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ÂNCORA DE PAPEL

ÂNCORA DE PAPEL

Só porque (não) faz sentido

Todos os dias nos cruzamos com muitas pessoas. Umas são-nos estranhas; outras conhecemos de vista; algumas fazem parte da nossa rede; outras já fizeram; e ainda há aquelas que, por algum motivo, num qualquer momento de um dia, começam a fazer parte das nossas interações. Por uma qualquer razão, começamos a interagir com alguém novo. Os motivos podem ser vários, do nosso lado ou do lado da outra pessoa. O que importa frisar é que uma qualquer interação começa com um sentido. Fez-nos sentido começar, do nada. 

Ora, se aceitamos isso com naturalidade, por que não aceitamos que, da mesma forma como começou, uma qualquer interação se possa extinguir simplesmente porque já não faz sentido? E se são precisas duas pessoas para iniciar uma interação, basta apenas uma para a concluir ou, de outra forma, para não a alimentar mais. E não precisamos de esmiuçar a questão. Não temos de ficar presos em "ses" ou "porquês". Já não faz sentido. E as respostas às nossas eventuais questões são-nos dadas nas mensagens, nas ausências, nos silêncios. Nos nossos ou nos dos outros.

Hoje somos uma coisa, amanhã somos outra. A única constante é a mudança

A partida

Não lhes conheço a história. Não sei qual o motivo da viagem nem da despedida. Na verdade, não sei nada sobre eles. São dois estranhos, avistados do banco do autocarro em que estou sentado.

Eles, encostados ao corrimão, esperam a sua vez. Estão serenos, de mãos dadas, frente a frente. Sorriem e olham-se intensamente. É ela quem vai de viagem. O autocarro chegou e os dois despedem-se. De corpos juntos, olham-se e trocam carícias no rosto. Voltam a sorrir. Assim que a porta do autocarro se abre, beijam-se de forma apaixonada. Antes da despedida, mais um sorriso e um deslizar de mão suave no rosto. Mimam-se como dois amantes. Olham-se como dois bons amigos. 

Não sei nada deles, mas sei que se gostam, que se cuidam e que se querem bem. Enquanto observador, posso hipotetizar mil e um cenários na minha cabeça. Seja qual for a teoria que lance para aquela partida, a verdade estará nos sorrisos que trocaram, nos beijos que deram e, acima de tudo, nos olhares que partilharam. Longe ou perto, acredito que estejam próximos um do outro, talvez mais próximos do que quando estamos deitados na mesma cama com alguém. 

Não senti tristeza naqueles minutos. Estavam a desejar o melhor para cada um, ainda que estivessem em silêncio. Talvez seja esta a língua do amor, uma língua de afetos, de toque, de olhares, em que se transmite uma mensagem sem se falar, em que se deseja o bem ao outro, de forma genuína, num sorriso e num beijo que soam a "Vai miúda! Conta comigo que estou sempre contigo!". 

Ela partiu, não sei por quanto tempo, mas nenhum deles ficou sozinho. 

Em perspetiva

No outro dia aconteceu-me uma coisa engraçada. 

Durante anos, os meus avós fizeram a mesma viagem, todas as semanas, para me vir buscar a casa dos meus pais, onde passava o fim de semana. Durante esses mesmos anos, a minha avó sempre foi ao lado do meu avô, na viagem de carro. Sempre o mesmo lugar, sempre a mesma estrada, sempre a mesma viagem. 

No outro dia, viajámos ambos no banco de trás. Atenta, foi todo o caminho a olhar para o vidro, como se não conhecesse o percurso por onde tanta vez passou. Perguntei-lhe o que tanto ia a observar. Respondeu-me que ia a ver a estrada, que nunca tinha viajado no banco de trás e parecia uma estrada nova, um caminho desconhecido e que ia a ver como era. Sorri-lhe. Sorri-lhe e percebi que acabara de me dar uma excelente metáfora para a vida. 

