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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Amor, uma arte abstrata

29.04.19, Miguel Oliveira

Há dias, falava com um amigo sobre relações e o impacto que uma relação que não foi aquilo que esperávamos pode ter em nós e na nossa capacidade de considerar futuros envolvimentos amorosos.

A ideia de que nem tudo é cor de rosa, de que demos mais do que aquilo que recebemos e a destruição de sonhos vividos a dois são algumas das consequências de uma relação que "correu mal". Mas a consciência de que nem tudo é cor de rosa é bom. Ficamos cientes dos dois lados que coabitam nas relações, ao mesmo tempo que ficamos despertos para a necessidade de valorizar os bons momentos, de investir e intensificar aquilo que se vive. E uma má relação não tem de apagar o poder do amor, do conforto, da vivência boa ao lado de alguém.

Às vezes acho que olhamos para o amor como algo estático, passível de ter apenas uma forma, como se fosse um pacote de arroz, por exemplo, sempre igual, com o mesmo peso, as mesmas medidas, os mesmos contornos, o mesmo conteúdo. E quando algo corre fora daquilo que esperávamos, achamos que a visão está distorcida e perdemos a vontade de amar, de imaginar uma vida a dois, de nos envolvermos na mais rica das aventuras. Porém, o amor é tudo menos algo estanque e de medidas definidas. O amor é feito por duas pessoas (ou mais, nos casos poliamorosos), que têm as suas histórias, têm a sua personalidade, estão em determinada fase das suas vidas, já viveram coisas diferentes e procuram coisas diferentes. É natural que não haja sintonia em tudo. Se ganharmos esta consciência, conseguimos procurar coisas boas! 

No fundo, o amor é uma arte abstrata: arte por tudo aquilo que o compõe, pela riqueza, pelo engenho, pela magia, pelas sensações que provoca; abstrata pela falta de traço firme e entendimento imediato. É co-construído, repleto de singularidades. É como as peças únicas, impossíveis de fazer duas iguais. 

Ao meu amor

27.04.19, Miguel Oliveira

Às vezes surges em conversa, sempre que se fala em histórias de amor e de paixões. És o maior e mais recente exemplo de uma história de amor, da minha história de amor. Satisfeita a curiosidade sobre a relação e o seu fim, surge sempre a inevitável pergunta: "Ainda se dão?". A minha resposta: "Claro! Somos grandes amigos. É o meu melhor amigo!". E como é que não poderias ser o meu melhor amigo?

Ao longo da nossa relação, uma relação que se foi construindo com pezinhos de lã, fomos descobrindo as camadas um do outro. Fomos dando mais a cada dia, fomo-nos desconstruindo de medos e vergonhas, para construir algo de verdade, assente na sinceridade e na amizade. Ao longo do tempo, foste conhecendo o melhor de mim, o meu lado mais carinhoso e apaixonado, mais louco e erótico, mais doce e preocupado. Porém, nessa troca que se procura ser equilibrada, viste o meu lado mais ciumento e parvo, mais agressivo e pouco racional. Fomo-nos vendo bonitos e sem banho tomado, doces e agressivos, na mais bela das noites da amor e na mais pura e violenta discussão. Tudo fez parte. Por isso, e porque sempre nos fomos aceitando e procurando compreender as palavras e os atos um do outro, como é que não poderias ser o meu melhor amigo? Ninguém conhece os meus extremos como tu, nunca ninguém me viu da forma como tu me viste, e com tudo o que de bom e de mau nos foi acontecendo, continuámos ao lado um do outro, mesmo quatro anos depois do fim da relação. Como não ser amigo de uma pessoa que nos aceita com o melhor e com o pior? Como não permanecer na vida de uma pessoa que algum dia já foi a mais especial de todas? Isto é amizade! 

Por tudo isto é que acredito que o que acaba com o fim de uma relação é o vínculo relacional. O amor, essa entidade gigante e imensurável, continua para a vida. Uma vez amor, amor para sempre. Pode ser um amor diferente. Pode ter outros contornos e representar um peso diferente na minha vida, mas amo-te, como se ama o melhor amigo. Se fosse pequenino e me pedissem um desenho sobre o nosso sentimento, faria igualmente um coração, bem grande. Porém, em vez de estares no centro do meu coração, estavas no cantinho das pessoas especiais! 

