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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Rituais

29.12.18, Miguel Oliveira

No seu sentido figurado, um ritual define-se como "um conjunto de regras ou procedimentos que devem ser seguidos num ato solene ou formal" (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Por outras palavras, podemos dizer que um ritual é aquilo que executamos individualmente, a pares ou em grupo, carregado de valor simbólico.

Porém, serão os rituais importantes na nossa vida quotidiana? Considero que sim. Por um lado, fornecem-nos um traço mais grosso do que somos enquanto indivíduos e enquanto elementos de um sistema. Dão-nos forma. Por outro, se tendemos a colocar em prática aquela atividade é porque nos é prazerosa, porque contribui para o nosso bem estar e tem um significado importante para nós. Por exemplo, em muitas famílias o jantar é um momento importante, por ser a única altura do dia em que se podem reunir tranquilamente à volta de uma mesa. Para alguns jovens, quando inseridos num grupo de amigos, pode ser importante irem lanchar ou conviver a seguir a um exame ou frequência. Numa relação amorosa, o sábado à noite pode ser o momento do casal, quando este se encontra mais disponível ora para uma ida ao cinema, um passeio ou um jantar. Mas mesmo sozinhos podemos ter os nossos rituais, como por exemplo escrever em jeito de introspecção ao fim de cada ano ou fazer uma viagem sozinhos, todos os anos, para um novo país. