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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Naturalidade num mundo de pressões sociais

20.12.18, Miguel Oliveira

“A tua naturalidade não tem de agradar a todos.” ou “É a tua naturalidade que te define.” são duas das frases de um anúncio publicitário. Estas são frases aparentemente simples que nos entram casa adentro, mas que devíamos encarar com mais seriedade, pelo menos escutar com mais atenção. 

De manhã à noite estamos rodeados de ecrãs, montras com revistas ou painéis publicitários de onde nos chegam imagens da (suposta) perfeição, daquilo que é desejado pela sociedade e tido como “bom”, “apetecível” e "de sonho". A um nível mais circunscrito e íntimo, as nossas redes sociais seguem o mesmo caminho, com centenas e centenas de publicações dos nossos "amigos" e "seguidores", onde cada um mostra onde está, como está ou o que alcançou. Imagens e ilusões que nos fazem parar, olhar para nós e ver se estamos enquadrados ou não, se temos ou não o que nos apresentam e se já conquistámos ou não o que a eles pertence. Resultado desta tão rudimentar análise? Geralmente estamos aquém de todos. E porquê? Primeiro porque somos humanos e como bons humanos que somos, somos insatisfeitos por natureza. Dificilmente nos voltamos para o que já conseguimos, pelo que já temos ou somos. A nossa lupa interna recai para o que nos falta, um défice que é acompanhado de um magnetismo gigante para tudo aquilo que existe e que ainda não possuímos. Depois porque o nosso olhar é um olhar depreciativo sobre nós mesmos, um olhar que enaltece as qualidades dos outros, a sua determinação, a sua genética, os seus conhecimentos, os seus contactos, etc. 

As palavras têm poder, têm força em nós e, por vezes, se mudarmos um pouco o nosso ângulo de visão, a nossa expressão, as coisas podem ganhar novos pesos e serem encaradas de outra forma. Nós podemos olhar os outros em vez de nos compararmos a eles. Olharmos em nosso redor, ambicionarmos chegar a algum lado ou simplesmente olharmos os outros como uma fonte de descoberta, por vermos nos seus percursos novas oportunidades para as nossas vidas, não traz, a meu ver, efeitos negativos. Estamos a abrir horizontes, estamos a descobrir novas ferramentas e novas aventuras. Em último caso, estamos a crescer por termos aprendido algo mais. Porém, se nos prendermos simplesmente aos outros, às suas conquistas e às informações que recebemos deles, que bajulamos sem filtro e que por eles são selecionadas, porque ninguém partilha tudo, só nos iludimos. Compararmo-nos constantemente com uma realidade que não é a nossa só nos prejudica, desvaloriza e aprisiona. Querermos ser exatemente o que o outro é, querermos ter as suas oportunidades, as suas conquistas é um jogo impossível de jogar, porque só é aquela pessoa ela mesma. E se nos quisermos comparar, então comparemos o pack completo: uma amiga de um amigo vai casar, tem emprego estável e a vida "orientada". Esse meu amigo inveja-lhe as suas conquistas e a sua vida, por em muito se assemelhar àquilo que eram os seus planos. Porém, esquece-se de ver que o ambiente no trabalho dela não é o melhor, que para conseguirem casar, os ainda namorados pouco tempo estão juntos e que as contas são mais que muitas para que possam viver mais a vida. Talvez a vida ideal não seja assim tão ideal...

Acredito que se olhássemos mais para nós, para a nossa naturalidade, a nossa insatisfação seria menor. Nem sempre nos aceitamos com tudo o que somos. Nem sempre nos respeitamos, primeiro enquanto seres humanos e, depois, com o nosso tempo, porque tudo tem um tempo para acontecer. Nem sempre paramos para nos compararmos com quem devemos: nós próprios. É apenas connosco que nos podemos comparar. Comparar com o que fomos ontem e com o que somos hoje. Compararmo-nos com os recursos que tínhamos ontem e que devíamos resgatar porque hoje nos fazem falta. Compararmo-nos com as lacunas já preenchidas em vez dos espaços que estão por preencher. 

Se é para "perder tempo", então que o percamos connosco, com os nossos sonhos, com as nossas conquistas, com a nossa vida. A dos outros, da qual só sabemos uma ínfima parte, a eles pertence e só por eles pode ser vivida. Afinal de contas, "é a tua naturalidade que te define". 

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