E sim, acredito na amizade depois do namoro. Sim, acredito que se uma pessoa já foi a mais especial de todas, pode continuar a ser especial para a vida toda. Sim, com o devido tempo e espaço, podemos falar sobre tudo, mesmo que seja de novas paixões e envolvimentos sexuais. E porquê? Porque a premissa de uma relação amorosa é a nossa felicidade pelo bem estar do outro. E se já fomos a maior preocupação um do outro, então vou continuar a querer que estejas sempre bem, feliz e a sorrir. E não importa que o sorriso apaixonado já não seja para mim. Importa que alguém que faça sorrir dessa forma e que eu te possa abraçar para congratular esse teu estado de felicidade! 

A ti, meu eterno amor, um beijinho, meu melhor amigo! 

Opostos ou Iguais? Equilibrados!

24.04.19, Miguel Oliveira

Diz o povo que os opostos se atraem. Em certa medida até posso concordar, mas não me parece que o mesmo dito popular possa ser aplicado a uma relação duradoura. Porém, duas pessoas iguais também não me parece que seja a melhor combinação para uma relação se desenvolver e perdurar. Nem opostos nem iguais. O ideal? O equilíbrio! 

Não podemos ter duas pessoas tão iguais que se fundam uma na outra, nem tão distantes que se percam no espaço que existe entre elas. Precisamos, em vez destes casos extremados, de um meio termo.

Obviamente que têm de haver traços comuns. Destes, podemos falar em gostos, valores, formas de estar na vida, objetivos ou até sonhos de vida. Tem que existir algo que una as duas pessoas, que as atraia de forma a que algo maior possa ser construído. E destas parecenças, surgirá compreensão, respeito, partilha e companheirismo. Só existindo algo em comum, é que o outro conseguirá colocar-se no lugar do(a) amado(a). Mas não é tudo. Precisamos de diferenças. E essas diferenças, ainda que subtis, têm de existir. E têm de existir simplesmente para alargar horizontes, para nos fazer pensar de um outro modo, para nos questionar, para nos enriquecer, para nos dar mundo e construirmos uma melhor versão de nós mesmos. Em suma, tal como disse que dois semelhantes iriam construir algo maior, é também esta diferença que ajudará a contribuir para o mesmo fim. Porque se vai dando, hoje eu, amanhã tu. Porque é a minha calma que te vai serenar as noites dos dias agitados e é o teu espírito mais alegre que me irá desafiar a enfrentar a vida com um novo olhar. É destas trocas, destas pequenas diferenças que nos definem, que surgirá a caminhada lado a lado. 

Seja para a convivência no dia a dia, seja para alimentar a chama do casal, dois iguais viram melhores amigos, e dois diferentes viram estranhos. É preciso haver equilíbrio. É preciso que se conheçam, mas que sejam dois seres individuais, que existam para além do outro. É preciso que sejam diferentes, mas não opostos, de modo a que se complementem e interajam de forma saudável. É preciso que haja mistério, que haja segredo, que haja coisas por desvendar, porque são esses ingredientes que vão manter o interesse, o encanto, o desejo, o erotismo. Se tudo for igual, se tudo for conhecido e sabido, não resta nada para explorar, nada para querer conquistar. Por outro lado, com uma dose de individualidade, um certo afastamento e algum suspense, há espaço para se criar, para se imaginar e para se caminhar.  

Afinal de contas, o segredo está no equilíbrio! 

Riquezas

22.04.19, Miguel Oliveira

"Sem um coração rico, a riqueza é um horrível mendigo."

(Emerson)

 

Cruzei-me com esta frase num livro que adoro e não poderia estar mais de acordo com ela! Acredito que muitos de nós vivem sem se conhecer verdadeiramente, se é que há um dia em que nos conhecemos dessa forma. Seja como for, independentemente do grau de conhecimento atingido, há valores que nos enriquecem, pessoas que nos acrescentam, momentos que nos preenchem e conquistas que nos engrandecem. Todos estes pequenos aspetos, ainda que de grande importância, fazem com que sejamos melhores pessoas a cada dia, mais ricos. Dão-nos humanidade, enchem-nos de genuinidade e conquistam-nos pela sua simplicidade. 

Como diz o povo, aquele que tanto gosto, "Não és um menino rico, mas és um rico menino!". 

