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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Modas sem medida

14.09.18, Miguel Oliveira

Uma alimentação equilibrada e nutritivamente rica, juntamente com a prática de exercício físico regular são conselhos que ouvimos desde pequenos para um correto e saudável desenvolvimento. No entanto, tenho para mim que essas noções foram elevadas ao patamar de "moda", nos últimos anos. Isto não é, de todo, uma crítica. Não sou nem nunca fui de modas, mas se há moda que apoio é essa, em que somos alertados para vivermos de forma consciente, olhando por nós e pela nossa saúde. Porém, como em todas as modas, a sociedade rapidamente nos categoriza de duas forma: ou estamos "in" ou estamos "out", e quem está "out" é um alvo fácil para comentários dos milhares de gurus da alimentação e do desporto que brotam como cogumelos, em qualquer canto. E isto não é só um "problema" de pessoas que apresentam uns quilinhos a mais ou a quem as roupas já não assentam (ou não apertam) como dantes. Isto é também um "problema" para os "magros", aqueles cuja imagem mais se assemelha a "um pau de virar tripas", como facilmente podemos ouvir. Mas acho que há uma coisa que as pessoas não sabem ou que tendem a ignorar de forma a dar voz ao pouco caloroso comentário: à exceção dos distúrbios alimentares, onde tudo ganha contornos diferentes, quem viu a sua imagem corporal alterar-se, por força do ganho ou da perda de peso, tem consciência disso; sabe que isso aconteceu. E como sabe? Porque toma banho e se limpa, porque se toca, porque experimenta roupa, porque usa (ou tenta usar) a sua roupa de sempre. Não é preciso que ninguém de fora nos diga que "ah, estás gordo!" (ou "estás ainda mais magro"). Não se esforcem nem se cansem. Nós sabemos que sim, acreditem que sabemos. Dificilmente alguém conhece o nosso corpo como nós próprios. Agora pergunto, sabem o porquê dessa alteração? Por instantes pensaram em perguntar se estaria tudo bem, se estaríamos a passar por alguma situação complicada? Já se perguntaram que podemos estar efetivamente mais gordos (ou mais magros) e que poderíamos precisar de falar abertamente sobre o facto de estarmos assim, com alguém que não nos julgasse ou fizesse uma lista das coisas que fazemos incorretamente? O comentário é fácil, é quase instantâneo. Abriu-se a boca e já cá está fora. Mas essa elaboração tão simples constitui, muitas vezes, uma ofensa, um ataque, a gota de água num dia nada fácil, onde não nos sentimos bem connosco próprios, onde estamos fragilizados e desconfortáveis na nossa própria pele. 

Acredito que há pessoas que ao lerem este texto digam coisas do género "se estás gordo é porque queres. Ninguém te obriga a comer o que não deves." ou "se não fazes nada para emagrecer como é que queres que tal aconteça?" ou ainda "alguém te abriu a boca e te enfiou comida lá para dentro?!"... Não lhes tiro toda a razão. De facto ninguém nos obriga a comer e também reconheço que somos o resultado das nossas escolhas. Mas a vida é bem mais do que escolhas conscientes, bem mais do que um frigorífico cheio de taças com refeições prontas e marcações de treinos na agenda. Há stress, carências, ritmos inesperados, pensamentos que nos acompanham todo o dia, sentimentos de frustração e um reflexo que não nos agrada. Estas e tantas outras questões ou situações que numa só cabeça, num só corpo e numa sociedade tão cheia de rótulos fragilizam qualquer pessoa, alimentando o ciclo vicioso em que ela se encontra. 

Precisamos de ser mais sensíveis, de ter mais tacto para com tudo aquilo que nos rodeia. Seja qual for a situação, cada um de nós é muito mais do que aquilo que apresenta. Por isso, há muito mais diante dos nossos olhos do que aquela imagem. Como escreveu uma amiga, "Os distúrbios alimentares são patologias muito graves, umas mais invisíveis que outras, e não devem ser desvalorizadas, nem perpetuadas só porque naquele momento temos uma opinião desinformada sobre os outros. Nunca sabemos o turbilhão em que os outros se encontram.".