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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Na roda do sexo

30.05.19, Miguel Oliveira

Hoje partilho-vos uma experiência (muito) pessoal. 

Desde que lhes conheço a sua existência, sempre mantive uma postura muito crítica em relação a elas. E crítica não por serem boas ou más, mas porque vejo além delas, porque questiono o fundamento do que ali se procura e não me identificava com a ilusão ali espelhada. 
Sei o que quero e sei também o que não quero, o que não me faz sentido, o que nada me acrescenta - e quando algo não me acrescenta, apenas me afasto. Porém, sou também muito curioso e gosto de ter conhecimento de causa. Depois de muito adiar, no fim de semana passado instalei o Grindr.
O Grindr existe desde 2009 e é apresentado como uma aplicação que promove "Conversa, contactos e encontros para gays e pessoas do mesmo sexo". No fundo, é uma rede social, como acontece com o Facebook ou o Instragram, em que é criado um perfil, com ou sem fotografias, que promove a tal conversa e o contacto entre homens. Porém, e depois de lá ter passado, é mais do que isso. Ou até menos, se olharmos para o que lá acontece.
Óbvio que não podemos tomar a parte pelo todo e como acontece em todas as situações do nosso dia a dia, há gente para tudo e de todos os gostos e feitios. Mas concentremo-nos na minha experiência, que é a única coisa sobre a qual posso falar na primeira pessoa.
O início é simples. Autoriza-se a localização do dispositivo (geolocalização), escreve-se uma descrição nossa (opcional), seleciona-se o que procuramos na app (por exemplo, "Amigos", "Relacionamentos", "Agora" - sim, Agora, de sexo na hora) e alguns dados pessoais como peso, altura, tipo de corpo e posição/preferência sexual. Depois de preenchermos o que quisermos, o perfil está criado e disponível para os outros utilizadores. Podemos procurar apenas nas redondezas, o que é feito através do GPS do telemóvel, ou procurar perfis em qualquer canto do mundo. Depois disso, o catálogo está aberto e surgem todos os perfis que se encontram na área geográfica selecionada. A partir daqui, inicia-se o contacto. 

Nas primeiras horas parecia-me tudo pacífico. Perfis com ou sem fotografias, pessoas sem corpo, ou corpos sem rosto. Uns pediam "sigilo" porque eram casados, outros diziam retribuir a fotografia assim que enviasse uma minha. Do pouco tempo que lá estive, percebi que as pessoas mais novas são mais calmas comparativamente com as mais velhas.

As interações foram repetitivas. Dos mais novos, surgiu quase sempre uma conversa de circunstância, onde se perguntou "De onde és?", "O que procuras?" e "Ativo? Passivo?". Recolhidas as informações, começava a partilha de experiências, de gostos e fotografias. Por outro lado, os utilizadores mais velhos foram mais diretos, enviando de forma gratuita fotos íntimas, oferecendo os seus dotes e perguntando se estaria interessado, afirmando ter local para consumar o ato. Existe de tudo, como num catálogo. Ali ninguém fica insatisfeito. 

Houve quem fizesse propostas. Quem se oferecesse para se deslocar e quem sugerisse que eu o fizesse. Houve quem partilhasse fantasias, quem me quisesse nas suas e quem procurasse pessoas para recriar cenas de um filme. Volto a afirmar, houve de tudo. 

Durante o tempo em que lá estive, percebi quatro coisas:

- a facilidade com que se abre a porta à intimidade e às vivências sexuais é enorme. Mesmo eu, que prezo muito a minha intimidade, sobretudo a sexual, vi-me a partilhar em excesso. A interação assim o exige e quase nos impele para o fazermos;

- a valorização extrema que é dada ao físico e ao pénis é ainda maior do que eu julgava, onde fica notório o papel central que o pénis continua a ter na vivência da sexualidade, surgindo como o executor da atividade sexual, quase desprovido de um corpo e de uma capacidade criativa da qual somos dotados;

- o estímulo constante e imediato, vindo de qualquer parte, em simultâneo, torna a experiência quase viciante. Depois de começar a troca de mensagens, fica-se centrado na interação. Quer-se saber mais, quer-se dar mais a conhecer;

- a ideia de que tudo está à distância de um click e de meia dúzia de metros é assustadora. Estando de catálogo aberto, a ideia com que fiquei foi: "Não queres tu, há quem queira.". As pessoas são reduzidas a fotografias, à distância a que se encontram e à prontidão e disponibilidade que apresentam. 

