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ÂNCORA DE PAPEL

ÂNCORA DE PAPEL

Papéis e papás

António sempre foi o palhacinho da família. Desde pequeno que fazia rir todos à sua volta. Na escola era o mestre das situações inusitadas e das gargalhadas. Cresceu, formou-se e hoje é advogado, profissão que exigiu de António um lado mais sério e concentrado. 

Somos seres humanos, seres inseridos numa sociedade com a qual vivemos. Nela, temos múltiplos papéis, diferentes funções em variadíssimas circunstâncias. Somos filhos, irmãos, colegas, profissionais, amantes, amigos, pais. Cada circunstância, cada momento exige de nós um papel, um determinado comportamento, uma postura que tem de ser adequada àqueles que nos rodeiam. Imaginam o palhacinho do António a contar anedotas numa audiência? Talvez não. Mas não deixa de poder ser uma pessoa extrovertida e que aplica os seus dotes no seio de amigos e da família, certo? Apenas tem de se adequar ao local em que se encontra e ao papel que ocupa. O exemplo deste António é apenas isso, um exemplo para falar de algo bem mais sério. 

Ontem, na TVI, foi transmitida uma reportagem que procurava abordar a questão dos divórcios e da violência doméstica, levantando-se a questão de os filhos serem também vítimas da mesma violência, pelo facto de estarem envolvidos e presenciarem as guerras dos pais. Pois bem, é sobre pais que quero falar. 

Duas pessoas começam uma relação. Neste momento, forma-se um casal. Posteriormente, existe a possibilidade de este casal querer alargar a sua família e querer ter filhos. Quando tal acontece, o casal passa também a desempenhar a função de pais. Aquelas duas pessoas, que inicialmente tinham recebido o papel de serem companheiras uma da outra, agora receberam um novo papel - o de serem responsáveis por alguém.

É comum ouvir-se dizer, sobretudo aquando do nascimento do primeiro filho, que os recém papás não se podem esquecer que também são um casal, devendo olhar por si e pelos momentos a dois, pois é importante conciliar todos os papéis. Até aqui acho que está tudo claro e parece ser fácil distinguir as coisas. Porém, tudo se complica quando um casal com filhos se separa. E complicam-se quando existe a dificuldade em diferenciar tais papéis.

O que ali está a terminar é o tal primeiro papel que aquelas duas pessoas assumiram, o de serem companheiras uma da outra, o de terem uma relação amorosa. O que ali se finda é o projeto de vida conjunta que aquelas duas pessoas decidiram começar. Os filhos, aqueles que foram gerados por dois adultos, são e continuarão a ser isso mesmo, filhos. Da mesma forma, aqueles dois seres adultos que agora romperam com a sua união enquanto casal, continuarão a ser pais, estatuto que lhes foi atribuído a partir do momento em que geraram uma criança. É tudo uma questão de papéis.  

Os filhos não escolheram a sua família nem tão pouco o rumo amoroso da relação dos seus pais. Nasceram e a eles deve apenas incumbir-se a tarefa de serem filhos. Aos pais, cabe-lhes a tarefa de proteger, acarinhar e responder, na medida do possível, a todas as necessidades dos filhos. Por outro lado, e porque são coisas distintas, ao casal que agora se desfez resta-lhes resolver o que a eles diz respeito, enquanto ex-casal. Se há guerras entre A e B, devem ser resolvidas entre A e B, sem envolver os filhos. Se um não paga a pensão de alimentos ou o outro agarrou o seu direito de seguir com a sua vida, constituindo uma nova família, isso não deve ser colocado aos ombros de um filho. Não se têm de fomentar e alimentar jogos de rivais entre pais e filhos. Não é preciso A dar mais do que B; B comprar viagens mais caras do que A; A continuar solteiro(a) para mostrar que só quer amar o(a) filho(a) e não outra pessoa. Não é preciso nada disso. Sendo pais, porque o são até morrerem, têm apenas de cumprir o seu papel, permitindo à sua descendência a existência de dois progenitores, num ambiente harmonioso e de qualidade.

