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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Pequenas questões

28.06.19, Miguel Oliveira

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Todos temos dias difíceis. E as dificuldades podem ser bastante diversas. Difíceis porque somos apanhados pelos imprevistos; difíceis porque temos muito trabalho; difíceis porque há muitas situações aborrecidas para tratar; difíceis porque apetecia-nos tudo menos aquilo que temos para cumprir; difíceis porque tudo nos sai ao lado. Seja como for, há dias difíceis para todos. Porém, o que fazemos nós nesses finais de dia? 

Quantas vezes, no fim de um dia difícil, olhamos para nós? Quantas vezes refletimos nas pequenas tarefas que conseguimos cumprir? Quantas vezes damos como bem sucedido o nosso papel naquele dia? 

No fundo, e é de tudo isso que se trata, quantas vezes nos valorizamos ao final de cada dia

Em todos os dias, mas especialmente nos difíceis, devíamos pensar no que fizemos de novo; no que nos parecia impossível e foi possível; no que nos custou horrores fazer mas que foi feito. 

Tudo, mas mesmo tudo, tem de partir de nós. Se não nos valorizarmos, não reconheceremos como verdadeiro qualquer valorização que venha de terceiros. Aquilo que não acontecer dentro de nós, não será recebido quando vier de fora. 

Acariciar fragilidades

23.06.19, Miguel Oliveira

Medo

Gosto de entrevistas. E este gosto está assente na possibilidade de ouvir histórias, de conhecer pessoas, formas de estar na vida, formas de enfrentar situações. No fundo, e aplicando um conceito teórico da minha área de formação, gosto de entrevistas pela possibilidade de receber visões múltiplas sobre as situações que são comuns, em algum momento da vida, a cada um de nós. 

Numa dessas entrevistas ouvi uma frase que me fez muito sentido e que, desde então, não me saiu mais da cabeça: “nós acarinhamos muito os nossos medos, as nossas limitações”. 

Pense num medo seu. Aquele mais fundamentado ou até no mais estúpido ou sem nexo. Seja qual for o seu medo, pense nas vezes em que quase o protegeu, usando-o como escudo para não fazer determinada tarefa. Quando faço esse exercício, só me ocorre uma imagem: ter um Nenuco nos braços, pequenino e aprumado, de olhos abertos para mim, enquanto o embalo e lhe faço festinhas. Nele está o meu medo, aquele que eu cuido delicadamente, aquele que eu mostro a todos, como quem mostra um bebé, sempre que alguma situação me é impossibilitada pela sua existência. 

Resultado desta interação com o meu Nenuno? Fico paralisado. Fico no mesmo sítio, no mesmo estado. Nada de diferente acontece. Nada se acrescenta. Fico inerte. E é aí que reside o problema. 

Num determinado dia, o medo surgiu. E desde aí, demos-lhe um lugar privilegiado na nossa vida. Demos-lhe o melhor quarto que existe no nosso arrumo superior. Ele ficou lá desde então. Mas chegou a hora de o expulsar. Precisamos de deixar de proteger o bebé e soltá-lo, livre, como quem permite a um bebé gatinhar na terra. Ele não morrerá por isso. No fundo, e como diz Osho, o conselho é simples: "Mergulhe no seu medo. Entre nele silenciosamente, para poder conhecer a sua profundidade. Às vezes descobrimos que não é muito profundo.", porque o "medo é feito de desconhecimento do nosso próprio ser." (Medo: compreender e aceitar as inseguranças da vida, 2010).

O medo só existe na nossa cabeça e somos nós quem o alimenta. Somos nós quem o faz crescer saudável, dentro de nós, com todos os nutrientes que lhe damos cada vez que aceitamos conviver com ele. No fundo, o medo é como um telemóvel quando está a carregar: quanto menos lhe mexermos (isto é, quanto menos fizermos para contrariar a sua existência), mais bateria ele recebe. Precisamos de nos soltar dos nossos medos. Sim, porque todos temos medos! Uns há mais tempo do que outros. Uns numas áreas e outros noutras. Mas ninguém é "inferior" ou "fraco" só por ter medo. Porém, precisamos de usar o que temos a nossa favor - o poder. O poder de fazer diferente, de olhar para a pessoa que seríamos sem o medo e ver o que podemos aplicar hoje, quando estivermos com medo. E isso porque, como ouvi há dias num filme de animação, "a única forma de enfrentarmos o medo é agirmos como se não tivéssemos medo." (A vida secreta dos nossos bichos 2, 2019).