Talvez estes pontos que referi sejam o propósito da aplicação. Talvez estes pontos mais não sejam do que pré-conceitos meus e alguma ingenuidade. No entanto, e seja como for, esta experiência apenas me mostrou assertivamente o que não quero, o que nada me diz.

Sim, continuo a gostar de sexo. Sim, há corpos muito atraentes por lá. Sim, a excitação, a imaginação e a envolvência que se criam sabem muito bem. Sim, cruzei-me com pessoas com quem pude ter algumas conversas "normais" (e alguns conhecidos, o que é sempre um misto entre constrangedor e cómico), mas ainda estou aquém de me sentir realizado com tão fracas interações. Um amigo alertou-me para o facto de tudo isto ser o propósito da aplicação e de ser legítimo tudo o que lá se passa. E de facto ninguém é obrigado a lá estar e, se o faz, tem legitimidade para viver o que lá quiser viver. Cada um procura o que lhe faz sentido e o que quer. Porém, e perdoem-me o atrevimento, continuo a achar que este tipo de interações esconde bem mais do que a procura de um mero momento de prazer...

Seja como for, a roda do sexo não é para mim!

Abraço: o toque de alma

22.05.19, Miguel Oliveira

Dizem que hoje se celebra o Dia do Abraço. 

Gosto de abraços! Gosto muito de abraços! Gosto do contacto físico que eles implicam. É reconfortante, é carinhoso, é especial.

Tenho para mim que os abraços são dos gestos mais bonitos e mais verdadeiros que podem existir entre duas pessoas. Sente-se quando é sincero. Sente-se quando é dado com verdade, com alma.

Há abraços para todos os gostos: abraços de amigos, de familiares, de amantes; há abraços de festejo e de consolação; há abraços breves e demorados; há abraços recebidos e abraços partilhados. Seja qual for o tipo e o motivo do abraço, são dois corpos que se entrelaçam, duas almas que dão as mãos e dois corações que partilham o mesmo momento - o momento de estar ali para o outro. Apenas isso. 

Abraçar alguém é permitir que os corpos comuniquem; é dar carta branca para que os braços que nos recebem nos embalem, nos envolvam com tranquilidade; é autorizar que nos apertem para nos mostrarem que está tudo bem; é permitir que o tempo pare porque nada mais importa além daquele contacto; é fechar os olhos e sorrir por dentro. 

Abrace! Abrace de manhã, à tarde ou à noite. Abrace porque está feliz ou procure um abraço porque precisa de um pouco de colo. Abrace na despedida e na chegada. Abrace para festejar ou para apoiar alguém. Abrace amigos e familiares. Abrace mesmo aquele que não conhece tão bem, mas que soube ver que não estaria num bom dia. Apenas abrace, porque

 

um abraço verdadeiro toca mais a alma do que a pele.

Amar alguém é um show de strip

21.05.19, Miguel Oliveira

Quando conhecemos alguém, conhecemos uma pessoa totalmente vestida, tão protegida e agasalhada como os adeptos dos desportos de inverno. São casacos, luvas, gorros, óculos, meias grossas, botas e muita roupa. Chegam até nós com estas camadas e com a sua bagagem. 

Com o passar do tempo, a confiança vai-se instalando. Começam por pousar a mochila, carregada de recursos e memórias. Num ambiente mais acolhedor, cedem-nos o casaco, as luvas, o gorro e as botas. Vamo-nos sentindo mais confortáveis na presença um do outro, com um comportamento cada vez mais natural, mais genuíno. Os dias vão passando e vamos partilhando histórias. Contam-se as viagens, as aventuras e os desportos realizados. Partilham-se as fotografias, as peripécias e os sustos. A pouco e pouco, os encontros acontecem naturalmente, desprovidos de um qualquer motivo para se realizarem. Nesta altura, já apenas resta o fato de treino quente que protegia o corpo das baixas temperaturas. As peças de roupa vão saindo à mesma velocidade com que o dia a dia vai sendo partilhado, apoiado por olhares trocados e gargalhadas oferecidas. Da mesma forma como cedemos a nossa casa para pousar o equipamento de inverno, recebemos agora olhares, sorrisos e carícias. Faz parte. É destas trocas que é feito o amor. 

