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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Bla, bla, bla... comunicação

12.12.18, Miguel Oliveira

Sempre gostei de frases feitas, de provérbios populares. E gosto porque acredito que reúnem verdade, seja lá isso o que for ou, por outras palavras, porque são frases simples que reúnem sabedoria. E do seu jeito simples o povo diz que "a falar é que a gente se entende". Sempre acreditei nesta expressão, nesta máxima que nos diz que dando voz aos envolvidos, as coisas podem resolver-se. 

Quem costuma acompanhar o blog já deve ter percebido que torço pela comunicação, que acredito nela e no seu poder de fazer diferente, de construir algo maior. Quem se debruça nas questões da terapia familiar e de casal, ou quem assiste a programas de televisão sobre as mesmas temáticas, facilmente vai cruzar-se com expressões como "o problema daquela família é que não comunicam entre eles" ou "é preciso desenvolver a comunicação do casal". Mas então, o que é isto da comunicação?

A comunicação, em termos teóricos, é algo muito rico, onde se incluem os axiomas - uma espécie de premissas-chave, se quiserem - e as respetivas distorções. E, de uma forma simples, define-se como tudo aquilo que fazemos e dizemos, de forma consciente ou inconsciente, intencionalmente ou não. Assim, e não prolongando a abordagem teórica, facilmente conseguimos entender a afirmação de que é impossível não comunicar, ou que até calados comunicamos (porque há uma mensagem a ser enviada/recebida). Mas então, se assim é, como é que um casal tem de desenvolver a sua comunicação? 

Pois bem, e pegando num exemplo de um programa de televisão (Casados à Primeira Vista, SIC, 2018), um casal estava a atravessar algumas dificuldades de convivência. A certa altura, a esposa diz que precisa de espaço. Nessa noite, o marido fez as malas e saiu de casa. O que aconteceu aqui? A título de exemplo, o que pode acontecer em muitas casas.

Todos nós temos as nossas definições, as nossas interpretações para cada conceito/situação. Para A, "espaço" é uma coisa, para B outra, para C uma diferente, e por aí fora. Ora, não "desenvolvendo a comunicação", eu ajo de acordo com as minhas definições, ou seja, de acordo com a interpretação que faço daquilo que me é dito. No exemplo dado, para o marido, precisar de espaço equivalia a haver um distanciamento físico/presencial entre as duas pessoas. Para a esposa, ela apenas pedia espaço em relação à pressão que o marido lhe fazia, no que toca a surpresas, demonstrações de afeto e sucessivos comentários de uma vida futura a dois. Consequência do que aqui aconteceu? No dia seguinte, quando o marido voltar, e voltar a ser o que ele é, da maneira como sempre foi e sobre a qual o casal ainda não comunicou (isto é, partilhou as suas perspetivas, esclareceu os seus conceitos e definiu os espaços individuais e do casal), ele vai fazer tudo igual. Por seu lado, a esposa vai queixar-se de que nada mudou e o marido não vai perceber o que poderá fazer mais, uma vez que já saiu de casa. 

Se me fosse permitido dar um conselho, valha ele o que valer, em todas as relações, de maior ou menor intimidade, apostem numa comunicação clara. Certifiquem-se que o vosso destinatário percebeu o que queriam dizer, da mesma forma como vocês perceberam a intenção do que vos foi dito. Questionem. Aprofundem os conceitos e visões de cada um. Na ausência de bolas de cristal, "a falar é que a gente se entende". 

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