Atração: uma paleta de cores

21.04.19, Miguel Oliveira

Todos os dias nos cruzamos com imensas pessoas. Porém, há dias em que nos cruzamos com alguém que mexe connosco, alguém portador de um qualquer magnetismo que nos prende a ela horas sem fim. Chamamos-lhe atração, dizemos que temos borboletas na barriga e suspiramos sem fim, a olhar o vazio, com um sorriso ingénuo e sincero. É isto que vem com a paixão, que vem com a atração por alguém. 

Mas por que é que umas pessoas nos chamam à atenção e outras nada nos dizem? Por que é que umas nos agarram como se tivessem um íman e outras passam despercebidas? Será o seu cheiro? O seu corpo? O sorriso ou o andar?

Muitas (e variadas) são as características que nos levam a sentirmo-nos atraídos por uma pessoa, e de todas as pessoas que vamos conhecendo, não nos atraímos sempre pelas mesmas características. Se cada pessoa está repleta de singularidades, no Manel posso gostar do sorriso alinhado e brilhante, na Maria das suas curvas, no Zé das suas pernas arqueadas e na Amélia das suas mãos finas e sempre bonitas. E se só falo em traços físicos, por algum motivo é. É porque reduzimos a atração ao físico, ao corpo, à imagem e vendemos sonhos cheios de ar e ilusão.

Não acredito em corpos atraentes e corpos não atraentes. Não acredito em corpos de revista que façam suspirar qualquer pessoa, da mesma forma e com a mesma intensidade. Isso não interessa. Na verdade, não é o corpo que interessa. O que realmente importa é o efeito que cada corpo tem em nós. Não é por aquele corpo não nos despertar interesse que se trata de um mau corpo, desprovido de charme e sedução. Apenas não nos diz nada. Acredito que 80 a 90% das pessoas escolham um “bom corpo” como um corpo definido, onde as formas de glúteos e mamas nas mulheres, ou braços e peitorais nos homens estão em destaque. Porém, não temos de gostar todos do mesmo e, mais importante do que isso, não gostamos todos do mesmo! 

Se nascemos com uma fisionomia, com um "tipo de corpo", é esse que devemos explorar. É esse que devemos tratar e alimentar da melhor forma que conseguirmos, para que nos sintamos bem nele e, só depois, usá-lo como complemento à arte de sedução. 

Passamos muito tempo a olhar o outro, como se andássemos todos com um espelho de corpo inteiro ao nosso lado, a olhar para nós e para "a perfeição". Culpamo-nos. Crucificamo-nos. Julgamo-nos em vão. Talvez seja importante que nos aceitemos mais, que nos exploremos mais em vez de nos maltratarmos. Talvez seja importante sermos mais sensíveis e mostrarmos que na paleta de cores que é a arte de sedução, há mais do que o preto ("corpo não atraente") e o branco ("corpo atraente"). Há tons de cinza ("o corpo que me atrai"), há laranjas e amarelos (traços de personalidade), azuis e verdes (formas de estar na vida), roxos e cremes (interesses e sonhos), e tantos, tantos outros tons que vão além do físico e que nos atraem tão fortemente. 

Somos mais do que um corpo. E quem não entender isso, talvez só tenha mesmo o corpo para oferecer a alguém. 

Individualidade vs. coletividade

19.04.19, Miguel Oliveira

Sou, por natureza, muito observador. Em grupo, sou sempre o que fala em último. Num jantar de amigos, sou o que fala com este ou aquele individualmente, e raramente me expresso para o grupo. Essa é uma característica que gostava de mudar, por vezes. No entanto, depois penso: por que motivo temos todos de fazer o mesmo? Por que motivo temos de ser todos iguais, com as mesmas competências nas mesmas áreas? Por que motivo temos todos de gostar das mesmas coisas só porque "é da nossa área"? 

Até certo ponto, consigo entender que haja "coisas básicas" que todos devemos conseguir fazer. Escrever de forma correta, conseguir falar em público de forma coerente e interagir socialmente de forma adequada parece-me aceitável. Somos seres sociais, precisamos indiscutivelmente de nos expressar e de interagir com os que nos rodeiam, mas não temos todos de ser grandes oradores; não temos todos de ser grandes escritores de best sellers nem seguirmos o mesmo caminho dos demais.