Apenas um pedido: ama-me!

21.06.19, Miguel Oliveira

"Ama-me! Mas ama-me sempre, cada dia um pouco mais.

Ama-me com o teu olhar, com o teu sorriso, com o teu beijo inesperado. Ama-me com o teu corpo, com a tua boca doce, com o teu toque atrevido. 

Ama-me nos dias chuvosos e cinzentos, da mesma forma que me amas nos dias alegres, luminosos e soalheiros. 

Ama-me em público e privado, sempre com o mesmo olhar intenso e apaixonado. 

Ama-me nu ou vestido, com a melhor ou a pior roupa. 

Ama-me nas noites de jantares românticos e nos dias em que não houver vontade de fazer jantar. 

Ama-me com força, com toda a tua força, com todo o teu corpo e toda a tua alma! Ama-me como se não houvesse amanhã e tivesses de provar tudo hoje.

Ama-me como se fosses a pessoa mais feliz do mundo, a mais sortuda e especial. É apenas o que te peço: que me ames!

E não te preocupes. Sei que não podemos pedir algo que não possamos nem saibamos receber e retribuir. E retribuir não porque é um dever, mas porque as relações são feitas de trocas, de interações, e só assim se sustentam e mantêm. Por isso, ama-me! E ama-me porque deste lado prometo amar-te!

Não digo, nem posso dizer, que te irei amar na mesma medida, porque medidas cada um tem as suas e são sempre inacessíveis ao outro. Mas amar-te-ei com tudo o que tiver e com tudo o que puder dar a cada dia, porque todos os dias mudamos. Se hoje só conseguir amar a 80%, então terás os 80% de amor só para ti. 

Mas ama-me! Diz o povo que recebemos aquilo que damos, e eu sou sempre fiel aos saberes do povo.".

 

Sonho

 

Acordei. Foi este o meu sonho. Falava com um corpo sem rosto. Sereno, feliz e de boa energia, ali estava ele, diante de mim. Sei que foi um sonho, mas talvez tenha sido o sonho mais verdadeiro e sincero que alguma vez tive. O que sonhei ser real, era a minha real vontade de construir um sonho. 

Quando dois iguais fazem melhor que dois diferentes

20.06.19, Miguel Oliveira

Paridade homossexual

Quer queiramos quer não, vivemos ainda numa sociedade onde existe desigualdade de género, onde cabe às mulheres a maior responsabilidade no que toca às tarefas domésticas e à educação dos filhos. Porém, no outro dia dei por mim a imaginar como é que essa realidade seria vivida nos casais homossexuais. 

Nos casais homossexuais masculinos, não há mulher para fazer o jantar, pôr a mesa ou ir às compras; nos casais homossexuais femininos, não há homem que lave o carro, que vá colocar o lixo à rua ou que se levante para ir matar a aranha que está junto à janela. Isto são apenas alguns exemplos com os quais fui contactando, tendo em conta o contexto familiar heterossexual em que cresci. Porém, revela um pouco da diferenciação que se gera nos casais heterossexuais e que eu, em jeito de brincadeira, achava que não iria acontecer nos casais homossexuais. Estava eu a rir-me com as "vantagens" de ser gay, no sentido de se contribuir para um ambiente conjugal e familiar muito mais equilibrado e paritário, quando descubro que, efetivamente, "há paridade nos casais homossexuais" (Labirinto de Mágoas, Daniel Sampaio, 2012). 

De facto, existem "diferenças nas dinâmicas dos vários tipos de casais", e é sobre estas que devíamos refletir. É para estas que devíamos olhar e perceber os contornos com que vivem os casais homossexuais, retirando deles o que for de mais positivo, nomeadamente a questão da paridade e dissolução dos papéis de género, que não se aplicam, como é óbvio, ou a sua capacidade de "fazer adaptações sucessivas no sentido de incrementar o bem-estar no interior da relação". Porém, e como não há cenários ideais, é importante estarmos atentos às dificuldades que também são vividas, seja para que tenhamos uma maior capacidade empática, seja para ganharmos consciência de que todos enfrentamos desafios e que consoante as circunstâncias em que os mesmos ocorrem, as respostas terão de ser diferenciadas. Não há "chapas 5" no que toca a relações!

