem igual. Às nossas caixas de e-mail correm publicidades de "Presentes para Ele" e "Presentes para Ela", para que nada falte no dia tão especial. As livrarias fazem destaque a livros sobre a temática, elucidando para a "fórmula do amor". Tudo está vestido a preceito para o mês que hoje se inicia.

As demonstrações de amor são obrigatórias. Aos homens, considerados muitas vezes como insensíveis e sem grande queda para o romantismo, é atribuída a tão exigente tarefa de surpreender a sua cara metade, símbolo de um cada vez mais raro cavalheirismo. A eles, os "machões" que não choram e que não falam sobre sentimentos, é lhes dada "autorização" para amar, demonstrar o seu amor e gritá-lo ao mundo. 

Começa hoje o mês do carinho, das surpresas, das decorações pirosas. É isto o amor e entrámos no seu mês de eleição. Chegou em força e traz uma mensagem bem clara e imperativa - sentir! 

 

(Ps. Que se sinta hoje, amanhã e sempre, seja homem ou mulher, preto ou branco. Os sentimentos, a capacidade de sentir e a possibilidade de falar sobre eles são como os anjos: não têm sexo)