 

Quando termina um casamento, termina uma relação amorosa entre dois adultos, e não a obrigação desses dois adultos cuidarem e protegerem os seus filhos. É tudo uma questão de papéis, queridos papás. 

À procura do amor

Ao contrário de muita gente da minha idade, eu continuo a gostar de ver televisão e televisão portuguesa, na sua maioria. Cresci com ela e habituei-me a ocupar os serões com a sua companhia.

Uma das coisas que me cativa na televisão, à semelhança dos demais meios de comunicação, é o seu poder de entrar pela nossa casa e de nos trazer mensagens, de nos fazer parar para escutar o que nos é dito.

Nunca como agora vi tantos programas de amor, de procura de um(a) parceiro(a), de uma cara metade. Em Portugal, realizado com portugueses, temos  quatro recentes exemplos disso mesmo: Love on Top (TVI, que vai na sua décima edição); Casados à Primeira Vista (SIC, 2018); O Carro do Amor (SIC, 2019) e First Dates (TVI, 2019). À exceção do primeiro, do qual não sou fã devido aos concorrentes escolhidos e à dinâmica que dão ao programa que, a meu ver, nada tem a ver com a procura de uma cara metade e em muito se afasta da dinâmica original do formato, os outros três programas dizem-me muito.

São pessoas, de diferentes idades e com variadíssimos percursos pessoais que querem encontrar alguém especial. É a única coisa que os motiva e afirmam-no sem problemas, que é o que mais admiro. Chegam às cegas, sem ideia alguma daquilo que poderão encontrar, mas com uma certeza: querem gostar, reconhecem que merecem ser gostados e, acima de tudo, estão a entrar num desafio para partilhar momentos de felicidade. Dali em diante vive-se uma aventura. Uns casam, outros fazem uma viagem de carro e há quem se fique por um jantar, mais ou menos animado, mais ou menos demorado. Mas estão ali, a partilhar experiências, a partilhar receios, mágoas e inseguranças, a dividir um espaço e, quando as coisas correm bem, a multiplicar sorrisos.

Paralelamente ao que aquelas duas pessoas estão a viver, em casa, os telespectadores recebem exemplos de coragem, de esperança, de espírito livre, de situações falhadas, de comunicações nem sempre funcionais, de momentos infelizes. Mas tudo é útil, porque todos somos também aquilo que estamos a ver e nem sempre nos conseguimos escutar e observar em relação com alguém. Seja como for, há uma coisa a salientar: o amor tem valor, não tem idade, não se subjuga a ideologias e chega a todas as casas, como algo apetecível e merecido. Há coisa mais bonita do que procurar o amor?

 

Já não se fala de amor

Crescemos com contos de fadas, histórias de príncipes e princesas que tudo fazem para vingar o seu amor, filmes onde as personagens principais se encontram em determinado momento do seu percurso e algo acontece, de forma inesperada, marcando-os e dando um novo rumo às suas vidas. Assim sendo, não é de estranhar que o primeiro impulso quando se fala em amor, sobretudo nos mais novos, seja o de um sinónimo de felicidade, um sentimento de nível superior onde tudo é bom e os problemas não entram. Porém, parece que a noção de amor se tem tornado num bem apenas acessível a gente crescida...

Num congresso a que fui recentemente, uma das palestrantes dizia que os jovens já não falam em amor, que não utilizam a palavra “amor” para se referir aos seus relacionamentos e aos seus sentimentos. Utilizam antes outras expressões, exprimem-se de uma outra forma. Ao ouvir isto, a minha reação foi imediata: ainda bem que não falam em amor, ainda bem que não rotulam as suas experiências com o mais nobre dos sentimentos. Caso contrário, iriam estar a menosprezar algo tão bonito, tão rico e de tanto valor! Mas atenção, eu não estou a dizer que o amor não faz falta e que não se falar de amor é uma conquista há muito desejada. Nada disso! Apenas se despertou algum contentamento por saber que os mais jovens não descrevem as suas relações e experiências como sendo amor. 

