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ÂNCORA DE PAPEL

ÂNCORA DE PAPEL

Acariciar fragilidades

Medo

Gosto de entrevistas. E este gosto está assente na possibilidade de ouvir histórias, de conhecer pessoas, formas de estar na vida, formas de enfrentar situações. No fundo, e aplicando um conceito teórico da minha área de formação, gosto de entrevistas pela possibilidade de receber visões múltiplas sobre as situações que são comuns, em algum momento da vida, a cada um de nós. 

Numa dessas entrevistas ouvi uma frase que me fez muito sentido e que, desde então, não me saiu mais da cabeça: “nós acarinhamos muito os nossos medos, as nossas limitações”. 

Pense num medo seu. Aquele mais fundamentado ou até no mais estúpido ou sem nexo. Seja qual for o seu medo, pense nas vezes em que quase o protegeu, usando-o como escudo para não fazer determinada tarefa. Quando faço esse exercício, só me ocorre uma imagem: ter um Nenuco nos braços, pequenino e aprumado, de olhos abertos para mim, enquanto o embalo e lhe faço festinhas. Nele está o meu medo, aquele que eu cuido delicadamente, aquele que eu mostro a todos, como quem mostra um bebé, sempre que alguma situação me é impossibilitada pela sua existência. 

Resultado desta interação com o meu Nenuno? Fico paralisado. Fico no mesmo sítio, no mesmo estado. Nada de diferente acontece. Nada se acrescenta. Fico inerte. E é aí que reside o problema. 

Num determinado dia, o medo surgiu. E desde aí, demos-lhe um lugar privilegiado na nossa vida. Demos-lhe o melhor quarto que existe no nosso arrumo superior. Ele ficou lá desde então. Mas chegou a hora de o expulsar. Precisamos de deixar de proteger o bebé e soltá-lo, livre, como quem permite a um bebé gatinhar na terra. Ele não morrerá por isso. No fundo, e como diz Osho, o conselho é simples: "Mergulhe no seu medo. Entre nele silenciosamente, para poder conhecer a sua profundidade. Às vezes descobrimos que não é muito profundo.", porque o "medo é feito de desconhecimento do nosso próprio ser." (Medo: compreender e aceitar as inseguranças da vida, 2010).

O medo só existe na nossa cabeça e somos nós quem o alimenta. Somos nós quem o faz crescer saudável, dentro de nós, com todos os nutrientes que lhe damos cada vez que aceitamos conviver com ele. No fundo, o medo é como um telemóvel quando está a carregar: quanto menos lhe mexermos (isto é, quanto menos fizermos para contrariar a sua existência), mais bateria ele recebe. Precisamos de nos soltar dos nossos medos. Sim, porque todos temos medos! Uns há mais tempo do que outros. Uns numas áreas e outros noutras. Mas ninguém é "inferior" ou "fraco" só por ter medo. Porém, precisamos de usar o que temos a nossa favor - o poder. O poder de fazer diferente, de olhar para a pessoa que seríamos sem o medo e ver o que podemos aplicar hoje, quando estivermos com medo. E isso porque, como ouvi há dias num filme de animação, "a única forma de enfrentarmos o medo é agirmos como se não tivéssemos medo." (A vida secreta dos nossos bichos 2, 2019).

Apenas um pedido: ama-me!

"Ama-me! Mas ama-me sempre, cada dia um pouco mais.

Ama-me com o teu olhar, com o teu sorriso, com o teu beijo inesperado. Ama-me com o teu corpo, com a tua boca doce, com o teu toque atrevido. 

Ama-me nos dias chuvosos e cinzentos, da mesma forma que me amas nos dias alegres, luminosos e soalheiros. 

Ama-me em público e privado, sempre com o mesmo olhar intenso e apaixonado. 

Ama-me nu ou vestido, com a melhor ou a pior roupa. 

Ama-me nas noites de jantares românticos e nos dias em que não houver vontade de fazer jantar. 

Ama-me com força, com toda a tua força, com todo o teu corpo e toda a tua alma! Ama-me como se não houvesse amanhã e tivesses de provar tudo hoje.

Ama-me como se fosses a pessoa mais feliz do mundo, a mais sortuda e especial. É apenas o que te peço: que me ames!

E não te preocupes. Sei que não podemos pedir algo que não possamos nem saibamos receber e retribuir. E retribuir não porque é um dever, mas porque as relações são feitas de trocas, de interações, e só assim se sustentam e mantêm. Por isso, ama-me! E ama-me porque deste lado prometo amar-te!

