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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Detalhes (que não são detalhes)

19.09.18, Miguel Oliveira

Há pequenas coisas que nos passam ao lado, de uma forma tão simples que nem damos conta, muitas vezes. 

Há uns tempos estava a assistir a um filme e, num jantar de família, um dos casais entrava numa discussão sem fim, o que em termos teóricos toma a designação de escalada simétrica. Ambos se insultavam e agrediam verbalmente, num tom de voz cada vez mais alto e ríspido. A certa altura, Rui levanta-se da mesa e sai de casa. Horas depois, envia à esposa, Ana, uma mensagem a dizer que estava farto da situação em que viviam, que para ela, ele nunca fazia nada bem, que da parte da mulher havia sempre uma crítica a fazer e nunca um elogio, nunca uma palavra atenciosa. Ana ficou desolada, caindo em lágrimas no colo da irmã Júlia, sem conseguir perceber o porquê de tamanha decisão. Era algo que lhe parecia brusco e descabido. Por que razão teria ele tomado aquela atitude? O que teria acontecido no jantar para ele decidir terminar com o casamento? Nisto, Júlia pede a Ana para que lhe mostrasse o seu telemóvel, para ver a troca de mensagens do casal. Há meses que as mensagens do agora ex-casal se assemelhavam a uma lista de lembretes, desprovidas de qualquer gesto atencioso, palavra meiga ou reconfortante. Atenção que isto pode ser uma realidade absolutamente normal e rotineira para um determinado "tipo" de casal. Cada casal tem os seus próprios ingredientes para a confeção da sua receita ideal. No entanto, ali este era um ingrediente necessário e que há muito estava fora de stock. Perante tal situação, sem Ana saber, Júlia mandou uma mensagem a Rui, do telemóvel da esposa desolada, pedindo-lhe desculpa por toda a falta de atenção e de carinho que mostrara nos últimos meses. Foi o suficiente. Pouco depois Rui regressou a casa, correndo para os braços de Ana, dizendo que a amava e que não conseguia viver sem ela. Mesmo sem perceber o que se passou, Ana ficou a perceber que ambos se precisavam de mimar, de namorar, de nutrir o que juntos iniciaram - uma relação - que longe de ser perfeita, é também uma obra nunca acabada. 

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