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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Banho de realidade

03.09.18, Miguel Oliveira

Vivemos numa época em que a evolução é rápida, a mudança é permanente e instantânea e somos obrigados a seguir todo o fernezim, todos os jogos, todos os desafios online e tudo aquilo que as mentes brilhantes se lembram de inventar. É um jogo de sim ou não, cuja resposta define se estamos ou não incluídos na sociedade, se somos ou não interessantes. É um jogo em espiral, uma espiral de modas e ilusões sem fim, que nos engole por inteiro. Fora desta espiral ficam a individualidade, o sentido crítico e a realidade. Vivemos a nossa realidade com base num fragmento da realidade dos outros e, muitas vezes, sem darmos conta que isso acontece.

Pense comigo: lembra-se quando íamos aos casamentos e tirávamos fotografias ora à saída da igreja, ora na quinta do copo de água, ora nos momentos de pausa, muito divertidos e de estômago aconchegado? De volta e meia lá vinha o fotógrafo de máquina em punho, pronto a disparar mais umas dezenas de flashes no meio dos convidados. Horas depois, ao fim do dia, surgia de novo, mas com aqueles painéis repletos de fotografias, prontas a serem escolhidas para serem reveladas (peço desculpa se esta é uma visão retrógrada dos casamentos, mas já não vou a nenhum há muito tempo e a última vez que fui era assim). A questão é: que fotografias escolhíamos? Por que razão teríamos de escolher duas ou três fotografias e não eram reveladas todas aquelas em que estávamos presentes? Em todas elas estávamos nós, com tudo aquilo que somos, de bom e menos bom. Então por que razão existia uma seleção? A resposta mais óbvia deve ser por questões financeiras, que os fotógrafos trabalham bem mas também são bem pagos. Por outro lado, selecionávamos as fotografias porque apenas queríamos aquela(s) que mais gostávamos, onde estávamos mais aprumados, com um melhor sorriso e o cabelo no lugar. Queríamos a melhor das melhores, que retratasse de forma fiel aquele dia de festa, aquele momento especial. Porém, outras questões me surgem: aquele pedacinho de papel brilhante era o retrato da nossa realidade? A pessoa aprumada da fotografia, agora guardada no álbum de família, era a mesma do dia a dia? Em casos muito pontuais diria que sim, que há pessoas na faculdade, por exemplo, da mesma forma como vão a um casamento, mas de resto a resposta é não! Aquela fotografia retrata um momento; simboliza um acontecimento que há de ficar datado e guardado. É o resultado de uma seleção feita de dezenas de momentos de um dia inteiro de festa.

Até aqui acho que não disse nenhuma barbaridade e com arestas mais ou menos limadas, todos se hão de identificar com esta minha descrição. Mas então, se é claro que aquelas fotografias são meros momentos, que vimos e aceitamos com grande naturalidade, porque nos deixamos iludir (e deprimir) com aquilo que chega aos nossos olhos quando entramos nas redes sociais? Não será aquele quadradinho bonito o resultado de uma edição atenta, da aplicação de um ou outro filtro, de uma seleção entre duas ou três (ou até mais) fotografias? A pessoa que colocou aquela paisagem bonita e paradisíaca não está ali toda a sua vida. Sabe Deus, passo a expressão, o que trabalhou e o que teve de abdicar para estar ali. Aquele corpo bonito, atraente e delineado não surgiu do dia para a noite. É o resultado de meses de treino e de uma alimentação mais ou menos cuidada, já para não falar das edições, das poses, dos jogos de luz e da forma certa de colocar a roupa para que se acentuem as formas do corpo. Aquela casa linda, toda arrumada e brilhante só está assim quando é acabada de limpar e de ser arrumada. Experimente olhar para a sua, com pessoas de um lado para o outro, e pense quantos minutos seriam necessários para que aquela imagem idílica se desvanecesse... 

Tal como acontece (ou acontecia) nos casamentos, aquilo que recebemos ao abrir uma aplicação é um momento, o retrato fiel de uma seleção, de um conjunto de escolhas em prol da melhor versão de si ou da sua vida. Só muito pontualmente encontramos alguém carregado de olheiras, a salientar a sua gordura e celulite, a mostrar a quantidade de compras de mercearia que tem para arrumar ou a mostrar o seu quarto desarrumado, pouco iluminado e com a vista para os portões ferrugentos das garagens. Se pensarmos no próprio jogo que fazemos quando publicamos alguma coisa, na seleção que fazemos daquilo que mostramos ao mundo, com mais ou menos edição, com mais ou menos critérios de seleção, não nos deixamos levar tão levemente por uma espiral de ilusões, de mundos glamorosos e vidas fantásticas, onde a nossa fica encostada às boxes, à espera que aconteça um milagre e a nossa triste realidade seja reparada.  

Vamos levantar o cu do sofá e lutarmos por nós, pela melhor versão de nós mesmos, vivendo a realidade tal como ela é, a nossa e a de todos os que nos rodeiam, que todos somos humanos - com dias bons e dias maus, com todos os nossos defeitos e imperfeições. Se sonhar com alguma coisa, sonhe consigo e com aquilo que pode fazer para conquistar o que deseja, e não com a vida de A ou B. Há muito, mas muito mais, para além daquilo que os nossos olhos recebem!