O amor não é um patamar que se atinge, mas sim um terreno que precisa de ser nutrido e conquistado, muito além do tempo ou das experiências já vividas. O amor implica lágrimas, cedências, comunicação (ou melhor, metacomunicação, um outro nível de comunicação que tem o poder de fazer a diferença nas relações), esforços, dedicação, atenção.

Amar não é só mandar mensagens com emojis fofinhos e cheios de cor, capazes de fazer sorrir o destinatário. É, antes, mandar essas mesmas mensagens juntamente com outras que cuidem o outro, que demonstrem interesse, preocupação e genuinidade. Amar é ligar para saber como está aquela pessoa especial, como se sente e como foi o seu dia. Mas gestos feitos com coração e com interesse, onde a obrigação não tem lugar. 

Amar não é só estar presente para passear ou para celebrar. O amor está longe de se resumir a momentos maravilhosos e brilhantes, dignos de serem partilhados nas redes sociais, de forma a mostrarmos ao mundo como somos felizes e "sortudos" por ter alguém ao nosso lado. Também é amor quando não há passeios nem festas, e o mais inóspito espaço ou recanto se converte num local aconchegante para um abraço, para um amparo e um desabafo de um dia em que não deveríamos ter saído da cama. 

Amar não é só fazer sexo, mas estar presente mesmo quando o outro não o quer fazer. É amor quando se procura criar espaço para que ambos se exprimam, partilhem o porquê de não querer fazer sexo ou o que querem fazer de diferente.

Amar não é facilitismo. Não ama quem simplesmente fecha a porta ou deixa de responder às mensagens só para não se chatear ou estragar o seu dia, só porque não está para aturar quem está ao nosso lado. Ama quem tem a porta aberta e permanece, mesmo nos nossos piores dias, que se preocupa e demonstra vontade de ajudar, mesmo que não o consiga. Ama quem tem a consciência de que há dias bons e dias menos bons, hoje para um e amanhã para o outro. Somos muito egoístas e paradoxais. Não temos paciência para "aturar as coisas dele/a", mas queremos e achamo-nos donos da razão quando precisamos que ele/a esteja ao nosso lado. 

Amar não é só dar prendas bonitas ou convidar para jantares românticos. Amar são também refeições simples e pequenas demonstrações de carinho, porque mesmo com pouco, aquela pessoa dedicou-se a preparar algo para ti. 

É um legado comum ouvir-se a expressão "não há nada garantido nesta vida". O amor não é exceção. E não é preciso pensar muito para perceber porquê: como é que começou a relação? Não foi com uma sucessão de encontros, de partilhas e de momentos que se foram tornando especiais ao longo do tempo? Então se nasceu assim, morrerá no momento em que isso terminar. 

Por tudo isto, e apesar de ser "um jovem", ainda bem que os meus pares já não falam em amor. Ainda bem que não se aplica um rótulo de tamanha importância a um conjunto de experiências cada vez mais físicas e sexuais, tantas vezes desprovidas de esforço e genuinidade. Vivam o que querem viver, experienciem, troquem de par, "comam-se" como se não houvesse amanhã. Isso ao lado do amor não é nada!

A vida num novelo

Imaginem dois novelos de lã, perfeitamente enrolados. Um deles, pensem-no com cores alegres, cores vivas e que vos transmita coisas positivas. O outro, imaginem-no com tons mais tristes. O primeiro, o das cores garridas e positivas, é o novelo do amor. O outro, carrancudo e cinzentão, é o novelo do medo. Esta analogia surgiu-me depois de me cruzar com uma citação de um livro que dizia algo do género: o ser humano é norteado apenas por dois marcos - o amor e o medo. É cada um deles que norteia a nossa conduta, que nos faz avançar ou ficar paralisados, que nos faz envolver ou afastarmo-nos de determinada tarefa ou acontecimento.

