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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

À distância de um toque

04.02.19, Miguel Oliveira

É incrível quando encontramos espelhado num livro algo em que acreditamos e da forma como pensamos, certo? Isto ganha ainda mais força e interesse quando as palavras são proferidas por alguém a quem atribuímos valor e conhecimento. Foi o que me aconteceu ao ler um capítulo sobre sexualidade no casamento, de um conceituado Professor. 

A comunicação é algo inerente a nós, é o nosso veículo, a nossa forma de transmitirmos mensagens. Porém, na maior parte das vezes, usamos os conceitos "a torto e a direito", sem sabermos como realmente se definem e ao que dizem respeito. Acredito que é o que acontece quando falamos (e pensamos) em sexualidade. Por isso mesmo, e à semelhança do autor, trago a definição de sexualidade da Organização Mundial de Saúde - "a sexualidade é uma energia que nos motiva para encontrar amor, contacto, ternura e intimidade; ela integra-se no modo como sentimos, movemos, tocamos e somos tocados, é ser-se sensual e ao mesmo tempo ser-se sexual. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações e, por isso, influencia também a nossa saúde física e mental.". Considero que este post já seria útil só com esta definição, mas vou tecer alguns comentários. 

Quando falamos em sexualidade, independentemente das faixas etárias em causa, o nosso pensamento direciona-se para o coito ou para as nossas posições sexuais preferidas. Isto acontece porque resumimos a sexualidade à penetração e à interação entre os órgãos genitais. Perante tal situação, como afirma o Professor, é natural a existência de um foco no desempenho sexual.

Vejamos um exemplo do que poderia ser uma fofoca entre amigas: "Como correu ontem à noite? O sexo foi bom? Ele é bom na cama?". São perguntas simples, sem maldade aparente, mas que espelham a forma como encaramos este tema e como são proliferadas algumas ideias. O foco é quase sempre colocado no desempenho, na obtenção de prazer pela penetração e pela duração do ato sexual, o que reforça os papéis de género nas relações heterossexuais, em que é colocada no homem a obrigação de satisfazer a parceira, como se o seu pénis fosse a varinha mágica de um bom envolvimento. Privilegia-se, assim, o desempenho em detrimento do momento. É-se muito sexual e pouco sensual. Procuramos ser muito físicos, mas recorremos muito pouco a tudo aquilo que dois corpos podem oferecer para um momento prolongado, intenso e prazeroso, o que é possível de acontecer mesmo sem penetração. 

Estes aspetos ganham ainda mais importância numa relação de longa duração, como nos casamentos, onde a rotina tende a ganhar poder e o envolvimento íntimo fica comprometido. 

A vida adulta é complicada, traz muitas obrigações e exige demasiado de cada um. Numa casa, onde dois adultos são simultaneamente pessoas, cônjuges, profissionais e pais, tudo ganha outros contornos. Por este motivo, o Professor afirma que "o sexo no casamento não é química inesperada, mas intenção valorizada pela imaginação". É preciso criatividade, mistério, sedução e surpresa. É preciso entrega e investimento para criar momentos que as circunstâncias nem sempre deixam que sejam espontâneos. 

Nas relações mais longas é natural que o casal se conheça bem, que saibam muito um do outro, podendo pensar-se que não existe espaço para que nada novo surja, que o outro já não consegue surpreender. Ora, é mesmo aí que se deve intervir - "para levar o desejo para dentro de casa precisamos de repor a distância que tão arduamente nos empenhamos em anular". O tempo passa e as pessoas vão partilhando muito. Tudo é familiar e conhecido. É preciso recuar um pouco, ganhar espaço individual e dar largas à imaginação. Ambos precisam de redescobrir o seu corpo e o(a) do(a) parceiro(a), redescobrir sensações e fantasias. É preciso brincar, erotizar os momentos e despertar novas vontades. É preciso beijar, tocar, sentir e imaginar. Afinal de contas, tudo pode estar à distância de um toque. 

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