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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Acariciar fragilidades

23.06.19, Miguel Oliveira

Medo

Gosto de entrevistas. E este gosto está assente na possibilidade de ouvir histórias, de conhecer pessoas, formas de estar na vida, formas de enfrentar situações. No fundo, e aplicando um conceito teórico da minha área de formação, gosto de entrevistas pela possibilidade de receber visões múltiplas sobre as situações que são comuns, em algum momento da vida, a cada um de nós. 

Numa dessas entrevistas ouvi uma frase que me fez muito sentido e que, desde então, não me saiu mais da cabeça: “nós acarinhamos muito os nossos medos, as nossas limitações”. 

Pense num medo seu. Aquele mais fundamentado ou até no mais estúpido ou sem nexo. Seja qual for o seu medo, pense nas vezes em que quase o protegeu, usando-o como escudo para não fazer determinada tarefa. Quando faço esse exercício, só me ocorre uma imagem: ter um Nenuco nos braços, pequenino e aprumado, de olhos abertos para mim, enquanto o embalo e lhe faço festinhas. Nele está o meu medo, aquele que eu cuido delicadamente, aquele que eu mostro a todos, como quem mostra um bebé, sempre que alguma situação me é impossibilitada pela sua existência. 

Resultado desta interação com o meu Nenuno? Fico paralisado. Fico no mesmo sítio, no mesmo estado. Nada de diferente acontece. Nada se acrescenta. Fico inerte. E é aí que reside o problema. 

Num determinado dia, o medo surgiu. E desde aí, demos-lhe um lugar privilegiado na nossa vida. Demos-lhe o melhor quarto que existe no nosso arrumo superior. Ele ficou lá desde então. Mas chegou a hora de o expulsar. Precisamos de deixar de proteger o bebé e soltá-lo, livre, como quem permite a um bebé gatinhar na terra. Ele não morrerá por isso. No fundo, e como diz Osho, o conselho é simples: "Mergulhe no seu medo. Entre nele silenciosamente, para poder conhecer a sua profundidade. Às vezes descobrimos que não é muito profundo.", porque o "medo é feito de desconhecimento do nosso próprio ser." (Medo: compreender e aceitar as inseguranças da vida, 2010).

O medo só existe na nossa cabeça e somos nós quem o alimenta. Somos nós quem o faz crescer saudável, dentro de nós, com todos os nutrientes que lhe damos cada vez que aceitamos conviver com ele. No fundo, o medo é como um telemóvel quando está a carregar: quanto menos lhe mexermos (isto é, quanto menos fizermos para contrariar a sua existência), mais bateria ele recebe. Precisamos de nos soltar dos nossos medos. Sim, porque todos temos medos! Uns há mais tempo do que outros. Uns numas áreas e outros noutras. Mas ninguém é "inferior" ou "fraco" só por ter medo. Porém, precisamos de usar o que temos a nossa favor - o poder. O poder de fazer diferente, de olhar para a pessoa que seríamos sem o medo e ver o que podemos aplicar hoje, quando estivermos com medo. E isso porque, como ouvi há dias num filme de animação, "a única forma de enfrentarmos o medo é agirmos como se não tivéssemos medo." (A vida secreta dos nossos bichos 2, 2019).

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