Que a nossa viagem seja colocada em perspetiva. A vida é isso, uma estrada, um caminho. Pode ser sempre o mesmo, mas não tem de ser sempre igual. 

Maio: definir

Maio é mês de definição. 

Com muita ou pouca noção disso, estamos no quinto mês do ano. Estamos na 18ª semana de um ano com 52. Daqui a 30 dias, entraremos no 6º mês do ano, mês do calor, do desejo de férias, de algum descanso e, para muitos, mês de refletir sobre a metade de um ano que já passou e de outra metade que se avizinha. Antes dele, é tempo de definir o que a correria do dia a dia ainda não nos permitiu. Antes do momento do balanço, é momento de definir onde estamos, em que condições e onde queríamos chegar este ano. 

Que maio seja um mês de decisões, um mês de desafios e definições. 

Riquezas

"Sem um coração rico, a riqueza é um horrível mendigo."

(Emerson)

 

Cruzei-me com esta frase num livro que adoro e não poderia estar mais de acordo com ela! Acredito que muitos de nós vivem sem se conhecer verdadeiramente, se é que há um dia em que nos conhecemos dessa forma. Seja como for, independentemente do grau de conhecimento atingido, há valores que nos enriquecem, pessoas que nos acrescentam, momentos que nos preenchem e conquistas que nos engrandecem. Todos estes pequenos aspetos, ainda que de grande importância, fazem com que sejamos melhores pessoas a cada dia, mais ricos. Dão-nos humanidade, enchem-nos de genuinidade e conquistam-nos pela sua simplicidade. 

Como diz o povo, aquele que tanto gosto, "Não és um menino rico, mas és um rico menino!". 

Individualidade vs. coletividade

Sou, por natureza, muito observador. Em grupo, sou sempre o que fala em último. Num jantar de amigos, sou o que fala com este ou aquele individualmente, e raramente me expresso para o grupo. Essa é uma característica que gostava de mudar, por vezes. No entanto, depois penso: por que motivo temos todos de fazer o mesmo? Por que motivo temos de ser todos iguais, com as mesmas competências nas mesmas áreas? Por que motivo temos todos de gostar das mesmas coisas só porque "é da nossa área"? 

Até certo ponto, consigo entender que haja "coisas básicas" que todos devemos conseguir fazer. Escrever de forma correta, conseguir falar em público de forma coerente e interagir socialmente de forma adequada parece-me aceitável. Somos seres sociais, precisamos indiscutivelmente de nos expressar e de interagir com os que nos rodeiam, mas não temos todos de ser grandes oradores; não temos todos de ser grandes escritores de best sellers nem seguirmos o mesmo caminho dos demais.

Às vezes fico com a sensação de que existe alguma pressão para sermos todos iguais, de mudarmos as nossas características para que cheguemos a determinado ponto, em vez de olharem para nós pelo que somos, pelo que temos para dar. Há momentos em que sinto que procuram mais as minhas diferenças, aquilo "que me falta", do que procuram aquilo que eu realmente tenho ou sou. Às vezes, fico com a ideia de que somos obrigados a ignorar a nossa individualidade para sermos inseridos na coletividade. 

Beije! Hoje é o Dia do beijo

Há dias para tudo, mas o dia de hoje não poderia ser ignorado. 13 de abril (ou 6 de julho) é o dia escolhido para celebrar o mais íntimo dos afetos. Celebra-se o Dia do beijo. 

Do latim basium, o ato de beijar presta-se a múltiplos significados, em diferentes contextos e ocasiões. Olhando os remotos tempos romanos, encontramos três tipos de beijos: o basium, trocado entre conhecidos; o osculum, dado apenas a amigos íntimos; e o suavium, o beijo dos amantes. Este último, o dos amantes, é o meu preferido!