Sem darmos conta, aqueles que eram dois estranhos a conviverem, são agora dois amantes que partilham o mesmo espaço. Onde havia apenas lugar a sonhos e aventuras individuais, juntam-se agora os planos em conjunto. As escovas de dentes estão no mesmo copo, da mesma forma como aquela cama de casal é agora partilhada por dois seres. Já há algum tempo que as camadas de roupa quente ficaram arrumadas. Hoje apresentamo-nos com menos roupa: de manhã com roupa casual e, ao fim do dia, com aquele pijama confortável. Ainda assim, não é tudo dado. Mesmo nos momentos mais íntimos, a roupa íntima de ambos esconde alguma coisa. E não há problema algum nisso. Aumenta o desejo, o mistério e a criatividade.

São dois seres que estão juntos, é certo, mas continua a haver individualidade. A relação que entretanto se estabeleceu é como um show de strip: aos poucos, acompanhando as batidas da música, os olhares cruzam-se cada vez mais, os toques na pele um do outro vão sendo menos fugazes, a roupa que preenchia o corpo vai ficando espalhada pelo chão, mas ainda assim, ninguém fica totalmente nu. Há algo que continua a proteger o dançarino; existe alguma coisa a que o outro não tem acesso. É assim o amor. Feito de trocas, de músicas e bagagens de parte a parte. Vai-se dando e recebendo, mas nunca ficamos totalmente despidos para o outro. E ainda bem! 

Só porque (não) faz sentido

18.05.19, Miguel Oliveira

Todos os dias nos cruzamos com muitas pessoas. Umas são-nos estranhas; outras conhecemos de vista; algumas fazem parte da nossa rede; outras já fizeram; e ainda há aquelas que, por algum motivo, num qualquer momento de um dia, começam a fazer parte das nossas interações. Por uma qualquer razão, começamos a interagir com alguém novo. Os motivos podem ser vários, do nosso lado ou do lado da outra pessoa. O que importa frisar é que uma qualquer interação começa com um sentido. Fez-nos sentido começar, do nada. 

Ora, se aceitamos isso com naturalidade, por que não aceitamos que, da mesma forma como começou, uma qualquer interação se possa extinguir simplesmente porque já não faz sentido? E se são precisas duas pessoas para iniciar uma interação, basta apenas uma para a concluir ou, de outra forma, para não a alimentar mais. E não precisamos de esmiuçar a questão. Não temos de ficar presos em "ses" ou "porquês". Já não faz sentido. E as respostas às nossas eventuais questões são-nos dadas nas mensagens, nas ausências, nos silêncios. Nos nossos ou nos dos outros.

Hoje somos uma coisa, amanhã somos outra. A única constante é a mudança

"E se fosse consigo?"

16.05.19, Miguel Oliveira

Considero-me uma pessoa curiosa. Gosto de questionar, de perguntar como e porquê, de saber o que está na origem das coisas. Gosto de ver como já fomos e como chegámos ao que somos hoje. Porém, também gosto de saber como estamos hoje, porque agimos desta ou daquela forma, com esta ou aquela ideia. E é por isso, à semelhança do que já disse noutros posts do blog, como na Sexualidade casa adentro ou no Menu repleto de ingredientes extra, que gosto de lançar questões, que se fale abertamente sobre as coisas para que as consigamos limpar de teias e mitos, para que se possa falar delas sem ser em tom jocoso ou baixinho. 

"E se fosse consigo?" é um bom exemplo disso. Vai na sua terceira temporada, na SIC, e coloca-nos em situações reais, em contexto real, e com a real noção daquilo que é a nossa sociedade. 

Já se falou de racismo, de violência no namoro, de homossexualidade, homoparentalidade e homofobia, do peso da imagem, de assédio e descriminação da pessoa com deficiência, por exemplo. Esta semana foi tempo de dar voz às ideias erradas sobre o HIV e a SIDA. 

São sempre temas atuais, não porque são "moda" ou porque os media resolvem insistir neles, mas porque acontecem todos os dias, em todos os estratos sociais e que nos envolvem a todos nós. E envolvem porque fazemos pouco por eles. Envolvem porque continuamos desinformados ou desatualizados. A base do preconceito é a falta de informação, são os pré-conceitos que temos sobre os temas e que assumimos como verdadeiros, porque se ouviu aqui ou ali. É preciso ir mais fundo nas questões, procurar saber mais, procurar questionar, ouvir e contactar com as situações. Não nos podemos ficar pelo diz que disse ou reféns desta ou daquela situação que vimos e generalizamos. A realidade é complexa, sempre multifatorial e há sempre, mas sempre, bem mais do que aquilo que eventualmente podemos presenciar. 