Não digo, nem posso dizer, que te irei amar na mesma medida, porque medidas cada um tem as suas e são sempre inacessíveis ao outro. Mas amar-te-ei com tudo o que tiver e com tudo o que puder dar a cada dia, porque todos os dias mudamos. Se hoje só conseguir amar a 80%, então terás os 80% de amor só para ti. 

Mas ama-me! Diz o povo que recebemos aquilo que damos, e eu sou sempre fiel aos saberes do povo.".

 

Sonho

 

Acordei. Foi este o meu sonho. Falava com um corpo sem rosto. Sereno, feliz e de boa energia, ali estava ele, diante de mim. Sei que foi um sonho, mas talvez tenha sido o sonho mais verdadeiro e sincero que alguma vez tive. O que sonhei ser real, era a minha real vontade de construir um sonho. 

Quando dois iguais fazem melhor que dois diferentes

Paridade homossexual

Quer queiramos quer não, vivemos ainda numa sociedade onde existe desigualdade de género, onde cabe às mulheres a maior responsabilidade no que toca às tarefas domésticas e à educação dos filhos. Porém, no outro dia dei por mim a imaginar como é que essa realidade seria vivida nos casais homossexuais. 

Nos casais homossexuais masculinos, não há mulher para fazer o jantar, pôr a mesa ou ir às compras; nos casais homossexuais femininos, não há homem que lave o carro, que vá colocar o lixo à rua ou que se levante para ir matar a aranha que está junto à janela. Isto são apenas alguns exemplos com os quais fui contactando, tendo em conta o contexto familiar heterossexual em que cresci. Porém, revela um pouco da diferenciação que se gera nos casais heterossexuais e que eu, em jeito de brincadeira, achava que não iria acontecer nos casais homossexuais. Estava eu a rir-me com as "vantagens" de ser gay, no sentido de se contribuir para um ambiente conjugal e familiar muito mais equilibrado e paritário, quando descubro que, efetivamente, "há paridade nos casais homossexuais" (Labirinto de Mágoas, Daniel Sampaio, 2012). 

De facto, existem "diferenças nas dinâmicas dos vários tipos de casais", e é sobre estas que devíamos refletir. É para estas que devíamos olhar e perceber os contornos com que vivem os casais homossexuais, retirando deles o que for de mais positivo, nomeadamente a questão da paridade e dissolução dos papéis de género, que não se aplicam, como é óbvio, ou a sua capacidade de "fazer adaptações sucessivas no sentido de incrementar o bem-estar no interior da relação". Porém, e como não há cenários ideais, é importante estarmos atentos às dificuldades que também são vividas, seja para que tenhamos uma maior capacidade empática, seja para ganharmos consciência de que todos enfrentamos desafios e que consoante as circunstâncias em que os mesmos ocorrem, as respostas terão de ser diferenciadas. Não há "chapas 5" no que toca a relações!

E se não houvesse espelhos?

Nas ruas, nos locais públicos ou em casa, há sempre onde possamos ver o nosso reflexo. Seja em espelhos, montras, janelas ou portas envidraçadas, lá estamos nós refletidos. Há quem os adore, quem os odeie e quem lhe conceda a importância necessária para as tarefas do dia a dia. Porém, e porque os assumimos como fazendo parte da nossa rotina, já pensou como seria se não houvesse espelhos? 

Na era do narcisismo digital, como alguns lhe chamam, como seria se, de repente, não nos víssemos a toda a hora? Como seria a interação com os outros? Como seria a relação com nós próprios?

Óbvio que isto são especulações e ignorar algo que existe não é um trabalho fácil de concretizar, mas acredito que nos aproximasse e humanizasse.

Por um lado, ficaríamos despertos para o que se passa à nossa volta. Estaríamos atentos ao que nos rodeia, a quem nos rodeia e à forma como essa pessoa se encontra. Passaríamos a ver pessoas em vez de máscaras e capas de livros que julgamos de imediato. Com isto, daríamos real sentido à noção de humanidade. Por outro, e em consequência do primeiro, ficaríamos mais próximos dos que nos rodeiam. Seríamos os olhos uns dos outros, estaríamos atentos à beleza natural, focados na interação e centrados num todo. Acredito que poderíamos descobrir novos pontos de interesse na outra pessoa, no que ela tem para nos oferecer além da sua imagem, filtrada e manipulada. Aprenderíamos a dar um elogio genuíno com a mesma rapidez com que tecemos uma crítica, hoje em dia. E se isto se passa com os outros, também em nós haveria mudanças. Aos poucos, começaríamos o verdadeiro trabalho de conhecimento pessoal. De dentro para fora, iríamos descobrir de que massa somos feitos, o que há de bonito em nós, o que existe de menos bom e que também faz parte. Na impossibilidade de nos mascararmos com filtros, seríamos confrontados com a necessidade de lidarmos com tudo aquilo que temos, porque haveria tempo, porque o escape que hoje existe não estaria ao nosso alcance. Sim, poderia existir um milhão de outros escapes, mas quando olhamos além de nós, ficamos diferentes. 