Quando li esta afirmação parei. Quis pensar se realmente poderíamos descrever todo o nosso comportamento de um modo aparentemente tão simples e linear. Ou era uma coisa ou era outra. O que concluí? Que sim, perante qualquer situação ou é o amor ou o medo que nos faz tomar a decisão, e foi aí que surgiram os dois novelos. No entanto, nada existe só porque sim nem é o que é de forma isolada, então "amor" e "medo" são muito mais do que apenas "amor" e "medo". 

Pegando no novelo do amor e começando a desfazer a sua forma esférica encontro alegria, entusiasmo, prazer, excitação, admiração, coragem, esperança, conforto, amizade, superação, motivação. Por outro lado, ao pegar na ponta do novelo do medo, à medida que o vou desenrolando surgem os seus elementos: ansiedade, desânimo, falha, culpa, solidão, desconhecido, arrependimento, inseguranças. 

É assim que nós vivemos, é com base nestes elementos e nas experiências anteriores que avançamos ou ficamos parados, que nos entregamos a algo que nos apaixona, que nos dá motivação e prazer, ou que com medo de falhar, de não ser capaz ou de nos arrependermos, ficamos no mesmo sítio, da mesma forma, sem nenhum acrescento. Então, a vida pode estar num novelo, tudo depende de qual escolhemos e de que elementos queremos fazer a nossa história. 

Amor, uma brincadeira de criança

Hoje venho falar-vos de amor, amor nos tempos modernos. 

Imaginem duas crianças. Uma delas tem um quarto cheio de brinquedos, de todas as cores e feitios, um cenário idílico capaz de abrilhantar o olhar da pequenada. No entanto, esta criança salta de brinquedo em brinquedo, não se satisfazendo com o muito que tem, dizendo que não prestam, que já não gosta de brincar com eles, que não servem para aquilo que gostava de fazer.  Por outro lado, a segunda criança tem apenas um brinquedo, ali no centro do quarto, ladeado por mobílias. Esta está satisfeita, brincando todos os dias com o mesmo, sendo-lhe exigido que se reinvente, que seja criativa, que ora use o alto da sua cama para simular um castelo, onde um guerreiro vai salvar a sua aldeia das tropas que vêm lá longe, como o mesmo boneco serve de professor de artes marciais, naquele tapete vermelho farfalhudo, onde todos os seus alunos o escutam com atenção, lá no fundo da sala. Apenas um boneco, que ora é uma coisa ora é outra; ora tem dias em que serve todo o imaginário daquela pequena criança, ora outros há em que falta ali qualquer coisa, mas brinca e procura fazer diferente.

Agora perguntam-me o que é que isto tem a ver com o amor nos tempos de hoje? Tudo! Uma simples analogia que retrata bem aquilo que somos e aquilo que fazemos com o que temos e com o que sabemos.

Dizem os mais velhos que somos a geração do digital, onde tudo é feito online e sem ele não vivemos. É um facto, não o posso nem o quero negar. Mas neste jogo do online, há coisas que se ganham e outras, tantas outras, que se perdem. Nestas, nas que ficam pelo caminho, fica a noção de amor, de conquista, de entrega, de luta, de paixão, de felicidade, de brilhantismo. Trocamos de parceiro da mesma forma como a primeira criança troca de boneco, não se envolvendo verdadeiramente com nenhum, não se dedicando ao momento, ao seu par, não dando de si nem esperando para receber. Salta, joga fora, deixa esquecido, olha e nada sente. Com bonecos ou com sentimentos, a conduta é sempre a mesma: falta de envolvimento, de entrega, de sentido, de dedicação, de vontade de fazer mais, de fazer e ser diferente. Troca-se em busca de algo melhor, mais fácil, mais imediato, mais e mais e mais, um mais que nunca se concretiza porque nada será suficiente para alguém insatisfeito e que não dá de si. 