É por isso que gosto destes programas, que dão nomes às coisas, que procuram saber o que se pensa e como se pensa. Questiona, investiga e clarifica. Precisamos de mentes clarificadas, desempoeiradas e livres, porque hoje pode ser com alguém, mas amanhã pode ser consigo! 

A partida

11.05.19, Miguel Oliveira

Não lhes conheço a história. Não sei qual o motivo da viagem nem da despedida. Na verdade, não sei nada sobre eles. São dois estranhos, avistados do banco do autocarro em que estou sentado.

Eles, encostados ao corrimão, esperam a sua vez. Estão serenos, de mãos dadas, frente a frente. Sorriem e olham-se intensamente. É ela quem vai de viagem. O autocarro chegou e os dois despedem-se. De corpos juntos, olham-se e trocam carícias no rosto. Voltam a sorrir. Assim que a porta do autocarro se abre, beijam-se de forma apaixonada. Antes da despedida, mais um sorriso e um deslizar de mão suave no rosto. Mimam-se como dois amantes. Olham-se como dois bons amigos. 

Não sei nada deles, mas sei que se gostam, que se cuidam e que se querem bem. Enquanto observador, posso hipotetizar mil e um cenários na minha cabeça. Seja qual for a teoria que lance para aquela partida, a verdade estará nos sorrisos que trocaram, nos beijos que deram e, acima de tudo, nos olhares que partilharam. Longe ou perto, acredito que estejam próximos um do outro, talvez mais próximos do que quando estamos deitados na mesma cama com alguém. 

Não senti tristeza naqueles minutos. Estavam a desejar o melhor para cada um, ainda que estivessem em silêncio. Talvez seja esta a língua do amor, uma língua de afetos, de toque, de olhares, em que se transmite uma mensagem sem se falar, em que se deseja o bem ao outro, de forma genuína, num sorriso e num beijo que soam a "Vai miúda! Conta comigo que estou sempre contigo!". 

Ela partiu, não sei por quanto tempo, mas nenhum deles ficou sozinho. 

Sexualidade casa adentro

08.05.19, Miguel Oliveira

Gosto da Cristina Ferreira. E gosto dela enquanto pessoa, pelo que me é permitido saber sobre a sua pessoa, e enquanto profissional, pelo empenho, pela entrega, pela energia e pelo olhar sincero. Já tive oportunidade de estar com ela mais do que uma vez, e vê-la em off só fortalece o que é no ar. 

Nos seus projetos, que acompanho desde o início, gosto da naturalidade com que procura abordar os assuntos, mais ou menos delicados, porque se existem, então fazem parte da nossa vida e, como tal, devem ser encarados com naturalidade para que não se criem tabus. E o que é que o nome dela tem a ver com sexualidade, o título deste post? A resposta é só uma: naturalidade, a naturalidade com que fala da sexualidade e do que ela envolve. 

Já falou de brinquedos sexuais no seu Programa, assim como perguntou à Filomena Cautela, na sua revista, se tinha e se usava algum brinquedo. Já levou mais do que uma vez sexólogos ao seu Programa para abordar temas relacionados com a intimidade de um casal. Mais recentemente, na sua revista, trouxe o tema da sexualidade na deficiência, onde deu voz a uma mãe, que se viu confrontada com a necessidade de o seu filho, portador de deficiência, se estimular sexualmente e de assistir a pornografia. No mesmo sentido, deu voz à diretora de uma associação que acolhe pessoas com deficiência, onde fica o testemunho, em primeira mão, da importância e da necessidade de se considerar este domínio também em pessoas portadoras de deficiência. 

E porquê o exemplo da Cristina Ferreira? O que tem a ver com o post? Tudo. Porque aborda com naturalidade o que é natural, porque procura dar voz àquilo que ainda é falado baixinho ou em contextos muito específicos, como na área da Psicologia ou da Medicina. Mas não fazemos todos sexo? Não temos todos fantasias sexuais? Não temos todos dúvidas e desejos? Não conhecemos todos alguém portador de deficiência, com maior ou menor proximidade? E é nisso que ela se diferencia.