No fundo, se não houvesse espelhos, seríamos todos mais bonitos!

sem_espelhos

Festinhas para homens de barba rija

barba rija

Uso barba, mas sempre a aparei e desfiz em casa. Porém, e pela primeira vez, hoje tive oportunidade de ir a uma barbearia, daquelas barbearias modernas que se instalaram nas cidades. 

Adorei o atendimento, a atenção e o trabalho. Foi, de facto, uma boa experiência. Mas não é sobre ela que quero falar. 

Estava eu recostado na cadeira do barbeiro, já no fim do serviço, de cara tapada com uma toalha humedecida, quando o senhor que me estava a atender me coloca o after shave na cara. Com pele macia e mãos delicadas, aplicou-me o produto no rosto, em movimentos suaves. No fundo, fez-me festinhas na cara. Eu, amante de mimos e cuidados, adorei! Mas enquanto recebia aquela massagem final, pensei nos homens de barba rija a levarem tal tratamento. Eu, por mim, adoro mimos e ter um homem a fazer-me festas na barba ou na cara não é novidade. Mas deve haver aí muita gente avessa a tais demonstrações, ou pelo menos assim o expressam em relação aos outros.

Continuo a ter para mim que a questão do preconceito tem por base o desconhecimento, a desinformação e a ideia que se faz sobre interações físicas e sexuais. O amor, o sentimento, esse não se mede nem é visível e, portanto, não importa. Agora, imaginar dois homens ou duas mulheres a tocarem-se, a ter sexo, isso sim é assunto e gera opiniões formadas. 

Naquela posição, apenas pensei na mudança dos tempos. Lembrei-me como seria um homem de barba rija a levar festinhas na cara de outro homem. De fora, estamos a ver dois homens a tocarem-se, ou um funcionário e um cliente? Usam-se dois pesos e duas medidas? 

Apenas uma palavra: aceitação. Dá menos trabalho. Gera menos conflitos e fica tudo feliz! 

Amar alguém é um show de strip

Quando conhecemos alguém, conhecemos uma pessoa totalmente vestida, tão protegida e agasalhada como os adeptos dos desportos de inverno. São casacos, luvas, gorros, óculos, meias grossas, botas e muita roupa. Chegam até nós com estas camadas e com a sua bagagem. 

Com o passar do tempo, a confiança vai-se instalando. Começam por pousar a mochila, carregada de recursos e memórias. Num ambiente mais acolhedor, cedem-nos o casaco, as luvas, o gorro e as botas. Vamo-nos sentindo mais confortáveis na presença um do outro, com um comportamento cada vez mais natural, mais genuíno. Os dias vão passando e vamos partilhando histórias. Contam-se as viagens, as aventuras e os desportos realizados. Partilham-se as fotografias, as peripécias e os sustos. A pouco e pouco, os encontros acontecem naturalmente, desprovidos de um qualquer motivo para se realizarem. Nesta altura, já apenas resta o fato de treino quente que protegia o corpo das baixas temperaturas. As peças de roupa vão saindo à mesma velocidade com que o dia a dia vai sendo partilhado, apoiado por olhares trocados e gargalhadas oferecidas. Da mesma forma como cedemos a nossa casa para pousar o equipamento de inverno, recebemos agora olhares, sorrisos e carícias. Faz parte. É destas trocas que é feito o amor. 

Sem darmos conta, aqueles que eram dois estranhos a conviverem, são agora dois amantes que partilham o mesmo espaço. Onde havia apenas lugar a sonhos e aventuras individuais, juntam-se agora os planos em conjunto. As escovas de dentes estão no mesmo copo, da mesma forma como aquela cama de casal é agora partilhada por dois seres. Já há algum tempo que as camadas de roupa quente ficaram arrumadas. Hoje apresentamo-nos com menos roupa: de manhã com roupa casual e, ao fim do dia, com aquele pijama confortável. Ainda assim, não é tudo dado. Mesmo nos momentos mais íntimos, a roupa íntima de ambos esconde alguma coisa. E não há problema algum nisso. Aumenta o desejo, o mistério e a criatividade.

