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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Brincadeiras na areia

18.08.19, Miguel Oliveira

brincadeiras

O dia está quente. Ladeados por uma água calma, azul e brilhante, eles brincam na areia branca da praia. "Trouxeram a casa às costas", como diriam os seus avós se ali estivessem. Entre carros, baldes, raquetes e discos voadores, estão ali. Andam para a frente e para trás. Correm, saltam, molham-se e sorriem. Falam alto da mesma forma como sussurram baixinho ao ouvido de um amigo: alegres. É alegres que estão o tempo todo. Há alegria na corrida para a água; há vivacidade nos "croquetes de areia" em que se transformam; há risos nas trocas de lanches; há luz nos seus olhares. Olhando para eles, encontramos o que encontramos em nós, adultos: mil formas, tantas quantas existem seres humanos neste planeta. 

Sentados na areia, na toalha ou caídos à beira mar, numa manobra falhada em cima de uma prancha, nada mais importa. Não importa se têm refegos no corpo, se os calções desceram ou se a parte de cima do biquini das meninas subiu. Riem-se de tudo, ajeitam-se e seguem viagem. Este é o verão daqueles que estavam ali, à minha frente.

Com menos de metade da minha idade, aquelas crianças ensinaram-me muito naquele dia. Ensinaram-me que somos 7,7 mil milhões de seres a habitar esta Terra. 7,7 mil milhões de corpos. 7,7 mil milhões de cores, formas, penteados, cicatrizes, marcas de nascença, pilosidades, tamanhos e todas as demais características que queiramos evocar. Na verdade, e porque a verdade é só essa, não existe nenhuma cópia de nós mesmos. Nenhum de nós é perfeito, com o sem o penteado da moda, com ou sem o corpo de revista que nos vendem todos os meses nas bancas dos quiosques, com um tom mais ou menos escuro, com a depilação mais ou menos feita em cada uma das tantas partes do corpo. Não há perfeição. Não existe. E nunca, em momento algum, vamos agradar a todos. É impossível e, acima de tudo, desgastante. 

Desde que comecei a ganhar consciência do meu corpo, do seu tamanho e das suas formas, comecei a lidar mal com ele e comigo. Não gostava, não correspondia àquilo que desejava, àquilo que os que me rodeavam diziam ser o "desejável", o "bonito" ou o "apetecível", quando a idade começou a passar e a vida sexual se iniciou. Havia sempre algo a melhorar. E de tanto querer melhorar, de tanto querer disfarçar o que havia e desejar o que não era, sentia-me preso. Ir à praia ou à piscina era algo que mexia comigo. "Mais um ano e ainda estou assim", pensava eu todos os anos. Adoro água, adoro nadar e flutuar. Sinto-me um peixe na água mas, em praia ou piscina, até chegar à água há dezenas de olhares; até chegar à água há dezenas de eventuais "críticos" que, olhando para mim, podem julgar a imagem que ali desfila. Porém, este ano algo mudou em mim. 

É frequente "os mais velhos" dizerem que têm muito a aprender com "os mais novos". Pois foi exatamente isso que aconteceu com aqueles miúdos.

O que é que existe mais do que aquele momento de brincadeira? O que é que existe mais do que aquela corrida, aquela gargalhada ou aquela queda? Nada! Porque no momento, apenas existe o momento. E basta olhar à volta para perceber que tudo é diferente. Todos somos diferentes. Somos 7,7 mil milhões de páginas recortadas, pintadas, marcadas e escritas de forma diferente. Os modelos de revista passam num casting. Os atores e apresentadores passam em castings. O que chega até nós é um produto do meio e, mesmo assim, não deixam de ser todos diferentes. 

Graças àquelas pestes barulhentas que, por algum motivo me chamaram à atenção, caminhei à beira mar sem t-shirt, andei pela avenida, junto à praia, sem t-shirt e caminhei até à água sem braços a tapar a barriga. Este é o meu corpo, tão simples e perfeitamente imperfeito como todos aqueles que me rodeiam. Graças àqueles miúdos, percebi a importância que o meu corpo tem no meio de 7,7 mil milhões de "defeituosos" como eu - nenhuma.

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