Humedecidos, tocam-se os lábios. O corpo reage, a pele arrepia e o coração acelera. Vagarosamente, os olhos fecham-se, a alma flutua e o tempo pára. O cheiro do outro, daquele que é nosso, envolve-nos. O seu sabor, sabor de alguém que nos deseja, entra em nós e vicia-nos de imediato, numa troca que não tem fim. As mãos que agora parecem plumas, acariciam o corpo que está entregue ao outro. Estamos nas mãos dele, literalmente na boca do lobo, mas este é um jogo de igual para igual.

Beijamo-nos apaixonadamente para mostrarmos o nosso carinho, a nossa paixão, a nossa sensibilidade. Beijamo-nos intensamente porque é intenso o que nos une. Beijamo-nos avidamente porque tudo o que é bom acaba depressa e sabemos bem como queremos aproveitar cada milésimo de segundo. Beijamo-nos porque é na pele e no corpo um do outro que gostamos de estar. Beijamo-nos só porque sim, porque gostas, porque eu adoro, porque nos queremos. 

 

"Beijamos de olhos fechados porque as melhores coisas da vida não são para ser vistas, mas para serem sentidas."

Uma princesa que se respeita

O filme "Soltera Codiciada" termina com o seguinte pensamento:

Porque nos ensinaram que somos a princesa da história. Mas a verdade é que também podemos ser a fada-madrinha de uma amiga, se ela precisar de ajuda; o génio da lâmpada quando tentamos corresponder às expectativas de todos; e sobretudo, o nosso príncipe encantado. Porque uma princesa que se respeita, salva-se a si própria.

Por culpa da Disney, ou não, corremos atrás de um amor. É imperativo termos alguém ao nosso lado, alguém que nos ame, que connosco queira construir um mundo e que connosco queira ir descobrir o mundo. Mas, à parte desse papel, temos muito mais para oferecer, muito mais para viver e, acima de tudo, muito, mas muito mais para ser.

Que nunca nos esqueçamos de nós. Que nunca desistamos da pessoa que existe para lá da imagem, dos nossos sonhos, dos nossos objetivos, daquilo que só nós podemos dar a nós próprios.

Como diz uma frase de que tanto gosto, "Eu sou a parte que falta em mim".

Saudade

Sentimos saudades muitas vezes, de muitas coisas. São saudades de experiências vividas, saudades de pessoas, de locais que nos marcaram. Porém, uma questão se impõe: já alguma vez sentiu saudades suas? Saudades das suas melhores características, da sua melhor gargalhada, do seu olhar mais brilhante? Já alguma vez sentiu saudades de estar feliz apenas por si, por um feito seu?

Às vezes perdemo-nos. Perdemo-nos nas obrigações, nas tarefas, nos sonhos, nos medos, nos pensamentos negativos, nas ansiedades, mas, o pior de tudo, perdemo-nos de nós! Desviamo-nos do que somos, daquilo que podemos fazer de positivo, daquilo que podemos fazer por nós. Se é verdade que temos em nós todos os sonhos do (nosso) mundo, então temos em nós a possibilidade de dar gás a tudo aquilo que precisa de energia para se mover. 

Temos de ir à nossa procura, de nos resgatarmos da agitação que é a nossa vida e de procurarmos em nós o nosso melhor lado, o nosso melhor amigo, o nosso mais fiel companheiro. 

Abril: libertar

Abril é mês de liberdade, mais do que em qualquer outro momento, é mês de nos libertarmos de tudo aquilo que nos incomoda, que não nos aquece nem arrefece, que apenas está por estar. 

O verbo escolhido, libertar, presta-se a múltiplos significados. Porém, talvez aquele que mais me faz sentido, seja o de libertar tudo aquilo que temos dentro de nós. Libertar o que está por dizer. Dar voz ao que sentimos e muitas vezes fica retido em nós. Que usemos ao máximo a excelente capacidade de comunicação que possuímos. 

 

"- Morreu de quê?

- Se sufocou com as palavras que nunca disse."

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