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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Ao comando do corpo

08.10.18, Miguel Oliveira

Era a primeira vez que se viam, apesar de já há muito se conhecerem. Era uma manhã de nevoeiro, gélida e cinzenta.

Rui era alto, cuidado com a imagem e confiante, bastante confiante. Filipe era tímido, encorpado e ligeiramente mais baixo. Viram-se ao longe, no meio da multidão que enchia a estação de comboios. Os olhares fitaram-nos e algo os aproximou, quase telecomandados. Era a primeira vez que se olhavam, que se cheiravam, que se sentiam como realmente se deve sentir alguém: ao vivo. 

- Olá! - disse Filipe, com um sorriso tímido e um pouco nervoso;

- Olá pequenino - respondeu Rui, lá do alto da sua estatura e seguro de si, puxando Filipe para junto do seu corpo, envolvendo-o nos seus braços longos e fortes.

Precisaram apenas daquilo, de um simples toque para que algo acontecesse, de forma natural e automática. O cheiro de um envolvia o outro, as pessoas à volta ficaram como personagens de um filme mudo, criando uma cena onde só eles os dois interessavam. Estavam ali os dois, debaixo daquele amanhecer gelado, nos braços um do outro, onde o olhar falava e o corpo pedia que se libertassem de toda a roupa que tinham. Diz quem percebe do assunto que a atração física mais não é do que um conjunto de alterações hormonais e moleculares, despoletadas pelo fluxo de informação entre dois neurónios, o que origina um aumento de dopamina, uma substância estimulante do sistema nervoso. Porém, eles não detinham tais conhecimentos. Sabiam apenas que algo os atraía, que fazia acender uma chama intensa que desejavam apagar a todo o custo.

Como combinado, iam passar a manhã a casa de Rui. Não falaram muito durante aquela hora de metro, até casa. Apenas se olhavam. Olhavam-se de alto a baixo, absorvendo cada pormenor, cada traço, cada curva, cada desenho do corpo um do outro. Olhavam-se e gostavam do que viam. Os olhares abertos e os lábios mordidos refletiam toda a incrível magia que acontecia dentro deles. Contorciam-se para não saltarem para o colo um do outro, da mesma forma como é difícil evitar que dois ímanes de lados opostos se atraiam. Tocavam-se discretamente, de quando em vez, nas mãos um do outro. Os dedos de Filipe passavam delicadamente nas mãos de Rui, percorrendo os seus dedos grossos e as veias salientes que marcavam aquelas mãos quentes. Calaram as bocas e foi com o corpo e o olhar que falaram durante todo aquele encontro.

Uma hora depois lá estavam, em casa de Rui. Não houve espaço nem tempo para apresentações. Não era isso que precisavam naquele momento. Os corpos e os corações acelerados pediam apenas uma parede, uma parede onde se pudessem encostar e entregar um ao outro. Bastou um instante. Apenas um abrir e fechar de olhos para que Rui segurasse em Filipe ao colo e o beijasse intensamente. As bocas falavam a mesma língua, a do desejo, a do prazer carnal, da entrega a um momento de puro prazer. Olhavam-se intensamente e beijavam-se como se não houvesse amanhã, como se existisse todo um mundo que precisasse de ser libertado daqueles dois corpos que agora ganhavam as marcas das mãos um do outro. Entre beijos, suspiros e arrepios, Rui e Filipe encontravam-se um ao outro, agora nus, numa atmosfera que lhes era familiar: a do toque. Nada mais adoravam do que a sensação de estarem nus com alguém, de sentir corpo com corpo, pele com pele, envolvidos num ambiente ardente e ofegante.

Depois daquela viagem de metro, onde cada traço dos corpos havia sido imaginado, era agora tempo de o contemplar, ali, frente a frente, despido e iluminado por aquele sol de inverno que começava a raiar na janela. À vez, percorreram o corpo um do outro, de olhos fechados, dando vida ao melhor adereço que podiam pedir: as suas mãos. Eram dez dedos; dez delicados dedos que percorriam um corpo bem delineado, que estremecia quando a boca dava sinal de si e beijava cada recanto. Nada era previsível. Ora se perdiam na carícia e na descoberta um do outro, ora se entregavam à voz que lhes pedia mais e mais, agarrando, mordendo e beijando como se aquele fosse o último instante das suas vidas.

Depois de os corpos se tratarem por tu, agora marcados pelo desejo que os unia, seguiram enternecidos para a cama. Deitaram-se suavemente, ainda abraçados, arrepiando-se com a frieza da roupa que os esperava. Voltaram a olhar-se. Olharam e sorriram, meios desconcertados com tudo aquilo que estava a acontecer, mas confiantes que nada mais certo podiam estar a viver. Não eram eles que comandavam tudo aquilo, mas sim ambos os corpos que falavam e se aproximavam magneticamente, com uma força tão visceral que era impossível conter ou controlar.

Beijaram-se delicadamente, sentido cada centímetro dos lábios carnudos um do outro, enquanto os corpos se entrelaçavam entre si. Pouco depois, continuando sem ser necessário falar, perceberam que era o momento de se fundirem, entregando-se por completo um ao outro. Num gesto rápido, Filipe colocou-se de barriga para baixo, pernas afastadas e Rui assumiu o seu papel. Segurando firmemente o corpo que estava diante de si, Filipe respondeu ao pedido que lhe havia sido feito. Segundos depois, eram um só. Um só corpo em movimento, um só pedaço de carne que ganhava vida e se entregava ao desejo e ao calor do momento. O sol continuava a entrar pela pequena janela ao canto. Ao seu lado, dois seres viviam intensamente um momento único, inexplicável, mas desejado, muito desejado! Estavam ali, suados, marcados, envolvidos num jogo sem regras, onde apenas a vontade dos corpos importava. Durante aqueles longos minutos, nunca se falaram. Apenas se entregaram ao desejo, olhando-se intensamente. Sabiam bem o que fazer para encher o outro de prazer. Sabiam bem como dar uso a tudo o que tinham naquele momento: dois corpos sedentos de paixão e de fervor. O corpo humano consegue ser um lugar muito rico, se bem explorado e aproveitado, e isso eles sabiam! Não entendiam como se conseguiam satisfazer tão bem, apenas se olhando, mas sabiam que não podiam pedir nada mais. Continuaram, até o desejo atingir o seu ponto alto e culminar na maior libertação que aquele momento podia pedir.

Vivido aquele tempo de puro desejo, Filipe pediu para que Rui o guiasse até à casa de banho. Lá, e já seguro e confortável com toda aquela magia, Filipe encheu a banheira, pedindo a Rui para que entrasse e se deitasse confortável. Depois de cheia, foi a vez de Filipe entrar. Mais uma vez, um novo gesto que se assumiu de forma natural foi ao encontro dos desejos um do outro.

Já deitados, num banho de espuma reconfortante e igualmente envolvidos no corpo um do outro, beijaram-se e ali ficaram, entre sorrisos e carícias, num corpo até então desconhecido e agora tão familiar. Os corações, antes acelerados e ávidos de um momento intenso, estavam agora tranquilos. As mãos, esses grandes adereços daquela manhã, percorriam agora os braços um do outro, cheios de espuma e levemente perfumados. Estavam como sempre quiseram estar, da forma mais natural que dois amantes podem assumir: nus e entregues um ao outro, onde bocas não falam e corpos não se calam.

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