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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

O vizinho de trás

05.07.19, Miguel Oliveira

Certamente já viveu a experiência de estar numa plateia qualquer ou num banco de um transporte público e o vizinho de trás, quando existe, estar sempre aos toques na cadeira. Ao início esperamos que tenha sido por distração. Depois esperamos que a pessoa repare. No fim, incomodados com a situação, já só queremos dizer que pare. Dizemos sempre? Acredito que nem todos nós nos viremos para trás para chamar a atenção. Acomodamo-nos. Esperamos que passe e distraímo-nos com outra coisa. Resultado disso? Vivemos aquele momento incomodados com a situação, que podia ser evitável, mas como não nos expressamos, nada muda e apenas temos de suportar.

satisfação sexual

Pois bem, e se esse vizinho da cadeira for o/a seu/sua companheiro/a? Sim, aquele/a com quem namorisca, aquele/a com quem se deita e troca carícias ou faz amor? Acha legítimo estar a suportar uma situação que lhe desagrada? Acha que é suposto "levar com toques incomodativos"? Acha justo que o outro continue a fazer uma coisa que pensa ser satisfatória quando, na verdade, não é? (Quantas vezes fazemos algo que julgamos que o outro gosta e, no fundo, nenhum dos dois gosta? Estamos a perder tempo e energia.) A resposta é não! Não tem de levar com eles! Não é suposto que assim seja! Não há amor ou outra coisa qualquer que justifique ou suporte tal situação. 
Expressem-se! Digam o que gostam, como gostam, e o que não gostam. Abram caminho seguro e neutro, o quanto possível, para serem ouvidos e ouvirem - sim, ouvir e serem ouvidos. Não se pretende que "quem diz o que quer, ouve o que não quer". Pretende-se, isso sim, que haja um terreno uniforme, seguro, onde se pode pisar sem risco de bombardeamento. Aceitem o que o o outro tem para dizer, mesmo que seja um "não", mesmo que seja um "não gosto disso", "não gosto dessa forma". É tão válido quanto um "mais, quero mais" ou "isso, faz com mais força". Numa situação ou noutra, é o bem estar de ambos que está em causa. E de ambos pelo simples facto de que quando se faz bem ao outro, também ficamos bem. De ambos porque quando um toma iniciativa de se expressar, também nós nos podemos expressar e isso é valioso.

E criar este terreno seguro não é abrir caminho para magoar o outro ou afirmar que ele/ela não nos satisfaz. Criar esse terreno seguro é, antes de mais, abrir pequenas janelas para se partilhar o que se sente, o que se é, em todas as esferas da vida de um casal. Depois disso, depois de trabalhada a capacidade de comunicação clara, abre-se espaço para a dimensão da intimidade. E aqui, por mais sensível que o chão possa ser, tem de haver segurança para se pisar sem medo que ceda.

Todos nós temos experiências sexuais diferentes, quer se tenha tido um/a parceiro/a ou 100. E esta diferença não se prende (apenas) com a quantidade de parceiros. Prende-se, acima de tudo, com o facto de todos sermos diferentes e, como tal, gostarmos, valorizarmos e precisarmos de coisas diferentes. Não é por se gostar de sexo oral que ele é sempre feito da mesma forma. Cada um faz como sabe e como gosta. Porém, depois de negociado, pode ser muito mais prazeroso para os dois. Para o que faz porque, eventualmente, descobrirá novas formas de o fazer e porque, do outro lado, está alguém mais excitado que aumenta a intensidade do momento. As relações são trocas. Quanto mais se dá, mais se recebe. Em todas as dimensões! 

Expressem-se! Partilhem o que gostam e o que não gostam, o que excita e o que não excita na intimidade, da mesma forma natural como dizem que não gostam daquele prato; da mesma forma como dizem que não gostam de ir àquele centro comercial; da mesma forma como dizem que o assado de hoje é, de longe, o que melhor vos soube. Dizer um "não" ao outro não é criticar o outro. Dizer um "não" é abrir a porta para um "sim" mais intenso. 

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