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ÂNCORA DE PAPEL

ÂNCORA DE PAPEL

Amar alguém é um show de strip

Quando conhecemos alguém, conhecemos uma pessoa totalmente vestida, tão protegida e agasalhada como os adeptos dos desportos de inverno. São casacos, luvas, gorros, óculos, meias grossas, botas e muita roupa. Chegam até nós com estas camadas e com a sua bagagem. 

Com o passar do tempo, a confiança vai-se instalando. Começam por pousar a mochila, carregada de recursos e memórias. Num ambiente mais acolhedor, cedem-nos o casaco, as luvas, o gorro e as botas. Vamo-nos sentindo mais confortáveis na presença um do outro, com um comportamento cada vez mais natural, mais genuíno. Os dias vão passando e vamos partilhando histórias. Contam-se as viagens, as aventuras e os desportos realizados. Partilham-se as fotografias, as peripécias e os sustos. A pouco e pouco, os encontros acontecem naturalmente, desprovidos de um qualquer motivo para se realizarem. Nesta altura, já apenas resta o fato de treino quente que protegia o corpo das baixas temperaturas. As peças de roupa vão saindo à mesma velocidade com que o dia a dia vai sendo partilhado, apoiado por olhares trocados e gargalhadas oferecidas. Da mesma forma como cedemos a nossa casa para pousar o equipamento de inverno, recebemos agora olhares, sorrisos e carícias. Faz parte. É destas trocas que é feito o amor. 

Sem darmos conta, aqueles que eram dois estranhos a conviverem, são agora dois amantes que partilham o mesmo espaço. Onde havia apenas lugar a sonhos e aventuras individuais, juntam-se agora os planos em conjunto. As escovas de dentes estão no mesmo copo, da mesma forma como aquela cama de casal é agora partilhada por dois seres. Já há algum tempo que as camadas de roupa quente ficaram arrumadas. Hoje apresentamo-nos com menos roupa: de manhã com roupa casual e, ao fim do dia, com aquele pijama confortável. Ainda assim, não é tudo dado. Mesmo nos momentos mais íntimos, a roupa íntima de ambos esconde alguma coisa. E não há problema algum nisso. Aumenta o desejo, o mistério e a criatividade.

São dois seres que estão juntos, é certo, mas continua a haver individualidade. A relação que entretanto se estabeleceu é como um show de strip: aos poucos, acompanhando as batidas da música, os olhares cruzam-se cada vez mais, os toques na pele um do outro vão sendo menos fugazes, a roupa que preenchia o corpo vai ficando espalhada pelo chão, mas ainda assim, ninguém fica totalmente nu. Há algo que continua a proteger o dançarino; existe alguma coisa a que o outro não tem acesso. É assim o amor. Feito de trocas, de músicas e bagagens de parte a parte. Vai-se dando e recebendo, mas nunca ficamos totalmente despidos para o outro. E ainda bem! 

2 comentários

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    Miguel Oliveira 22.05.2019

    Muito obrigado pelo comentário!
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