Às vezes fico com a sensação de que existe alguma pressão para sermos todos iguais, de mudarmos as nossas características para que cheguemos a determinado ponto, em vez de olharem para nós pelo que somos, pelo que temos para dar. Há momentos em que sinto que procuram mais as minhas diferenças, aquilo "que me falta", do que procuram aquilo que eu realmente tenho ou sou. Às vezes, fico com a ideia de que somos obrigados a ignorar a nossa individualidade para sermos inseridos na coletividade. 

Sem rótulo, por favor

17.04.19, Miguel Oliveira

Aprendemos na escola que os adjetivos são palavras que caracterizam os nomes, indicando-lhes qualidade, defeito, estado ou condição. Por outras palavras, adjetivos são palavras que colocam "peso" em cima dos nossos ombros, quer sejam positivos ou negativos. E é esse peso que colocamos aos nossos ombros quando decidimos rotular tudo e mais alguma coisa.

Rotulamos tudo num abrir e fechar de olhos. De imediato, dizemos que aquela experiência foi "boa" ou "má"; que tivemos um "bom dia" ou um "dia terrível"; que terminarmos aquela relação nos deixa na "pior fase da nossa vida", etc. O esquema é simples: há um acontecimento -> rotulamo-lo -> passamos a interpretar a situação com base no rótulo atribuído e agimos em conformidade, o que faz com que sejamos excessivamente emocionais e não olhemos de forma objetiva para os acontecimentos.

É natural que haja uma reação emocional a um determinado acontecimento. É natural que fiquemos excitados e queiramos gritar ao mundo o quão "maravilhoso" foi o nosso dia, da mesma forma que é natural que choremos e nos deixemos levar pela dor do momento, quando alguma coisa corre "mal". Somos humanos, seres dotados de racionalidade e sensibilidade, mas há que haver equilíbrio. 

O exercício que tenho procurado executar nos últimos meses, perante um qualquer evento que ocorra e me toque, quer positiva quer negativamente, é encarar aquele evento como uma experiência, uma ocorrência. Procuro não rotular. Procuro não dar nome ao que me aconteceu. Procuro, na medida do possível e com o tempo necessário, olhar para a situação como quem olha para uma peça de arte, em busca de um entendimento, em busca de um fio condutor que permita a sua interpretação. Dessa forma, olho "cruamente" para o que aconteceu, tentando perceber o que realmente está em causa, que importância e peso é que aquela situação tem, efetivamente, na minha vida. 

Este é um exercício que exige dedicação, que se vai aperfeiçoando com o tempo e com prática mas é, acima de tudo, um exercício que tende a tranquilizar-nos e a permitir que não atribuamos desmedidamente tamanho e importância aos eventos. Nas palavras do psicólogo Rafael Santandreu, perante uma qualquer situação que te aconteça, pergunta a ti mesmo "Em que medida é que o que me aconteceu (ou pode vir a acontecer) me impede de realizar ações válidas por mim e pelos outros?". Segundo o autor, esta é uma forma mais objetiva e construtiva de avaliarmos os acontecimentos que nos vão surgindo e, consequentemente, uma forma de cuidarmos de nós e do nosso bem estar psicológico. 

Não temos de negar a nossa capacidade sensitiva nem de ser "frios". Devemos, isso sim, procurar estratégias que nos façam sentido e nos ajudem a interpretar o mundo com maior leveza. 

Síndrome da figura pública

15.04.19, Miguel Oliveira

"Foi tão bom, tão bonito, tão completo que a gente nem fotografou, nem localizou, nem postou. Apenas viveu!"

 

O novo ano trouxe-me um novo olhar sobre as redes sociais ou, pelo menos, um à vontade maior de afirmar o que já há algum tempo pensava. No tempo dos diretos e das stories, as redes sociais são um elemento presente na vida de qualquer um, deixando de ser algo que apenas diz respeito à malta nova. Para uns é uma ferramenta de trabalho, para outros um hobby ou ainda uma ocupação. O que é certo é que elas fazem parte do nosso dia a dia e se queremos saber alguma coisa, é a elas que recorremos. 

As redes funcionam quase como o espelho da nossa vida, o álbum de memórias do nosso dia a dia. Se aconteceu, está lá publicado. Se não está, é porque não aconteceu nada na vida daquela pessoa. Era esta a ideia que me vinha a acompanhar há já algum tempo. Uma quase obrigação de partilharmos, de retratarmos o momento, de mostrarmos o que fazemos, onde estamos e com quem estamos. Caso contrário, não temos vida nem somos gente. É um exagero, eu sei, mas é muito isto que sinto. 