São dois seres que estão juntos, é certo, mas continua a haver individualidade. A relação que entretanto se estabeleceu é como um show de strip: aos poucos, acompanhando as batidas da música, os olhares cruzam-se cada vez mais, os toques na pele um do outro vão sendo menos fugazes, a roupa que preenchia o corpo vai ficando espalhada pelo chão, mas ainda assim, ninguém fica totalmente nu. Há algo que continua a proteger o dançarino; existe alguma coisa a que o outro não tem acesso. É assim o amor. Feito de trocas, de músicas e bagagens de parte a parte. Vai-se dando e recebendo, mas nunca ficamos totalmente despidos para o outro. E ainda bem! 

O que é um "final feliz"?

Há dias, num programa matutino, falava-se de divórcio.

Queria falar-se da tomada de decisão e do que é a vida pós-divórcio. Para uma das convidadas, a decisão tinha sido "horrível". Era o assumir de um "falhanço", era assumir que o projeto que se quer de uma vida tinha fracassado e que todos à sua volta iriam encarar uma "falhada", que não conseguira levar um projeto até ao fim. Lidar com a situação foi "doloroso". Em oposição, do outro lado da moeda estava alguém que sentia ter-se libertado de um casamento infeliz, onde cumpria com as tarefas exigidas pela sociedade, o tal "pacote familiar" que inclui comprar casa, casar e ter filhos (Guerreiro & Abrantes, 2007). De resto, enquanto pessoa, enquanto mulher, sentia que se tinha anulado durante mais de 20 anos. Ali, em amena cavaqueira, uma mesma situação com duas posturas totalmente opostas. Em ambos os casos havia um final. Ou seria um recomeço?

Ontem, a propósito de um casamento que tinha terminado ao fim de quatro meses, alguém dizia que talvez esses finais de relação sejam positivos, porque as pessoas ficam com tempo para viverem as suas vidas, para explorarem e se reinventarem. Se ao fim de quatro meses percebem que estão em momentos diferentes, que procuram coisas diferentes, então existe a possibilidade de se repensar os projetos de vida, quer em comum quer os individuais, porque ninguém deixa de ser indivíduo só porque vive junto ou celebrou um matrimónio.

Agora, esta postura não será acertada? Por que motivo dizemos que um divórcio não pode ser um final feliz? O que é isso de um "final feliz"?

Quem por aqui passa já percebeu que valorizo muito as relações, os sentimentos e as interações. Porém, há que ter bom senso e deve existir uma boa capacidade reflexiva para analisarmos a situação em que nos encontramos e, volto a frisar, saber o que queremos/necessitamos/merecemos/desejamos enquanto indivíduos, enquanto seres singulares, mesmo que estejamos numa relação, de maior ou menor duração. 

Iniciámos um projeto. No momento em que o mesmo se celebrou, com as circunstâncias em que os protagonistas se encontravam, aquela era a decisão que lhes fazia sentido. Porém, muito ou pouco tempo depois, nós já não somos os mesmos. Os sonhos já mudaram, as necessidades alteraram-se e até as circunstâncias em que vivemos já não são as mesmas. Como diz o povo, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". E não é que um casamento tenha de ser um capricho para ser encarado como uma vontade que precisa de ser satisfeita. Mas é uma decisão, um projeto que se assume. Agora, tudo tem um fim. Não termina um casamento quando um dos cônjuges morre? O nosso estado civil não é alterado? E esse casamento, que foi levado "até que a morte nos separe", também não terminou? Também esse teve um final que não foi feliz? 

O meio em que crescemos, as ideias que nos vão transmitindo e todos aqueles que nos rodeiam vão moldando o nosso comportamento e interferindo - com mais ou menos impacto - nas nossas decisões. O que me parece é que ainda pensamos pouco em nós, no que queremos e precisamos. Por causa dos filhos, da família, dos vizinhos ou dos amigos, não há coragem para dizer que não se quer mais, que não faz mais sentido, que aquela união não nos faz feliz nem realiza, da mesma forma como um dia, há muito ou pouco tempo, chegámos e revelámos que o casamento estava marcado. E isto não é só em relação ao divórcio. É em relação a tudo. E somos nós próprios que perpetuamos estas mesmas ideias.

