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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Amizade vs. Relação Amorosa

24.08.18, Miguel Oliveira

À semelhança do que acontece com todos os outros conceitos, para todas as outras situações no nosso dia a dia, também a noção de amizade varia de pessoa para pessoa. Acredito que não pensemos muito nisto, mas cada um de nós tem as suas próprias definições para os mais variados termos, que podem divergir mais ou menos das definições daqueles que nos rodeiam. 

Para mim, amizade é uma relação entre duas pessoas que se querem bem, entre dois seres que se sentem apoiados e escutados nos seus problemas e nas suas conquistas, nos seus sonhos e nos seus receios. É olhar à volta e saber que está ali aquela pessoa, a quem podemos recorrer num momento de festejo ou num momento de aflição, da mesma forma despretensiosa e sincera. É uma relação de carinho, de transparência, de preocupação e companheirismo. 

Esta é a minha noção de amizade, tão válida quanto outra qualquer, independentemente de eu (ou qualquer outra pessoa) me rever ou concordar com ela. Mas tenho uma dúvida: porque é que é tão difícil aceitar amizades quando se está numa relação amorosa? Ou melhor, porque é que fazer uma nova amizade, com alguém do mesmo sexo ou do sexo oposto, consoante as orientações sexuais (porque é aqui que tendem a surgir problemas), tende a gerar ciúme num dos elementos do casal? É com esta ideia com que fico, tanto pelo que vejo como pela minha própria experiência. Mas o que leva a que um tipo de relação interfira ou se incompatibilize com o outro tipo de relação? Acho que esses atritos se devem a três fatores: envolvimento, sexualidade e capacidade de comunicação. 

Novamente me socorro das minhas noções de envolvimento, amizade e relação amorosa, mas acredito que o envolvimento nas relações atuais, sejam elas de que natureza forem, tem vindo a diminuir. Não nos envolvemos (ou não nos deixam envolver) numa relação que se está a construir. O que se quer hoje em dia é conhecer muita gente, gente diferente, cheia de experiências, viver muito e sentir pouco. Instaurou-se a sobrevalorização da quantidade em detrimento da qualidade. Vive-se, como ouvi numa entrevista recente, numa época de amizades pop-up ou amizades-cogumelo, que brotam em todo o lado. O facto de não nos envolvermos e alicerçarmos uma relação amorosa leva a que uma relação de amizade seja uma ameaça, surgindo frases do género "Sim, são amigos. Lembra-te que antes também éramos só amigos...". 

Por outro lado, somos cada vez mais sexuais. A noção de intimidade e partilha sexual tem vindo a ser subvalorizada. Muitas são as relações que, antes de o serem, começam com envolvimento sexual. É quase o primeiro encontro, o primeiro "café" que se toma para se conhecer um pouco melhor a pessoa. Porém, começa-se a conhecer a pessoa da forma mais natural que pode existir: nua. É em função deste envolvimento e da química existente que os dois (ou uma das partes) decidem passar ao próximo passo: falar e conhecerem-se verdadeiramente. Passamos a conhecer, literalmente, a pessoa de dentro para fora (lá está, mais uma vez as noções "dentro" e "fora" podem ser discutidas...). Acredito que se o ato sexual não fosse tão subvalorizado, se não se fosse para a cama como se dá um aperto de mão ou um abraço, tais conflitos poderiam ter outros contornos, entendendo-se aquela nova pessoa como alguém que pode ser interessante, que pode ter coisas para partilhar e nos acrescentar, e não como mais um alvo para se "comer". 

Por fim, mas não menos importante, surge a necessidade de comunicação entre um casal. Podemos passar o dia a trocar mensagens, partilhar sonhos, viagens e planos futuros, mas se não falarmos sobre noções como "confiança", "traição" e "ciúme", por exemplo, não vamos conhecer quem está ao nosso lado, o que o(a) magoa, quais os seus limites e, consequentemente, os limites da própria relação, aquilo que "ela" aceita e entende como "normal". É necessário que conheçamos o manual de instruções da relação: as regras de utilização, as advertências de uso e as formas de resolução de problemas. Só com este manual na ponta da língua é que nos podemos mover livremente, sem correr o risco de mandar a relação para a garantia, por uso indevido.