Podem dizer que este desapego, esta falta de vivência das emoções é um sinal dos tempos. Não diria que seja um sinal dos tempos, mas antes uma consequência dos tempos. É por haver tanta facilidade que nada se valoriza; é por haver tanto e tanto estímulo que queremos chegar a todo o lado; é por não nos darem amor, que não sabemos reconhecê-lo e vivê-lo; é por sermos tão egoístas na nossa forma de estar e viver a vida, que vamos atrás de uma ilusão de felicidade plena, algo que não acontece por muito que se mude. E porquê? Porque muda o brinquedo mas a criança continua sem saber viver o momento, sem se deixar envolver, sem ser genuína o suficiente para que se entregue e descubra se realmente aquela janela pode ser um local secreto para os espiões, ou se tem luz a mais para tal efeito, aprendendo que da próxima vez tem de agir de forma diferente. 

Porém, tudo isto é simples de ser entendido pela primeira criança, não porque se resigna ao facto de ter só um brinquedo, mas porque vê nele todas as suas potencialidades, mesmo quando lhe falta um braço, perdido numa guerra, ou fica com um pé esborrachado, sendo o paciente ideal para uma operação. Há entrega, há criatividade, há espírito de sacrifício, há imaginação, há entusiasmo. E o amor, simplesmente amor, é isso mesmo: é sacrifício, energia, brilho, lágrimas, excitação, esforço e entusiasmo. É como uma moeda, onde as suas diferentes faces se casam em harmonia para constituir aquele objeto perfeitamente harmonioso, redondo e simétrico. E o amor, seja por quem for ou pelo que for, será sempre assim! Tudo o resto são tentativas frustradas de uma brincadeira que não apaixona, que não envolve, que não prende, que não faz crescer nem sonhar.

 

(doces) Panquecas

Gosto de cozinhar. Para mim cozinhar é um momento de entrega, de criação, de preparação de algo para o outro. Dizem que quando se cozinha com amor sai sempre bem. Partilho dessa ideia. 

Hoje experimentei uma receita nova e resolvi partilhá-la. É uma receita de panquecas, tão simples e tão saborosas. Daqueles pequenos prazeres que nos enche a alma e o coração, que nos faz fechar os olhos e ficar ali, apenas a saborear o momento e a iguaria. De tão boas que eram, resolvi intitulá-las de "(doces) Panquecas":

 

Ingredientes
230 gr de sorrisos
2 colheres (de sopa) de gargalhadas
3 abraços
1 pitada de brincadeira
350 ml de lágrimas (de tanto rir)

Preparação
Num lar aconchegante, coloque todos os ingredientes, mexendo delicadamente até obter laços fortes. De seguida, disponha pequenas porções do preparado anterior num colo previamente aquecido, até ficarem felizes de ambos os lados.

Por fim, sirva num ambiente com luz natural, com a família disposta à volta da mesa. Acompanhe com uma boa conversa e polvilhe com uma dose generosa de carinho. Bom apetite!



Sugestão: ideais para pequenos almoços, lanches ou sobremesas, sempre em boa companhia e com muito amor!

Amor. O verdadeiro amor

Amavam-se. Não havia qualquer dúvida disso.

Para eles o amor era aquilo que tinham: a confiança um no outro, a certeza e segurança de poderem contar um com o outro para tudo, em qualquer momento, para qualquer situação; o abraço dado de forma genuína e intensa, onde o corpo acalmava e uma certeza de dias melhores surgia inesperadamente; os olhares que falavam e sorriam, não sendo preciso nada mais; os beijos que sabiam melhor do que quaisquer outros, assim como as brincadeiras que tinham, tão simples e tão deles; os corpos que se encaixavam e fundiam na perfeição, como se tivessem sido talhados a partir da mesma peça da matéria de que eram feitos.

