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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

A partida

11.05.19, Miguel Oliveira

Não lhes conheço a história. Não sei qual o motivo da viagem nem da despedida. Na verdade, não sei nada sobre eles. São dois estranhos, avistados do banco do autocarro em que estou sentado.

Eles, encostados ao corrimão, esperam a sua vez. Estão serenos, de mãos dadas, frente a frente. Sorriem e olham-se intensamente. É ela quem vai de viagem. O autocarro chegou e os dois despedem-se. De corpos juntos, olham-se e trocam carícias no rosto. Voltam a sorrir. Assim que a porta do autocarro se abre, beijam-se de forma apaixonada. Antes da despedida, mais um sorriso e um deslizar de mão suave no rosto. Mimam-se como dois amantes. Olham-se como dois bons amigos. 

Não sei nada deles, mas sei que se gostam, que se cuidam e que se querem bem. Enquanto observador, posso hipotetizar mil e um cenários na minha cabeça. Seja qual for a teoria que lance para aquela partida, a verdade estará nos sorrisos que trocaram, nos beijos que deram e, acima de tudo, nos olhares que partilharam. Longe ou perto, acredito que estejam próximos um do outro, talvez mais próximos do que quando estamos deitados na mesma cama com alguém. 

Não senti tristeza naqueles minutos. Estavam a desejar o melhor para cada um, ainda que estivessem em silêncio. Talvez seja esta a língua do amor, uma língua de afetos, de toque, de olhares, em que se transmite uma mensagem sem se falar, em que se deseja o bem ao outro, de forma genuína, num sorriso e num beijo que soam a "Vai miúda! Conta comigo que estou sempre contigo!". 

Ela partiu, não sei por quanto tempo, mas nenhum deles ficou sozinho.