O propósito de uma qualquer união não é enaltecer algo de bom? Não começamos a namorar ou casamos porque queremos partilhar a felicidade ao lado daquela pessoa? Não será essa a premissa? Então, quando tal não ocorre, existe a possibilidade de terminar ali o vínculo. E não porque somos fracos, falhados ou não temos a capacidade de ultrapassar problemas e divergências - sim, estes "pormenores" existem e fazem parte das relações. Mas falamos de algo maior.  Assumir um divórcio pode ser encarado como uma possibilidade de procurar essa mesma felicidade e a realização de sonhos de uma outra forma, ao lado de outra pessoa ou não.

Imaginem uma corrida. Inicia-se com força, com garra, com vontade de fazer parte dela. Na reta final, existe a meta, existe o "fim" da corrida. Mas esse "fim" não representa nada de negativo. Antes pelo contrário. Para lá da meta existe a possibilidade de descanso, de recuperar o fôlego, de ganhar parte do que se perdeu. Em muitos casos, mais ou menos amigáveis, parece-me que o divórcio seja a reta final desta corrida. É tudo uma questão de perspetiva e das bases com que crescemos.

As palavras têm muito peso e acredito que é esse mesmo peso que nos aprisiona e limita as decisões. Um dia, quando o divórcio for encarado como um "recomeço feliz", talvez as coisas mudem.

Amor, uma arte abstrata

Há dias, falava com um amigo sobre relações e o impacto que uma relação que não foi aquilo que esperávamos pode ter em nós e na nossa capacidade de considerar futuros envolvimentos amorosos.

A ideia de que nem tudo é cor de rosa, de que demos mais do que aquilo que recebemos e a destruição de sonhos vividos a dois são algumas das consequências de uma relação que "correu mal". Mas a consciência de que nem tudo é cor de rosa é bom. Ficamos cientes dos dois lados que coabitam nas relações, ao mesmo tempo que ficamos despertos para a necessidade de valorizar os bons momentos, de investir e intensificar aquilo que se vive. E uma má relação não tem de apagar o poder do amor, do conforto, da vivência boa ao lado de alguém.

Às vezes acho que olhamos para o amor como algo estático, passível de ter apenas uma forma, como se fosse um pacote de arroz, por exemplo, sempre igual, com o mesmo peso, as mesmas medidas, os mesmos contornos, o mesmo conteúdo. E quando algo corre fora daquilo que esperávamos, achamos que a visão está distorcida e perdemos a vontade de amar, de imaginar uma vida a dois, de nos envolvermos na mais rica das aventuras. Porém, o amor é tudo menos algo estanque e de medidas definidas. O amor é feito por duas pessoas (ou mais, nos casos poliamorosos), que têm as suas histórias, têm a sua personalidade, estão em determinada fase das suas vidas, já viveram coisas diferentes e procuram coisas diferentes. É natural que não haja sintonia em tudo. Se ganharmos esta consciência, conseguimos procurar coisas boas! 

No fundo, o amor é uma arte abstrata: arte por tudo aquilo que o compõe, pela riqueza, pelo engenho, pela magia, pelas sensações que provoca; abstrata pela falta de traço firme e entendimento imediato. É co-construído, repleto de singularidades. É como as peças únicas, impossíveis de fazer duas iguais. 

Ao meu amor

Às vezes surges em conversa, sempre que se fala em histórias de amor e de paixões. És o maior e mais recente exemplo de uma história de amor, da minha história de amor. Satisfeita a curiosidade sobre a relação e o seu fim, surge sempre a inevitável pergunta: "Ainda se dão?". A minha resposta: "Claro! Somos grandes amigos. É o meu melhor amigo!". E como é que não poderias ser o meu melhor amigo?

Ao longo da nossa relação, uma relação que se foi construindo com pezinhos de lã, fomos descobrindo as camadas um do outro. Fomos dando mais a cada dia, fomo-nos desconstruindo de medos e vergonhas, para construir algo de verdade, assente na sinceridade e na amizade. Ao longo do tempo, foste conhecendo o melhor de mim, o meu lado mais carinhoso e apaixonado, mais louco e erótico, mais doce e preocupado. Porém, nessa troca que se procura ser equilibrada, viste o meu lado mais ciumento e parvo, mais agressivo e pouco racional. Fomo-nos vendo bonitos e sem banho tomado, doces e agressivos, na mais bela das noites da amor e na mais pura e violenta discussão. Tudo fez parte. Por isso, e porque sempre nos fomos aceitando e procurando compreender as palavras e os atos um do outro, como é que não poderias ser o meu melhor amigo? Ninguém conhece os meus extremos como tu, nunca ninguém me viu da forma como tu me viste, e com tudo o que de bom e de mau nos foi acontecendo, continuámos ao lado um do outro, mesmo quatro anos depois do fim da relação. Como não ser amigo de uma pessoa que nos aceita com o melhor e com o pior? Como não permanecer na vida de uma pessoa que algum dia já foi a mais especial de todas? Isto é amizade! 