Era a mesma concepção de amor que os movia, que os fazia querer ir mais longe, acreditando que ao lado um do outro tudo se tornava mais fácil. Sabiam o que queriam e era ao lado um do outro que desejavam alcançar cada objetivo. Tinham tudo isso, mas não era um amor perfeito. Não os há e eles sabiam bem disso. Conheciam os defeitos um do outro, as suas imperfeições e as suas luas, mas isso não esmorecia o que os unia. Aceitavam-se, compreendiam-se e tinham a perfeita noção de que não eram os mesmos sem os seus defeitos.

O amor deles estava num outro nível, sabendo que os príncipes e princesas só existem nos livros infantis. Aceitavam as rabugens da manhã, o cabelo desgrenhado, aquele pijama velho que teimamos em não deitar fora, o mau humor de uma semana frenética e extenuante, as falhas e as teimosias. Sabiam que não há rosas sem espinhos e era assim que eram felizes.

Eram detentores de tudo isto, mas não podiam ficar juntos. Por mais que tentassem, por mais que avaliassem tudo na sua vida, por mais que nada mudasse ao longo dos anos que foram partilhando, não conseguiam ficar juntos. Pela milésima vez decidiram seguir caminhos diferentes, num olhar triste, de alguém que perde tudo o que sempre desejou, de alguém que se separa de algo que nunca mais encontrará, pelo menos de uma forma tão simples, tão magnetizante, tão especial. Com a boca seca, olhar desvanecido e corpo gelado lá o fizeram, como um ritual que se vinha a repetir há já vários anos: adeus...

Tempo de revisão

Quase tudo à nossa volta exige manutenção e dedicação. É por sabermos disso que cada um de nós, dentro daquilo que são as suas rotinas e os seus gostos, presta atenção ao que nos rodeia, independentemente do género, idade, classe social, etnia ou religião.

Proponho um exercício: coloque-se à frente de um espelho e olhe para si. Independentemente do género, idade ou constituição física, procure na sua imagem exemplos de características a que presta atenção regularmente, de modo a cuidar da sua imagem. Dou exemplos: cuida do seu cabelo?; presta atenção à imagem das suas mãos?; costuma fazer a depilação?; costuma estar atento às tendências da moda? adequa a sua roupa à ocasião e à estação do ano?; tem atenção à alimentação para manter a sua imagem corporal ou para alcançar uma melhor condição física?.

Estes são apenas alguns exemplos. Olhe para si e procure todos aqueles a que presta atenção e tende a cuidar regularmente.

Agora apresento uma outra variante deste exercício: olhe à sua volta e pense em tudo aquilo que requer manutenção, um olhar atento para que haja um normal e adequado funcionamento. Clarifico mais uma vez: costuma levar o carro à revisão?; costuma colocar aquela pastilha/gel anticalcário na máquina de lavar louça ou da roupa?; trocar as pilhas dos comandos lá em casa é um hábito?; costuma comprar produtos de higiene/cuidado pessoal atempadamente?.

Aqui estão outros exemplos rotineiros que podem ou não fazer parte do seu dia a dia, feitos só por si, pela sua cara metade, no caso de viver com um(a) companheiro(a), ou conforme aquilo que foi estipulado entre ambos.

Os exemplos que dei são exemplos isentos de estereótipos ou diferenças de género. Qualquer pessoa pode prestar atenção a estes aspetos.

Agora que já clarifiquei a minha ideia inicial, de que vivemos num mundo que exige a nossa atenção e dedicação, reflita sobre isto: costuma cuidar da sua relação? Nutrir aquilo que nasceu no dia em que perguntou "Queres namorar comigo?" ou que respondeu “Sim, eu aceito namorar contigo!” faz parte das tarefas que ambos colocam nos vossos lembretes?

Como alguém conhecido me dizia, "Uma relação precisa de combustível para andar". Pense nisso.

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