É através dela que os temas nos entram casa adentro, de forma gratuita, porque basta ter a televisão ligada ou seguir as suas redes sociais para saber do que fala. E ao contrário dos comentários que lhe fazem, de ser "porca", "depravada", "sem nível" ou "ter falta de sexo", o que ela faz é educar, é contribuir para que as coisas sejam chamadas pelos nomes, em horário livre, de acesso a todas as idades, da mesma forma para todas as classes sociais. E não a estou a defender. Nem sou ninguém para tal. Estou apenas a defender a necessidade de se falar de sexualidade, das suas múltiplas formas e de se desmistificar o que não tem de ser mito nem tabu. Só falando é que se esclarece, é que se ganha liberdade para pensar e refletir a mais do que uma voz.

Comprar um objeto sexual não é de alguém depravado. É o mesmo que comprar uma lingerie mais atrevida ou uns boxers mais provocantes. Há quem goste de investir nessas peças e há quem não lhes reconheça utilidade porque se acaba sempre nu. Isso depois é uma opção de cada um. Mas todos servem para o mesmo: contribuir para a intimidade do casal, contribuir para o bem-estar e para a satisfação, individual e/ou conjunta. 

Talvez hoje, porque na maioria das novelas dos diferentes canais existem pares homossexuais, seja mais fácil lidar com a homossexualidade. Estamos na sala a ver a novela e está ali um casal à nossa frente, ainda que ficcionado. Não dá para evitar o assunto. Talvez porque existe um prostituto masculino numa novela, nos seja oferecida a possibilidade de encararmos essa realidade e ganhemos consciência para refletir sobre a sua existência e eventuais desafios. 

É preciso educar. É preciso que se fale, que se mostre o que existe para que sejam alargados horizontes, para que se deixem cair muros e se conheça o que há a nossa volta. Fale-se ou não, as coisas existem, e quanto mais se falar, quanto mais for divulgado, mais fácil é interagirmos uns com os outros, conhecendo um pouco melhor a realidade de cada um e enfrentarmos as coisas como elas são. 

Cultura também é educação, e se há programas de televisão, revistas, filmes, novelas, onde existe visibilidade para esclarecer novelos de confusões e mitos, então que lhes seja sempre dado espaço para isso. 

Obrigado, Cristina!

O que é um "final feliz"?

07.05.19, Miguel Oliveira

Há dias, num programa matutino, falava-se de divórcio.

Queria falar-se da tomada de decisão e do que é a vida pós-divórcio. Para uma das convidadas, a decisão tinha sido "horrível". Era o assumir de um "falhanço", era assumir que o projeto que se quer de uma vida tinha fracassado e que todos à sua volta iriam encarar uma "falhada", que não conseguira levar um projeto até ao fim. Lidar com a situação foi "doloroso". Em oposição, do outro lado da moeda estava alguém que sentia ter-se libertado de um casamento infeliz, onde cumpria com as tarefas exigidas pela sociedade, o tal "pacote familiar" que inclui comprar casa, casar e ter filhos (Guerreiro & Abrantes, 2007). De resto, enquanto pessoa, enquanto mulher, sentia que se tinha anulado durante mais de 20 anos. Ali, em amena cavaqueira, uma mesma situação com duas posturas totalmente opostas. Em ambos os casos havia um final. Ou seria um recomeço?

Ontem, a propósito de um casamento que tinha terminado ao fim de quatro meses, alguém dizia que talvez esses finais de relação sejam positivos, porque as pessoas ficam com tempo para viverem as suas vidas, para explorarem e se reinventarem. Se ao fim de quatro meses percebem que estão em momentos diferentes, que procuram coisas diferentes, então existe a possibilidade de se repensar os projetos de vida, quer em comum quer os individuais, porque ninguém deixa de ser indivíduo só porque vive junto ou celebrou um matrimónio.

Agora, esta postura não será acertada? Por que motivo dizemos que um divórcio não pode ser um final feliz? O que é isso de um "final feliz"?

Quem por aqui passa já percebeu que valorizo muito as relações, os sentimentos e as interações. Porém, há que ter bom senso e deve existir uma boa capacidade reflexiva para analisarmos a situação em que nos encontramos e, volto a frisar, saber o que queremos/necessitamos/merecemos/desejamos enquanto indivíduos, enquanto seres singulares, mesmo que estejamos numa relação, de maior ou menor duração. 