Deixar saudade

17.06.19, Miguel Oliveira

O poema diz-nos que "As coisas vulgares que há na vida/ Não deixam saudades/ Só as lembranças que doem/ Ou fazem sorrir" (Chuva, de Jorge Nunes). 

Ao atentar na letra, questionei-me sobre tudo aquilo que temos na vida e que poderia não deixar saudade. É certo que tudo faz parte e talvez precisemos das mais insignificantes vivências da mesma forma como precisamos dos grandes amores e das grandes aprendizagens, mas olhando para nós, para o que temos, para quem nos rodeia, o que é que não deixaria saudade? Que tempo e disponibilidade estamos a dar a pessoas e acontecimentos que nada nos acrescentam e dos quais não nos vamos recordar? 

E se não houvesse espelhos?

14.06.19, Miguel Oliveira

Nas ruas, nos locais públicos ou em casa, há sempre onde possamos ver o nosso reflexo. Seja em espelhos, montras, janelas ou portas envidraçadas, lá estamos nós refletidos. Há quem os adore, quem os odeie e quem lhe conceda a importância necessária para as tarefas do dia a dia. Porém, e porque os assumimos como fazendo parte da nossa rotina, já pensou como seria se não houvesse espelhos? 

Na era do narcisismo digital, como alguns lhe chamam, como seria se, de repente, não nos víssemos a toda a hora? Como seria a interação com os outros? Como seria a relação com nós próprios?

Óbvio que isto são especulações e ignorar algo que existe não é um trabalho fácil de concretizar, mas acredito que nos aproximasse e humanizasse.

Por um lado, ficaríamos despertos para o que se passa à nossa volta. Estaríamos atentos ao que nos rodeia, a quem nos rodeia e à forma como essa pessoa se encontra. Passaríamos a ver pessoas em vez de máscaras e capas de livros que julgamos de imediato. Com isto, daríamos real sentido à noção de humanidade. Por outro, e em consequência do primeiro, ficaríamos mais próximos dos que nos rodeiam. Seríamos os olhos uns dos outros, estaríamos atentos à beleza natural, focados na interação e centrados num todo. Acredito que poderíamos descobrir novos pontos de interesse na outra pessoa, no que ela tem para nos oferecer além da sua imagem, filtrada e manipulada. Aprenderíamos a dar um elogio genuíno com a mesma rapidez com que tecemos uma crítica, hoje em dia. E se isto se passa com os outros, também em nós haveria mudanças. Aos poucos, começaríamos o verdadeiro trabalho de conhecimento pessoal. De dentro para fora, iríamos descobrir de que massa somos feitos, o que há de bonito em nós, o que existe de menos bom e que também faz parte. Na impossibilidade de nos mascararmos com filtros, seríamos confrontados com a necessidade de lidarmos com tudo aquilo que temos, porque haveria tempo, porque o escape que hoje existe não estaria ao nosso alcance. Sim, poderia existir um milhão de outros escapes, mas quando olhamos além de nós, ficamos diferentes. 

No fundo, se não houvesse espelhos, seríamos todos mais bonitos!

sem_espelhos

Festinhas para homens de barba rija

06.06.19, Miguel Oliveira

barba rija

Uso barba, mas sempre a aparei e desfiz em casa. Porém, e pela primeira vez, hoje tive oportunidade de ir a uma barbearia, daquelas barbearias modernas que se instalaram nas cidades. 

Adorei o atendimento, a atenção e o trabalho. Foi, de facto, uma boa experiência. Mas não é sobre ela que quero falar. 