As redes sociais estão repletas de corpos sem rosto, de copos ao alto, mesas com vários pratos de sobremesa e de pernas entrelaçadas numa cama de um qualquer quarto ou hotel. De todos estes acontecimentos, na grande maioria das vezes, apenas conhecemos a identidade de um dos intervenientes. E não é em vão. Não precisam de nos dizer com quem estão, até porque o objetivo é simples: mostrarem ao mundo que não estão sozinhos, que fazem e acontecem. O importante é partilharem a "felicidade", a "alegria" e a imensa capacidade de "serem sociais". No fundo, com um jeito subtil e muito filtrado, gritam ao mundo: "E tu, tens disto? Toma e embrulha!". 

Talvez fosse útil repensarmos a nossa conduta. Talvez nos fizesse bem preservarmos o que é nosso, a nossa intimidade, que é algo bem mais lato do que a pessoa com quem dormimos. E porquê? Porque qualquer dia sofremos do Síndrome da figura pública: partilhamos tudo, deixamos que nos entrem em casa, nas férias, nas relações, nos aniversários e na nossa rotina mas, de forma imperativa, queremos que não se metam na nossa vida. Como não nos metermos na vida de alguém que está de portas abertas à distância de um deslizar de dedos? Além disso, existe um pormenor de relevo: partilhamos tudo, de forma inocente, até, mas não sabemos onde a informação chega e o que pode ser feita com ela. Alarmismo? Exagero? Talvez. Ou então, talvez seja até ao dia em que nos acontece aquilo que pensamos que só acontece aos outros. 

Não temos de acabar com as redes sociais nem precisamos de desativar perfis. Podemos, em vez disso e daquilo que fazemos em modo "piloto automático", resfriar os ânimos, pensar no porquê das coisas e sermos comedidos. Nada, por si só, é prejudicial. Tudo depende do uso que damos às coisas.

Beije! Hoje é o Dia do beijo

13.04.19, Miguel Oliveira

Há dias para tudo, mas o dia de hoje não poderia ser ignorado. 13 de abril (ou 6 de julho) é o dia escolhido para celebrar o mais íntimo dos afetos. Celebra-se o Dia do beijo. 

Do latim basium, o ato de beijar presta-se a múltiplos significados, em diferentes contextos e ocasiões. Olhando os remotos tempos romanos, encontramos três tipos de beijos: o basium, trocado entre conhecidos; o osculum, dado apenas a amigos íntimos; e o suavium, o beijo dos amantes. Este último, o dos amantes, é o meu preferido!

Humedecidos, tocam-se os lábios. O corpo reage, a pele arrepia e o coração acelera. Vagarosamente, os olhos fecham-se, a alma flutua e o tempo pára. O cheiro do outro, daquele que é nosso, envolve-nos. O seu sabor, sabor de alguém que nos deseja, entra em nós e vicia-nos de imediato, numa troca que não tem fim. As mãos que agora parecem plumas, acariciam o corpo que está entregue ao outro. Estamos nas mãos dele, literalmente na boca do lobo, mas este é um jogo de igual para igual.

Beijamo-nos apaixonadamente para mostrarmos o nosso carinho, a nossa paixão, a nossa sensibilidade. Beijamo-nos intensamente porque é intenso o que nos une. Beijamo-nos avidamente porque tudo o que é bom acaba depressa e sabemos bem como queremos aproveitar cada milésimo de segundo. Beijamo-nos porque é na pele e no corpo um do outro que gostamos de estar. Beijamo-nos só porque sim, porque gostas, porque eu adoro, porque nos queremos. 

 

"Beijamos de olhos fechados porque as melhores coisas da vida não são para ser vistas, mas para serem sentidas."

O teu corpo, a minha casa

13.04.19, Miguel Oliveira

Chegaste de rompante. Contigo trouxeste essa tua imagem segura e confiante, semblante sério e firme, que rapidamente se desvaneceu, dando lugar a esse teu sorriso doce e largo. És um menino com cara de homem mau e talvez seja isso o que mais me atrai em ti. Consigo desmontar-te. Consigo desconstruir essa tua imagem que todos os dias ousas carregar. Ficas sem jeito, enervado até, e eu deliciado, a rir-me por tamanha conquista.

À beira rio, envolvidos por um sol quente de inverno, olhámo-nos de soslaio. A vergonha e timidez vêm de mãos dadas com a vontade de nos abraçarmos e de nos sentirmos, da forma mais natural que existe. Caminhámos, caminhámos muito, e cada vez que os nossos olhares se cruzavam e os nossos lábios sorriam, só me ocorria uma das tuas primeiras frases - "Quero ser um homem sério de dia, e o teu macho à noite!". Sabia o que querias. Sabia o que ambos queríamos e o que tanto procurávamos esconder. Talvez fosse a única situação onde não havia discórdia nem lutas de poder. Tu tinhas o poder e eu apenas ansiava a hora em que pudesse ser teu, como se de um súbdito se tratasse. 

Mais umas horas e a noite envolvera-nos. Os corações batiam mais depressa a cada encosto que dávamos. No metro, na rua ou em qualquer sítio por onde andássemos, o mais pequeno encontrão apenas se assemelhava à tensão existente entre dois ímanes com pólos opostos que não se podem juntar. 

Contigo as horas voavam. Envolvido nas tuas histórias, só pensava quando me podia envolver no teu corpo. Tu falavas e eu apenas acompanhava o movimento dos teus lábios. Um qualquer gesto teu significava uma luta para mim. Uma luta para não te tocar, para não te dar o que querias sentir, para eu não ter o que queria sentir.

Já tarde, sabíamos que poderíamos ir em segurança. Em casa já tudo dormia. Era a nossa oportunidade. Tremíamos. Mal conseguíamos falar. Os corações estavam acelerados. As bocas secas. As mãos sedentas das mãos um do outro. Ao fundo do corredor, estava o que desejávamos desde manhã: o teu quarto. Naquele quarto, apenas havia uma regra: fazer silêncio. Um silêncio que se adivinhava suado. De resto, tudo era permitido. Chegara o momento que tanto desejávamos. 

Iluminados por duas luzes de presença, cumprimos a nossa missão. Atiraste-me para cima da cama e despiste-me com rapidez. Entre beijos sôfregos e apertos intensos, tinhas a tua cobaia à tua disposição. Procurei fazer o mesmo contigo, mas rapidamente me disseste que quem mandava eras tu. Aceitei. De imediato, estávamos pele com pele. Corpos quentes, suados e tensos. Ao teu colo, abracei esse teu tronco largo e musculado. Os teus braços, igualmente densos, percorriam o meu corpo, em busca do mais simples arrepio. Entre beijos apaixonados, deixaste-me percorrer o teu corpo. Pouco iluminados, apenas retenho as tuas formas. Corpo grande, delineado e sedento de prazer. As respirações ficavam cada vez mais ofegantes. Os meus dedos percorriam delicadamente o teu corpo e, de quando em vez, apenas sentia as tuas mãos contra o meu corpo. Do nada, entre carícias e arrepios, apenas me deste o que tanto queríamos. Sabias como me relaxar e deliciar.

Cumprida a preparação, pegáste-me ao colo. Novamente ladeado pelos teus braços, embalaste-me ferozmente. Não havia lugar para sons. Não havia lugar para nãos. Eram apenas dois corpos entregues ao prazer, a libertar tudo aquilo que fora acumulado durante o dia. Sem falarmos, entregámo-nos ao momento. Pela primeira vez, senti-me sem liberdade. Mas era uma ausência boa, uma ausência consentida e de grande recompensa. Ininterruptamente, percorremos o corpo um do outro. Soubemos bem dar asas à imaginação e utilidade à flexibilidade que os nossos corpos jovens ainda permitiam. Encaixávamo-nos na perfeição.

Por fim, os nossos corpos ditaram o desfecho da aventura. Por si, deram-te a vitória e a mim o prémio. Respirámos profundamente. De olhos colados um no outro, agora sem vergonha, sorrimos. Os dedos entrelaçaram-se e assim ficámos, a olhar um teto repleto de sombras, num quarto quente e cheio de prazer. Naquele momento, no teu corpo, senti-me em casa. Pertencia a ele e ele fazia parte de mim. Em ti, tinha tudo o que podia pedir: o melhor dos amantes, no melhor dos locais. 

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