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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

O que é um "final feliz"?

07.05.19, Miguel Oliveira

Há dias, num programa matutino, falava-se de divórcio.

Queria falar-se da tomada de decisão e do que é a vida pós-divórcio. Para uma das convidadas, a decisão tinha sido "horrível". Era o assumir de um "falhanço", era assumir que o projeto que se quer de uma vida tinha fracassado e que todos à sua volta iriam encarar uma "falhada", que não conseguira levar um projeto até ao fim. Lidar com a situação foi "doloroso". Em oposição, do outro lado da moeda estava alguém que sentia ter-se libertado de um casamento infeliz, onde cumpria com as tarefas exigidas pela sociedade, o tal "pacote familiar" que inclui comprar casa, casar e ter filhos (Guerreiro & Abrantes, 2007). De resto, enquanto pessoa, enquanto mulher, sentia que se tinha anulado durante mais de 20 anos. Ali, em amena cavaqueira, uma mesma situação com duas posturas totalmente opostas. Em ambos os casos havia um final. Ou seria um recomeço?

Ontem, a propósito de um casamento que tinha terminado ao fim de quatro meses, alguém dizia que talvez esses finais de relação sejam positivos, porque as pessoas ficam com tempo para viverem as suas vidas, para explorarem e se reinventarem. Se ao fim de quatro meses percebem que estão em momentos diferentes, que procuram coisas diferentes, então existe a possibilidade de se repensar os projetos de vida, quer em comum quer os individuais, porque ninguém deixa de ser indivíduo só porque vive junto ou celebrou um matrimónio.

Agora, esta postura não será acertada? Por que motivo dizemos que um divórcio não pode ser um final feliz? O que é isso de um "final feliz"?

Quem por aqui passa já percebeu que valorizo muito as relações, os sentimentos e as interações. Porém, há que ter bom senso e deve existir uma boa capacidade reflexiva para analisarmos a situação em que nos encontramos e, volto a frisar, saber o que queremos/necessitamos/merecemos/desejamos enquanto indivíduos, enquanto seres singulares, mesmo que estejamos numa relação, de maior ou menor duração. 

Iniciámos um projeto. No momento em que o mesmo se celebrou, com as circunstâncias em que os protagonistas se encontravam, aquela era a decisão que lhes fazia sentido. Porém, muito ou pouco tempo depois, nós já não somos os mesmos. Os sonhos já mudaram, as necessidades alteraram-se e até as circunstâncias em que vivemos já não são as mesmas. Como diz o povo, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". E não é que um casamento tenha de ser um capricho para ser encarado como uma vontade que precisa de ser satisfeita. Mas é uma decisão, um projeto que se assume. Agora, tudo tem um fim. Não termina um casamento quando um dos cônjuges morre? O nosso estado civil não é alterado? E esse casamento, que foi levado "até que a morte nos separe", também não terminou? Também esse teve um final que não foi feliz? 

O meio em que crescemos, as ideias que nos vão transmitindo e todos aqueles que nos rodeiam vão moldando o nosso comportamento e interferindo - com mais ou menos impacto - nas nossas decisões. O que me parece é que ainda pensamos pouco em nós, no que queremos e precisamos. Por causa dos filhos, da família, dos vizinhos ou dos amigos, não há coragem para dizer que não se quer mais, que não faz mais sentido, que aquela união não nos faz feliz nem realiza, da mesma forma como um dia, há muito ou pouco tempo, chegámos e revelámos que o casamento estava marcado. E isto não é só em relação ao divórcio. É em relação a tudo. E somos nós próprios que perpetuamos estas mesmas ideias.

O propósito de uma qualquer união não é enaltecer algo de bom? Não começamos a namorar ou casamos porque queremos partilhar a felicidade ao lado daquela pessoa? Não será essa a premissa? Então, quando tal não ocorre, existe a possibilidade de terminar ali o vínculo. E não porque somos fracos, falhados ou não temos a capacidade de ultrapassar problemas e divergências - sim, estes "pormenores" existem e fazem parte das relações. Mas falamos de algo maior.  Assumir um divórcio pode ser encarado como uma possibilidade de procurar essa mesma felicidade e a realização de sonhos de uma outra forma, ao lado de outra pessoa ou não.

Imaginem uma corrida. Inicia-se com força, com garra, com vontade de fazer parte dela. Na reta final, existe a meta, existe o "fim" da corrida. Mas esse "fim" não representa nada de negativo. Antes pelo contrário. Para lá da meta existe a possibilidade de descanso, de recuperar o fôlego, de ganhar parte do que se perdeu. Em muitos casos, mais ou menos amigáveis, parece-me que o divórcio seja a reta final desta corrida. É tudo uma questão de perspetiva e das bases com que crescemos.

As palavras têm muito peso e acredito que é esse mesmo peso que nos aprisiona e limita as decisões. Um dia, quando o divórcio for encarado como um "recomeço feliz", talvez as coisas mudem.

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