Estava eu recostado na cadeira do barbeiro, já no fim do serviço, de cara tapada com uma toalha humedecida, quando o senhor que me estava a atender me coloca o after shave na cara. Com pele macia e mãos delicadas, aplicou-me o produto no rosto, em movimentos suaves. No fundo, fez-me festinhas na cara. Eu, amante de mimos e cuidados, adorei! Mas enquanto recebia aquela massagem final, pensei nos homens de barba rija a levarem tal tratamento. Eu, por mim, adoro mimos e ter um homem a fazer-me festas na barba ou na cara não é novidade. Mas deve haver aí muita gente avessa a tais demonstrações, ou pelo menos assim o expressam em relação aos outros.

Continuo a ter para mim que a questão do preconceito tem por base o desconhecimento, a desinformação e a ideia que se faz sobre interações físicas e sexuais. O amor, o sentimento, esse não se mede nem é visível e, portanto, não importa. Agora, imaginar dois homens ou duas mulheres a tocarem-se, a ter sexo, isso sim é assunto e gera opiniões formadas. 

Naquela posição, apenas pensei na mudança dos tempos. Lembrei-me como seria um homem de barba rija a levar festinhas na cara de outro homem. De fora, estamos a ver dois homens a tocarem-se, ou um funcionário e um cliente? Usam-se dois pesos e duas medidas? 

Apenas uma palavra: aceitação. Dá menos trabalho. Gera menos conflitos e fica tudo feliz! 

Junho: celebrar

01.06.19, Miguel Oliveira

Junho. Ele chegou. E qual o verbo escolhido? Celebrar. 

Curiosamente, neste que é o primeiro dia no início da segunda metade do ano, é também o Dia da Criança. 

Estamos cá. Estamos vivos. Porém, quantas vezes nos lembramos dos meninos e meninas que fomos em tempos? Quantas vezes nos lembramos dos medos já ultrapassados e dos sonhos que ainda estão por realizar? Quantas vezes recuamos à nossa infância e fazemos algo para ver aquela criança sorrir de contentamento? Quantas vezes procuramos cuidar da criança que ainda temos em nós? 

Por isso mesmo, celebremos. Celebremos a possibilidade de sonhar, de acreditar, de termos em nós a oportunidade de fazer mais, de fazer melhor e de resgatar olhares brilhantes e sorrisos genuínos de quem já fomos um dia. Aquela criança ainda existe em nós, ainda espera que lhe consigamos dar tudo aquilo que os recursos que construímos desde então lhe ofereçam o que a ela era inacessível. Ela acreditava, mas sem recursos. Hoje temos os recursos. O que fazemos? 

A única certeza sobre o tempo é que ele não pára. Que seja usado para celebrar a nosso favor! 

"Pais e namorados" (Jesper Juul)

01.06.19, Miguel Oliveira

O mote é simples mas bastante poderoso - "As famílias precisam de pais que pensem mais em si próprios". 

Pais e namorados

Não é preciso estudar a área para perceber que cada etapa da nossa vida vai trazendo consigo novos desafios, exigindo dos intervenientes novos comportamentos e responsabilidades. Assim, quando um casal passa a ser também par parental, surgem novos desafios, novas rotinas, novas crises e novas oportunidades de mudança. 

Nas "Leituras" de hoje trago este livro que achei maravilhoso! Com uma postura assertiva e bem documentado com casos reais, o conferencista e terapeuta familiar Jesper Juul procura oferecer "um guia prático para os pais aprenderem a encontrar tempo para ser pais... e namorados". O autor reconhece que "existe uma grande pressão social para os pais colocarem as necessidades dos filhos à frente das suas; mas se o casal não cuidar da sua relação, o efeito que isso tem nas crianças pode ser devastador". Assim, adverte para que os parceiros se aceitem mutuamente, respeitando que são pessoas diferentes e que se comportam de forma distinta. Essas diferenças são o resultado de todas as experiências de vida e da personalidade, e "existindo pais que se tratam com empatia e respeito, os filhos irão aprender que as pessoas são diferentes e que isso não é o problema.". 

"A felicidade da relação é a felicidade da família", "Crescer em conjunto na adversidade", "Unha com carne: a ligação intuitiva e o que ela faz à relação" e "Quando é que a separação é o melhor caminho?" são os tópicos sobre os quais são lançadas questões e tecidos comentários. 

Um livro reflexivo para namorados e pais enamorados.