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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

"(não) Sou homossexual"

12.08.18, Miguel Oliveira

Não fique baralhado(a), eu já explico o título.

Na cabeça de muitos, alguém afirmar a sua homossexualidade (ou bissexualidade) é uma moda. Não podia estar mais em desacordo com essa ideia, mas não é por aí que quero ir. Quero focar-me na questão da afirmação, independentemente da sua razão. 

Numa sociedade onde o "normal" é ser heterossexual parece existir uma necessidade de afirmação, de chegar junto daqueles que para nós são importantes, sejam eles familiares ou amigos, e de afirmar que se tem uma orientação sexual diferente da "normal". Mas ao pensar sobre isto, surgiu-me uma dúvida: a orientação sexual é algo que nasce connosco, certo? Não escolhemos por quem nos sentimos atraídos ou com quem queremos construir uma vida, pois não? Então, se um heterossexual não chega junto dos pais, por exemplo, e diz que quer constituir família com uma mulher, porque é que alguém com uma outra orientação tem de o fazer? Porque é que se tem de dar o passo e revelar no seu núcleo de amigos que se é gay, por exemplo? Encarando tudo com a normalidade que lhe cabe, essa é uma questão assim tão importante? Faz sentido que exista se foi algo que não se escolheu?

Suponhamos um novo grupo de trabalho que se forma. São pedidos dois ou três aspetos sobre nós, para que o restante grupo nos conheça um pouco melhor. Faz sentido chegar a minha vez de falar e dizer: "Olá a todos. Sou o Miguel, tenho 23 anos e sou gay."? Que informação pertinente recebem as pessoas? As preconceituosas talvez recebam o livre acesso à bíblia de cognomes e preconceitos para me rotularem, mas e os outros? O que ganham em saber que me atraio por homens e que é ao lado de um que estou quando chego a casa, no final do dia? Não seria mais proveitoso eu dizer "Olá a todos. Sou o Miguel, tenho 23 anos, concluí o curso de Psicologia e os trabalhos de investigação em que tenho participado prendem-se com a adultez emergente". Sendo um grupo de trabalho, neste caso, seria muito mais útil partilhar o meu conhecimento do que a minha intimidade que, por sinal, não foi uma escolha mas uma descoberta. E num grupo de amigos não será idêntico? Não será mais útil partilhar viagens, conhecimentos, desejos e experiências em vez de dizer algo que apenas diz que durmo com pessoas do mesmo sexo? 

Não estou a querer dizer com isto que devemos esconder ou viver numa mentira. Nada disso. Mas se é algo natural, tão natural como a cor dos nossos olhos, então qual é a razão para se criar um tabu em torno desta questão e ter de assumir o que não foi uma escolha? Em qualquer situação, sou eu, com a minha imagem, o meu peso, as minhas roupas, as minhas experiências e as minhas fantasias, sejam elas com homens, mulheres ou ambos. 

É esta a razão do título: uma pessoa é muito mais do que a sua orientação sexual. Muito mais do que os seus gostos e a sua intimidade. Ter de o afirmar dessa forma, com toda essa pompa e circunstância, apenas aumenta o prurido em torno do assunto, fazendo com que se criem rótulos e ideias feitas em torno daquela pessoa. Ela pode ser homossexual, mas mais do que isso é um ser humano, com qualidades e defeitos, ambições e gostos próprios, o que é muito mais elucidativo sobre ela do que a pessoa com quem tem relações sexuais. 

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