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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

O teu corpo, a minha casa

13.04.19, Miguel Oliveira

Chegaste de rompante. Contigo trouxeste essa tua imagem segura e confiante, semblante sério e firme, que rapidamente se desvaneceu, dando lugar a esse teu sorriso doce e largo. És um menino com cara de homem mau e talvez seja isso o que mais me atrai em ti. Consigo desmontar-te. Consigo desconstruir essa tua imagem que todos os dias ousas carregar. Ficas sem jeito, enervado até, e eu deliciado, a rir-me por tamanha conquista.

À beira rio, envolvidos por um sol quente de inverno, olhámo-nos de soslaio. A vergonha e timidez vêm de mãos dadas com a vontade de nos abraçarmos e de nos sentirmos, da forma mais natural que existe. Caminhámos, caminhámos muito, e cada vez que os nossos olhares se cruzavam e os nossos lábios sorriam, só me ocorria uma das tuas primeiras frases - "Quero ser um homem sério de dia, e o teu macho à noite!". Sabia o que querias. Sabia o que ambos queríamos e o que tanto procurávamos esconder. Talvez fosse a única situação onde não havia discórdia nem lutas de poder. Tu tinhas o poder e eu apenas ansiava a hora em que pudesse ser teu, como se de um súbdito se tratasse. 

Mais umas horas e a noite envolvera-nos. Os corações batiam mais depressa a cada encosto que dávamos. No metro, na rua ou em qualquer sítio por onde andássemos, o mais pequeno encontrão apenas se assemelhava à tensão existente entre dois ímanes com pólos opostos que não se podem juntar. 

Contigo as horas voavam. Envolvido nas tuas histórias, só pensava quando me podia envolver no teu corpo. Tu falavas e eu apenas acompanhava o movimento dos teus lábios. Um qualquer gesto teu significava uma luta para mim. Uma luta para não te tocar, para não te dar o que querias sentir, para eu não ter o que queria sentir.

Já tarde, sabíamos que poderíamos ir em segurança. Em casa já tudo dormia. Era a nossa oportunidade. Tremíamos. Mal conseguíamos falar. Os corações estavam acelerados. As bocas secas. As mãos sedentas das mãos um do outro. Ao fundo do corredor, estava o que desejávamos desde manhã: o teu quarto. Naquele quarto, apenas havia uma regra: fazer silêncio. Um silêncio que se adivinhava suado. De resto, tudo era permitido. Chegara o momento que tanto desejávamos. 

Iluminados por duas luzes de presença, cumprimos a nossa missão. Atiraste-me para cima da cama e despiste-me com rapidez. Entre beijos sôfregos e apertos intensos, tinhas a tua cobaia à tua disposição. Procurei fazer o mesmo contigo, mas rapidamente me disseste que quem mandava eras tu. Aceitei. De imediato, estávamos pele com pele. Corpos quentes, suados e tensos. Ao teu colo, abracei esse teu tronco largo e musculado. Os teus braços, igualmente densos, percorriam o meu corpo, em busca do mais simples arrepio. Entre beijos apaixonados, deixaste-me percorrer o teu corpo. Pouco iluminados, apenas retenho as tuas formas. Corpo grande, delineado e sedento de prazer. As respirações ficavam cada vez mais ofegantes. Os meus dedos percorriam delicadamente o teu corpo e, de quando em vez, apenas sentia as tuas mãos contra o meu corpo. Do nada, entre carícias e arrepios, apenas me deste o que tanto queríamos. Sabias como me relaxar e deliciar.

Cumprida a preparação, pegáste-me ao colo. Novamente ladeado pelos teus braços, embalaste-me ferozmente. Não havia lugar para sons. Não havia lugar para nãos. Eram apenas dois corpos entregues ao prazer, a libertar tudo aquilo que fora acumulado durante o dia. Sem falarmos, entregámo-nos ao momento. Pela primeira vez, senti-me sem liberdade. Mas era uma ausência boa, uma ausência consentida e de grande recompensa. Ininterruptamente, percorremos o corpo um do outro. Soubemos bem dar asas à imaginação e utilidade à flexibilidade que os nossos corpos jovens ainda permitiam. Encaixávamo-nos na perfeição.

Por fim, os nossos corpos ditaram o desfecho da aventura. Por si, deram-te a vitória e a mim o prémio. Respirámos profundamente. De olhos colados um no outro, agora sem vergonha, sorrimos. Os dedos entrelaçaram-se e assim ficámos, a olhar um teto repleto de sombras, num quarto quente e cheio de prazer. Naquele momento, no teu corpo, senti-me em casa. Pertencia a ele e ele fazia parte de mim. Em ti, tinha tudo o que podia pedir: o melhor dos amantes, no melhor dos locais.