Iniciámos um projeto. No momento em que o mesmo se celebrou, com as circunstâncias em que os protagonistas se encontravam, aquela era a decisão que lhes fazia sentido. Porém, muito ou pouco tempo depois, nós já não somos os mesmos. Os sonhos já mudaram, as necessidades alteraram-se e até as circunstâncias em que vivemos já não são as mesmas. Como diz o povo, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". E não é que um casamento tenha de ser um capricho para ser encarado como uma vontade que precisa de ser satisfeita. Mas é uma decisão, um projeto que se assume. Agora, tudo tem um fim. Não termina um casamento quando um dos cônjuges morre? O nosso estado civil não é alterado? E esse casamento, que foi levado "até que a morte nos separe", também não terminou? Também esse teve um final que não foi feliz? 

O meio em que crescemos, as ideias que nos vão transmitindo e todos aqueles que nos rodeiam vão moldando o nosso comportamento e interferindo - com mais ou menos impacto - nas nossas decisões. O que me parece é que ainda pensamos pouco em nós, no que queremos e precisamos. Por causa dos filhos, da família, dos vizinhos ou dos amigos, não há coragem para dizer que não se quer mais, que não faz mais sentido, que aquela união não nos faz feliz nem realiza, da mesma forma como um dia, há muito ou pouco tempo, chegámos e revelámos que o casamento estava marcado. E isto não é só em relação ao divórcio. É em relação a tudo. E somos nós próprios que perpetuamos estas mesmas ideias.

O propósito de uma qualquer união não é enaltecer algo de bom? Não começamos a namorar ou casamos porque queremos partilhar a felicidade ao lado daquela pessoa? Não será essa a premissa? Então, quando tal não ocorre, existe a possibilidade de terminar ali o vínculo. E não porque somos fracos, falhados ou não temos a capacidade de ultrapassar problemas e divergências - sim, estes "pormenores" existem e fazem parte das relações. Mas falamos de algo maior.  Assumir um divórcio pode ser encarado como uma possibilidade de procurar essa mesma felicidade e a realização de sonhos de uma outra forma, ao lado de outra pessoa ou não.

Imaginem uma corrida. Inicia-se com força, com garra, com vontade de fazer parte dela. Na reta final, existe a meta, existe o "fim" da corrida. Mas esse "fim" não representa nada de negativo. Antes pelo contrário. Para lá da meta existe a possibilidade de descanso, de recuperar o fôlego, de ganhar parte do que se perdeu. Em muitos casos, mais ou menos amigáveis, parece-me que o divórcio seja a reta final desta corrida. É tudo uma questão de perspetiva e das bases com que crescemos.

As palavras têm muito peso e acredito que é esse mesmo peso que nos aprisiona e limita as decisões. Um dia, quando o divórcio for encarado como um "recomeço feliz", talvez as coisas mudem.

Em perspetiva

02.05.19, Miguel Oliveira

No outro dia aconteceu-me uma coisa engraçada. 

Durante anos, os meus avós fizeram a mesma viagem, todas as semanas, para me vir buscar a casa dos meus pais, onde passava o fim de semana. Durante esses mesmos anos, a minha avó sempre foi ao lado do meu avô, na viagem de carro. Sempre o mesmo lugar, sempre a mesma estrada, sempre a mesma viagem. 

No outro dia, viajámos ambos no banco de trás. Atenta, foi todo o caminho a olhar para o vidro, como se não conhecesse o percurso por onde tanta vez passou. Perguntei-lhe o que tanto ia a observar. Respondeu-me que ia a ver a estrada, que nunca tinha viajado no banco de trás e parecia uma estrada nova, um caminho desconhecido e que ia a ver como era. Sorri-lhe. Sorri-lhe e percebi que acabara de me dar uma excelente metáfora para a vida. 

Que a nossa viagem seja colocada em perspetiva. A vida é isso, uma estrada, um caminho. Pode ser sempre o mesmo, mas não tem de ser sempre igual. 

Maio: definir

01.05.19, Miguel Oliveira

Maio é mês de definição. 

Com muita ou pouca noção disso, estamos no quinto mês do ano. Estamos na 18ª semana de um ano com 52. Daqui a 30 dias, entraremos no 6º mês do ano, mês do calor, do desejo de férias, de algum descanso e, para muitos, mês de refletir sobre a metade de um ano que já passou e de outra metade que se avizinha. Antes dele, é tempo de definir o que a correria do dia a dia ainda não nos permitiu. Antes do momento do balanço, é momento de definir onde estamos, em que condições e onde queríamos chegar este ano. 

Que maio seja um mês de decisões, um mês de desafios e definições.