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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Já não se fala de amor

15.11.18, Miguel Oliveira

Crescemos com contos de fadas, histórias de príncipes e princesas que tudo fazem para vingar o seu amor, filmes onde as personagens principais se encontram em determinado momento do seu percurso e algo acontece, de forma inesperada, marcando-os e dando um novo rumo às suas vidas. Assim sendo, não é de estranhar que o primeiro impulso quando se fala em amor, sobretudo nos mais novos, seja o de um sinónimo de felicidade, um sentimento de nível superior onde tudo é bom e os problemas não entram. Porém, parece que a noção de amor se tem tornado num bem apenas acessível a gente crescida...

Num congresso a que fui recentemente, uma das palestrantes dizia que os jovens já não falam em amor, que não utilizam a palavra “amor” para se referir aos seus relacionamentos e aos seus sentimentos. Utilizam antes outras expressões, exprimem-se de uma outra forma. Ao ouvir isto, a minha reação foi imediata: ainda bem que não falam em amor, ainda bem que não rotulam as suas experiências com o mais nobre dos sentimentos. Caso contrário, iriam estar a menosprezar algo tão bonito, tão rico e de tanto valor! Mas atenção, eu não estou a dizer que o amor não faz falta e que não se falar de amor é uma conquista há muito desejada. Nada disso! Apenas se despertou algum contentamento por saber que os mais jovens não descrevem as suas relações e experiências como sendo amor. 

O amor não é um patamar que se atinge, mas sim um terreno que precisa de ser nutrido e conquistado, muito além do tempo ou das experiências já vividas. O amor implica lágrimas, cedências, comunicação (ou melhor, metacomunicação, um outro nível de comunicação que tem o poder de fazer a diferença nas relações), esforços, dedicação, atenção.

Amar não é só mandar mensagens com emojis fofinhos e cheios de cor, capazes de fazer sorrir o destinatário. É, antes, mandar essas mesmas mensagens juntamente com outras que cuidem o outro, que demonstrem interesse, preocupação e genuinidade. Amar é ligar para saber como está aquela pessoa especial, como se sente e como foi o seu dia. Mas gestos feitos com coração e com interesse, onde a obrigação não tem lugar. 

Amar não é só estar presente para passear ou para celebrar. O amor está longe de se resumir a momentos maravilhosos e brilhantes, dignos de serem partilhados nas redes sociais, de forma a mostrarmos ao mundo como somos felizes e "sortudos" por ter alguém ao nosso lado. Também é amor quando não há passeios nem festas, e o mais inóspito espaço ou recanto se converte num local aconchegante para um abraço, para um amparo e um desabafo de um dia em que não deveríamos ter saído da cama. 

Amar não é só fazer sexo, mas estar presente mesmo quando o outro não o quer fazer. É amor quando se procura criar espaço para que ambos se exprimam, partilhem o porquê de não querer fazer sexo ou o que querem fazer de diferente.

Amar não é facilitismo. Não ama quem simplesmente fecha a porta ou deixa de responder às mensagens só para não se chatear ou estragar o seu dia, só porque não está para aturar quem está ao nosso lado. Ama quem tem a porta aberta e permanece, mesmo nos nossos piores dias, que se preocupa e demonstra vontade de ajudar, mesmo que não o consiga. Ama quem tem a consciência de que há dias bons e dias menos bons, hoje para um e amanhã para o outro. Somos muito egoístas e paradoxais. Não temos paciência para "aturar as coisas dele/a", mas queremos e achamo-nos donos da razão quando precisamos que ele/a esteja ao nosso lado. 

Amar não é só dar prendas bonitas ou convidar para jantares românticos. Amar são também refeições simples e pequenas demonstrações de carinho, porque mesmo com pouco, aquela pessoa dedicou-se a preparar algo para ti. 

É um legado comum ouvir-se a expressão "não há nada garantido nesta vida". O amor não é exceção. E não é preciso pensar muito para perceber porquê: como é que começou a relação? Não foi com uma sucessão de encontros, de partilhas e de momentos que se foram tornando especiais ao longo do tempo? Então se nasceu assim, morrerá no momento em que isso terminar. 

Por tudo isto, e apesar de ser "um jovem", ainda bem que os meus pares já não falam em amor. Ainda bem que não se aplica um rótulo de tamanha importância a um conjunto de experiências cada vez mais físicas e sexuais, tantas vezes desprovidas de esforço e genuinidade. Vivam o que querem viver, experienciem, troquem de par, "comam-se" como se não houvesse amanhã. Isso ao lado do amor não é nada!

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