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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Paixão

02.09.19, Miguel Oliveira

Chamam-lhe paixão. Alguns dizem que é o que antecede o amor. Outros acham não tem de ser um antecessor. Eu não sei em quem acreditar. Só sei que penso em ti desde que te conheci. 

Encontrámo-nos sem quê nem para quê. Aconteceu. Daqueles acontecimentos simples, inusitados e improváveis. Entre olhares tímidos, fomos falando. Partilhei coisas sobre mim, ao mesmo ritmo com que fazias o mesmo. Fomo-nos conhecendo. Um dia depois do outro e tu ias sendo visita lá de casa. 

A noite trazia o luar, o vento e trazia-te a ti. Acredito que tudo na vida é uma questão de equilíbrio e tu comprovavas isso mesmo. Chegavas e partilhavas o teu dia de trabalho. Rias-te das aventuras e espumavas das desventuras com o teu patrão. De uma forma ou de outra, partilhavas o teu dia, no meu colo, com o mesmo interesse com que perguntavas como tinha sido o meu. Era um momento de troca, momento de dar as mãos e ficarmos a falar. Tu rias-te dos meus disparates e eu sorria por ter alguém ao meu lado a rir comigo. Fazias-me bem! Com o tempo, as trocas deixaram de ser rotineiras e começámos a falar de nós, de um e do outro. Falava-se dos sonhos, das viagens, dos medos. Falava-se de passado e de futuro para que um presente pudesse ser construído. Dávamos mundo um ao outro. 

A medo, o primeiro beijo aconteceu. Sentados no chão da sala, chegaste até mim e tocaste-me. Respeitaste-me como nos ensinaram que príncipes respeitam princesas. O beijo aconteceu, a linguagem era universal e entendemo-nos como se de dois conhecidos de longa data se tratasse. Disseste-te surpreendido. E eu partilhava do mesmo estado de alma. 

No dia seguinte, voltaste a aparecer. Vieste mais cedo. Em conversa, perguntaste se podias dormir comigo. Que pergunta tão descabida! Que abuso tremendo achares que não poderias dormir ao meu lado. Tivesses tu perguntado antes e a resposta seria a mesma: SIM, CLARO QUE SIM!

dormir_junto

Deitámo-nos na sala. Descobrimos o corpo um do outro da mesma forma como nos fomos conhecendo. Era um corpo novo, mas parecia-me tão familiar. Sentia-me tão seguro nele. Uma grande senhora, entendida na matéria, diz que o sexo não é algo que se faz, mas sim um sítio para onde se vai. E nós fomos! Fomos para um sítio longe, quente e leve. Fomos para um sítio sem tempo, onde não havia nada mais além de nós e da brisa que refrescava os nossos corpos suados. Foi a nossa primeira vez. E que primeira vez...

O tempo foi passando, os encontros foram ganhando outros contornos, foram-se tornando mais pessoais. O último deles, talvez o mais especial de todos, foi marcante.

Estávamos cansados. O dia tinha sido longo, a energia não era muita, mas havia vontade de estarmos juntos. Perguntaste se podíamos apenas dormir. Fico parvo. Tens tanto de atraente como de tonto! Que pergunta tão tonta!! A vida é muito mais do que sexo, corpos suados e aventuras. A vida também é feita de momentos calmos e delicados. Quiseste a minha companhia no banho. Naquela noite, a melodia que enchia a minha casa era mais serena. As canções falavam de amor, de desgostos ou conquistas, mas sempre de amor. Foi ao som dela que nos abraçámos, enquanto a água escorria por nós. Ao som da mesma banda sonora, deitámo-nos. Não fosses tu mais alto e ficava eu da parte de fora da concha. Mas também sabe bem ser protegido, ser acarinhado. Diz quem sabe que o importante é ir havendo troca de papéis para que tudo se mantenha equilibrado. Neste momento, ao teu lado, não podia concordar mais.

Já deitados e abraçados, continuámos a falar de nós. Tão bom sentir aquele interesse. Tão bom haver uma cama de solteiro que ganha espaço quando duas pessoas se encaixam daquela forma. Foi uma noite especial. Tão especial que deixou saudades no dia seguinte. Tão especial que não penso noutra coisa que não seja os meus dedos entrelaçados aos teus. Tão especial que sempre que me deito, te desejo ali, à minha espera, para me abraçares e embalares. 

Não sei se tem nome o que sinto, mas sinto que ao teu lado eu sou mais!

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