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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Marcha sem Orgulho LGBTI

18.10.18, Miguel Oliveira

Este pode ser um tema delicado para ser falado e pensado a uma só voz, a minha, com uma visão redutora que um só ser humano aplica às coisas quando as encara sozinho. No entanto, é algo que me incomoda e que há muito penso sobre ele. Falo das intituladas Marchas de Orgulho LGBTI e aquilo que a elas está associado. 

A sociedade diz-me, pelos rótulos que elabora e aplica, que eu sou um jovem adulto LGBTI, pessoa lésbica, gay, bissexual, transexual ou intersexo. 

Antes de qualquer outro comentário, e de uma forma muito generalizada, referindo-me apenas às nomenclaturas que criamos para tudo e mais alguma coisa, acho curioso o esforço que uma sociedade faz para normalizar as “minorias” quando é ela própria a criar rótulos e artifícios cada vez mais minuciosos, aumentando essas “minorias”. Somos seres humanos, com qualidades e defeitos, pessoas que nasceram sem nada, que vão morrer de igual forma e que apenas devem viver com os mesmos direitos e deveres. Mas sim, reconheço que precisamos de uma organização e que é a partir dela que podemos dar voz e corpo às coisas, mas não deixa de ser curioso travar uma luta para acabar com aquilo que se cria. Este é o primeiro ponto. 

O segundo ponto, talvez o mais sensível deles todos, diz respeito às Marchas ou Paradas de Orgulho LGBTI. Acho que não podia haver pior designação para um ato cívico de merecido valor como este. As palavras têm poder, têm força e não consigo entender a aplicação de uma delas. Passo a explicar: segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, orgulho é a “manifestação do alto apreço ou conceito em que alguém se tem”; uma outra definição do conceito diz-nos que orgulho é um “sentimento de satisfação de alguém pela capacidade, realizações ou valor de si próprio ou de outrem”. Tendo em conta estas definições, retiradas da Internet sem qualquer critério de seleção, onde é que se enquadra a noção de “orgulho” ao facto de ser LGBTI, ou no meu caso, gay? Eu, Miguel, tenho-me em melhor conta/apreço por ser gay? Tenho mais valor enquanto pessoa por uma condição que não escolhi? Sou digno de mais respeito ou orgulho por parte dos outros, passo a redundância, pelo simples facto de me sentir atraído por homens e ser ao lado de um que queira fazer vida? Não me faz sentido. Tal como diz a segunda definição, que aliás se aproxima da minha definição de orgulho, eu fico orgulhoso quando conquisto algo, quando me supero, quando alcanço determinado objetivo. Ora, se ser gay não é uma escolha e não é algo influenciado pelo meio em que se vive ou cresce, então eu não vejo o porquê de ter orgulho numa coisa que não escolhi, lutei ou conquistei. Nasci assim. No entanto, não estou a querer dizer que apenas podemos ter orgulho quando se conquista algo externo a nós. Podemos e devemos ter orgulho no que somos, enquanto pessoas, enquanto seres dotados de humanidade. O que eu quero dizer quanto à questão do “orgulho” é que eu não tenho orgulho em mim pelo simples facto de ser gay. Ser gay é apenas um pormenor, uma ínfima parte de tudo aquilo que eu sou enquanto pessoa, amigo, filho, neto, namorado, irmão, etc. Eu tenho (e podemos e devemos ter todos nós) orgulho por tudo aquilo que sou e não apenas por um rótulo que nos diz com quem queremos ter sexo, com quem queremos fazer vida ou qual a nossa postura na vida. São coisas distintas e assumir-me gay, por si só, não é uma questão de orgulho.

Um outro aspeto que me inquieta nestas Marchas é todo o lado feérico e exuberante que lhes tende a ser incutido. Sim, assumo desde já que pode ser um preconceito meu, que não me revejo nem me identifico com determinadas condutas ou formas de estar na vida. Mas a questão é: se as Marchas servem para lutar pelos direitos de todos, "para abraçar a inclusão e a representatividade das pessoas (...) [relembrando] os decisores políticos, a sociedade civil e a opinião pública que há muitas questões ainda por resolver" (in MOG), então qual a necessidade de fazer daquilo um desfile excêntrico que pouco tem de natural? Não sou de purpurinas, brilhos, lantejoulas nem de bandeiras coloridas e desconfio que apenas uma pequena parte desses manifestantes assumam aquela imagem no seu dia a dia, nas idas ao médico ou no seu local de trabalho, por exemplo. E perguntam agora, lá porque eu não sou os outros não podem ser? Claro que podem! Aceito que o façam, são livres para isso e cada um tem o direito de se sentir confortável na sua própria pele, seja com o que for. Mas se estão ali para lutar pela naturalidade, então como vão fazer isso agindo de uma forma não natural? Todos sabemos que o preconceito é gerado por ideias feitas daquilo que não se conhece, certo? Então como vamos transmitir que esta nossa condição LGBTI é algo natural se o que oferecemos não o é na totalidade? Peço que me ajudem a entender porque acho mesmo que poucos são aqueles que lá figuram para lutar verdadeiramente pela causa.

Por fim, e voltando à questão inicial dos rótulos e das "minorias" criadas, fico espantado quando se criam Gay Games, uma espécie de Jogos Olímpicos com desportistas LGBTI, uma atividade iniciada nos anos 80 para "promover o espírito de inclusão e participação" em atividades desportivas. Isto não tem particularmente a ver com as Marchas, mas vai de encontro às ideias transmitidas anteriormente. 

A Federação dos Gay Games diz que o objetivo dos mesmos é "fomentar e aumentar a autoestima de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, e todos os indivíduos sexualmente de género variante ao longo do mundo, para promover o respeito e a compreensão dos outros". Entendo este ponto, mas mais uma vez me questiono qual a necessidade de segmentar, de criar algo à parte. Todos sabemos que há gays em qualquer desporto, desde o futebol ao judo, passando pela natação, basquetebol, ténis ou golfe, por exemplo. Partindo do princípio que o objetivo é dar visibilidade e lutar pela normalidade e naturalidade das coisas, porque para ser atleta basta ter aptidões para a prática desportiva, não seria mais benéfico, por exemplo, criar movimentos em que as pessoas se assumissem e dessem o seu testemunho, dentro dos próprios clubes ou associações desportivas? Não seria mais inclusivo do que criar competições com LGBTI onde heteros também podem participar? Reconheço que esta iniciativa possa aumentar a visibilidade, posso entrar pelas casas das famílias de uma forma mais natural, reforçando a forma como devemos encarar as pessoas, naquele caso desportistas, sendo apenas isso, desportistas, mas fico com as minhas dúvidas... 

Todos falamos em inclusão, em normalização e assuntos que não o deveriam ser, mas depois somos os primeiros a criar dias comemorativos, encontros, cerimónias e artifícios para segmentar e rotular a diferença que não deveria ser diferença. 

 

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