Por tudo isto é que acredito que o que acaba com o fim de uma relação é o vínculo relacional. O amor, essa entidade gigante e imensurável, continua para a vida. Uma vez amor, amor para sempre. Pode ser um amor diferente. Pode ter outros contornos e representar um peso diferente na minha vida, mas amo-te, como se ama o melhor amigo. Se fosse pequenino e me pedissem um desenho sobre o nosso sentimento, faria igualmente um coração, bem grande. Porém, em vez de estares no centro do meu coração, estavas no cantinho das pessoas especiais! 

E sim, acredito na amizade depois do namoro. Sim, acredito que se uma pessoa já foi a mais especial de todas, pode continuar a ser especial para a vida toda. Sim, com o devido tempo e espaço, podemos falar sobre tudo, mesmo que seja de novas paixões e envolvimentos sexuais. E porquê? Porque a premissa de uma relação amorosa é a nossa felicidade pelo bem estar do outro. E se já fomos a maior preocupação um do outro, então vou continuar a querer que estejas sempre bem, feliz e a sorrir. E não importa que o sorriso apaixonado já não seja para mim. Importa que alguém que faça sorrir dessa forma e que eu te possa abraçar para congratular esse teu estado de felicidade! 

A ti, meu eterno amor, um beijinho, meu melhor amigo! 

Opostos ou Iguais? Equilibrados!

Diz o povo que os opostos se atraem. Em certa medida até posso concordar, mas não me parece que o mesmo dito popular possa ser aplicado a uma relação duradoura. Porém, duas pessoas iguais também não me parece que seja a melhor combinação para uma relação se desenvolver e perdurar. Nem opostos nem iguais. O ideal? O equilíbrio! 

Não podemos ter duas pessoas tão iguais que se fundam uma na outra, nem tão distantes que se percam no espaço que existe entre elas. Precisamos, em vez destes casos extremados, de um meio termo.

Obviamente que têm de haver traços comuns. Destes, podemos falar em gostos, valores, formas de estar na vida, objetivos ou até sonhos de vida. Tem que existir algo que una as duas pessoas, que as atraia de forma a que algo maior possa ser construído. E destas parecenças, surgirá compreensão, respeito, partilha e companheirismo. Só existindo algo em comum, é que o outro conseguirá colocar-se no lugar do(a) amado(a). Mas não é tudo. Precisamos de diferenças. E essas diferenças, ainda que subtis, têm de existir. E têm de existir simplesmente para alargar horizontes, para nos fazer pensar de um outro modo, para nos questionar, para nos enriquecer, para nos dar mundo e construirmos uma melhor versão de nós mesmos. Em suma, tal como disse que dois semelhantes iriam construir algo maior, é também esta diferença que ajudará a contribuir para o mesmo fim. Porque se vai dando, hoje eu, amanhã tu. Porque é a minha calma que te vai serenar as noites dos dias agitados e é o teu espírito mais alegre que me irá desafiar a enfrentar a vida com um novo olhar. É destas trocas, destas pequenas diferenças que nos definem, que surgirá a caminhada lado a lado. 

Seja para a convivência no dia a dia, seja para alimentar a chama do casal, dois iguais viram melhores amigos, e dois diferentes viram estranhos. É preciso haver equilíbrio. É preciso que se conheçam, mas que sejam dois seres individuais, que existam para além do outro. É preciso que sejam diferentes, mas não opostos, de modo a que se complementem e interajam de forma saudável. É preciso que haja mistério, que haja segredo, que haja coisas por desvendar, porque são esses ingredientes que vão manter o interesse, o encanto, o desejo, o erotismo. Se tudo for igual, se tudo for conhecido e sabido, não resta nada para explorar, nada para querer conquistar. Por outro lado, com uma dose de individualidade, um certo afastamento e algum suspense, há espaço para se criar, para se imaginar e para se caminhar.  

Afinal de contas, o segredo está no equilíbrio! 

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