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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

O casal do lado

20.10.19, Miguel Oliveira

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Estão sentados ao meu lado. Aparentam estar na casa dos 30 anos. Parecem serenos. 

As luzes da sala vão diminuindo lentamente. A sala fica escura. Pouco depois, no palco, a iluminação faz-se sentir. Olho para o lado e lá estão eles, de mãos dadas, virados um para o outro. Nunca lhes consegui ver os rostos, mas já que os corpos também falam, percebi que os deles gritavam amor.

Foram duas horas de concerto. Duas horas de abraços, de mãos dadas, de carícias trocadas e de sensações partilhadas um com o outro. Sempre que os músicos exigiam, o público levantava-se e os meus fiéis companheiros daquela noite, o casal do lado, envolvia-se numa dança sincronizada e apaixonada. Só podia ser amor. Não sei se um amor recente, em que a paixão faz com que tudo seja intenso, onde o mais simples parece ser o mais inacreditável dos momentos, ou se seriam um casal daqueles que podemos ler nos livros, dos casais felizes, que tudo fazem para se respeitarem e cuidarem de algo que resolveram criar. Seja como for, foram duas horas de amor ao meu lado. Um amor que se vê na carícia, na simplicidade, na partilha, na dádiva genuína. Um amor suficiente. Um amor sem explicação. Um amor que, apesar de todos os altos e baixos, lá vai continuando com a certeza de que é por ali o caminho. Um amor que nos serve de abanão para acordar para aquilo que queremos, para aquilo que achamos ser o nosso propósito, para aquilo em que acreditamos e que, não raras vezes, as paixões não correspondidas nos fazem perder a noção. 

Se houvesse uma disciplina nas escolas sobre isto, podia ser a OPT ("Olha Por Ti") a figurar nos horários escolares. Se fosse coisa de gente crescida, então que a OPT surgisse nas nossas agendas com regularidade. Não nos podemos esquecer do que temos para dar, do que queremos dar e do que merecemos receber. Não nos podemos deixar afundar em paixões vazias que nada nos acrescentam. Não nos podemos deixar levar por cantigas mal cantadas, versos ocos e desprovidos de sinceridade. Não nos podemos deixar influenciar por caminhos rápidos que não são os nossos, ainda que desconfiemos se serão ou não. Temos de ir mais vezes à OPT. Temos de ver mais vezes casais do lado. Só assim manteremos presente o que nos faz sentido, o que realmente almejamos e o que verdadeiramente nos faz sorrir. 

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