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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Amor sem compromisso

10.01.19, Miguel Oliveira

"Procuro diversão sem compromisso" foi a primeira mensagem que Martin enviou a Gabi, depois de a aplicação de encontros ter feito match entre os dois. É mais ou menos desta forma que começa o filme que vi ontem (Newness). Pouco tempo depois, num bar, Martin diz sentir-se "um dildo agarrado a um corpo quente", quando os dois falavam da utilização de aplicações para encontros. 

Chamam-lhe amor, mas dos tempos modernos. É o tempo das relações abertas, das relações que não têm nome, das relações sem compromisso (se é que é possível existir uma relação sem compromisso entre duas pessoas). É o tempo de relações sem tempo, porque não se espera, porque não se dedica tempo a ninguém. Tudo é cada vez mais descartável e apressado. A visibilidade é muita e a oferta ainda maior. A facilidade de chegar até alguém e de ter aquilo que de mais íntimo poderíamos ter com essa pessoa, faz com que haja uma necessidade constante de êxtase, de estímulos cada vez mais intensos, de novos corpos, novas experiências e aventuras. O sexo é sobrevalorizado e a intimidade desvalorizada. 

Num livro sobre relações e sexualidade, a autora diz que vivemos numa época em que encontrar um(a) parceiro(a) é como ir ao supermercado: pegamos no telemóvel, vamos lendo a descrição das pessoas (entenda-se "perfil") como quem lê rótulos de produtos e trazemos para casa o que tiver melhor aspeto. Não podia estar mais de acordo, ao mesmo tempo que a minha inquietação não podia ser maior.

Porém, não consigo prosseguir este tema sem fazer dois comentários prévios, de forma a não ser mal interpretado. 

Em primeiro, o sexo é uma necessidade fisiológica e, como todas as outras, deve ser satisfeito para o nosso bem estar. Reconheço o facto, concordo com ele e gosto de sexo, afirmando isto de forma a deixar claro que é algo importante e que não devemos ser fundamentalistas ao ponto de crucificar alguém só por querer ter sexo com outra pessoa. Há momentos para tudo. Conexões, ligações e sentimentos à parte, podemos ter apenas sexo, como um apelo do nosso corpo, do nosso desejo e de uma necessidade ardente que precisa de ser satisfeita. Já o fiz, sem peso na consciência, e com a mesma naturalidade com que como ou bebo água, dado que se trata do mesmo tipo de necessidades. 

No entanto, e este é o segundo comentário, tenho alguma dificuldade em compreender a procura de uma suposta relação assente nestes moldes. E mesmo que não se queira uma relação, porque a nossa vida é feita de fases e há alturas em que não queremos e/ou não estamos preparados para ter alguém ao nosso lado, o que é que se ganha com uma coleção de fodas com estranhos? Peço desculpa pelo termo, mas é exatamente por considerá-lo grosseiro que o coloco aqui.

Um amigo meu, utilizador das ditas aplicações, disse-me que a maioria das vezes que as usa é por mera carência. Apesar de querer mais para a sua vida, aqueles momentos de sedução e excitação são reconfortantes, sendo os poucos momentos em que se sente vivo, desejado e alvo de interesse por parte de alguém. Então falamos de carências? De falta de autoestima? De uma vida tão vazia que precisamos de sexo para nos sentirmos bem connosco, ainda que por meros momentos? Isto é um assunto complexo, há muita coisa envolvida e é difícil falar dele em moldes lineares, mas são estas as leituras que me ocorrem.

Reconheço que, por um mero acaso, podemos cruzar-nos com "o amor da nossa vida" numa dessas aplicações da mesma forma como o poderíamos encontrar na correria do dia a dia, num encontrão ou numa ida ao supermercado. Mas quer-me parecer que as probabilidades de isso acontecer são escassas.

Esclarecidos os pontos prévios, este tema suscita em mim muitas dúvidas. Fico sempre a pensar como é que chegamos ao ponto de recorrer a aplicações móveis para encontrar pessoas, escolhendo a que queremos da mesma forma como quem escolhe roupa num catálogo? Como é que desvalorizamos tanto o poder e importância de uma relação? Como é que podemos reduzir a nossa vida íntima a um conjunto de momentos soltos, como uma manta de retalhos? Como é que nos anulamos, em certa medida, para ir para a cama com alguém e, depois disso, se tal se proporcionar, é que vamos conhecer a pessoa de quem já conhecemos o corpo? 

Estes meus comentários não se prendem com uma posição a favor ou contra à utilização das aplicações. Admito que, se assim o quisermos, utilizar um Tinder ou um Grindr, por exemplo, pode ser semelhante a utilizar um Facebook ou Instragram na medida em que escolhemos o que queremos fazer com uma determinada pessoa. Contudo, o que me inquieta é o rumo que as coisas levam. É o facto de alimentarmos e passarmos a ideia de que as relações são fáceis, de que basta um click para não estarmos sozinhos. É o facto de nos desvalorizarmos, de nos termos em tão pouca consideração e de nos reduzirmos a "um dildo agarrado a um corpo quente". É o facto desta aparente facilidade não nos mostrar o que realmente importa, de não nos ensinar o que as relações têm para nos ensinar, sobretudo quando falham.

Sou alguém que gosta de gostar e de ser gostado, que reconhece nas relações muitos pontos positivos, mesmo que para os ter seja preciso enfrentar alguns dias cinzentos. Sou alguém que acredita no amor, que vê nele a possibilidade de crescer, de estar bem e de contribuir para o bem estar de outra pessoa, onde juntos as coisas são ainda melhores e com mais significado. Mas voltemos ao filme.

A certa altura os protagonistas estão num lançamento de um livro e a autora, que fala de amor nos tempos modernos, diz que as relações atuais enfrentam novas exigências. Por um lado, os casais veem no outro elemento a segurança e a estabilidade de se saber ter alguém, ao mesmo tempo em que é exigida a liberdade de cada um para a sua realização pessoal, mesmo a nível sexual. Entendo, em certa medida, este ponto. Nunca como agora se falou tão abertamente de sexo, de fetiches e de experiências sexuais, aceites socialmente com maior naturalidade. Por isso, é compreensível que queiramos explorar o mundo erótico, que tanto tem para oferecer. Porém, e muito honestamente, estas "relações modernas" fazem-me lembrar apólices de seguros. Subscrevemos o seguro, temos os papéis assinados em casa mas raramente nos lembramos deles. Um dia, por acidente ou necessidade, damos-lhe valor e exigimos a sua aplicação imediata.

Custa-me, admito que me custa. Custa-me por tudo o que já disse e custa-me porque estou solteiro, numa sociedade onde muitos são os que querem estar solteiros para viver muito, que é o mesmo que dizer, foder muito. Por mim, na minha inocência ou estupidez, prefiro não ter sexo e sentir-me bem comigo, sentir que me respeito a mim e aos meus ideais, em vez de andar iludido, num mundo de aparências e de fast food

 

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