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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Na roda do sexo

30.05.19, Miguel Oliveira

Hoje partilho-vos uma experiência (muito) pessoal. 

Desde que lhes conheço a sua existência, sempre mantive uma postura muito crítica em relação a elas. E crítica não por serem boas ou más, mas porque vejo além delas, porque questiono o fundamento do que ali se procura e não me identificava com a ilusão ali espelhada. 
Sei o que quero e sei também o que não quero, o que não me faz sentido, o que nada me acrescenta - e quando algo não me acrescenta, apenas me afasto. Porém, sou também muito curioso e gosto de ter conhecimento de causa. Depois de muito adiar, no fim de semana passado instalei o Grindr.
O Grindr existe desde 2009 e é apresentado como uma aplicação que promove "Conversa, contactos e encontros para gays e pessoas do mesmo sexo". No fundo, é uma rede social, como acontece com o Facebook ou o Instragram, em que é criado um perfil, com ou sem fotografias, que promove a tal conversa e o contacto entre homens. Porém, e depois de lá ter passado, é mais do que isso. Ou até menos, se olharmos para o que lá acontece.
Óbvio que não podemos tomar a parte pelo todo e como acontece em todas as situações do nosso dia a dia, há gente para tudo e de todos os gostos e feitios. Mas concentremo-nos na minha experiência, que é a única coisa sobre a qual posso falar na primeira pessoa.
O início é simples. Autoriza-se a localização do dispositivo (geolocalização), escreve-se uma descrição nossa (opcional), seleciona-se o que procuramos na app (por exemplo, "Amigos", "Relacionamentos", "Agora" - sim, Agora, de sexo na hora) e alguns dados pessoais como peso, altura, tipo de corpo e posição/preferência sexual. Depois de preenchermos o que quisermos, o perfil está criado e disponível para os outros utilizadores. Podemos procurar apenas nas redondezas, o que é feito através do GPS do telemóvel, ou procurar perfis em qualquer canto do mundo. Depois disso, o catálogo está aberto e surgem todos os perfis que se encontram na área geográfica selecionada. A partir daqui, inicia-se o contacto. 

Nas primeiras horas parecia-me tudo pacífico. Perfis com ou sem fotografias, pessoas sem corpo, ou corpos sem rosto. Uns pediam "sigilo" porque eram casados, outros diziam retribuir a fotografia assim que enviasse uma minha. Do pouco tempo que lá estive, percebi que as pessoas mais novas são mais calmas comparativamente com as mais velhas.

As interações foram repetitivas. Dos mais novos, surgiu quase sempre uma conversa de circunstância, onde se perguntou "De onde és?", "O que procuras?" e "Ativo? Passivo?". Recolhidas as informações, começava a partilha de experiências, de gostos e fotografias. Por outro lado, os utilizadores mais velhos foram mais diretos, enviando de forma gratuita fotos íntimas, oferecendo os seus dotes e perguntando se estaria interessado, afirmando ter local para consumar o ato. Existe de tudo, como num catálogo. Ali ninguém fica insatisfeito. 

Houve quem fizesse propostas. Quem se oferecesse para se deslocar e quem sugerisse que eu o fizesse. Houve quem partilhasse fantasias, quem me quisesse nas suas e quem procurasse pessoas para recriar cenas de um filme. Volto a afirmar, houve de tudo. 

Durante o tempo em que lá estive, percebi quatro coisas:

- a facilidade com que se abre a porta à intimidade e às vivências sexuais é enorme. Mesmo eu, que prezo muito a minha intimidade, sobretudo a sexual, vi-me a partilhar em excesso. A interação assim o exige e quase nos impele para o fazermos;

- a valorização extrema que é dada ao físico e ao pénis é ainda maior do que eu julgava, onde fica notório o papel central que o pénis continua a ter na vivência da sexualidade, surgindo como o executor da atividade sexual, quase desprovido de um corpo e de uma capacidade criativa da qual somos dotados;

- o estímulo constante e imediato, vindo de qualquer parte, em simultâneo, torna a experiência quase viciante. Depois de começar a troca de mensagens, fica-se centrado na interação. Quer-se saber mais, quer-se dar mais a conhecer;

- a ideia de que tudo está à distância de um click e de meia dúzia de metros é assustadora. Estando de catálogo aberto, a ideia com que fiquei foi: "Não queres tu, há quem queira.". As pessoas são reduzidas a fotografias, à distância a que se encontram e à prontidão e disponibilidade que apresentam. 

Talvez estes pontos que referi sejam o propósito da aplicação. Talvez estes pontos mais não sejam do que pré-conceitos meus e alguma ingenuidade. No entanto, e seja como for, esta experiência apenas me mostrou assertivamente o que não quero, o que nada me diz.

Sim, continuo a gostar de sexo. Sim, há corpos muito atraentes por lá. Sim, a excitação, a imaginação e a envolvência que se criam sabem muito bem. Sim, cruzei-me com pessoas com quem pude ter algumas conversas "normais" (e alguns conhecidos, o que é sempre um misto entre constrangedor e cómico), mas ainda estou aquém de me sentir realizado com tão fracas interações. Um amigo alertou-me para o facto de tudo isto ser o propósito da aplicação e de ser legítimo tudo o que lá se passa. E de facto ninguém é obrigado a lá estar e, se o faz, tem legitimidade para viver o que lá quiser viver. Cada um procura o que lhe faz sentido e o que quer. Porém, e perdoem-me o atrevimento, continuo a achar que este tipo de interações esconde bem mais do que a procura de um mero momento de prazer...

Seja como for, a roda do sexo não é para mim!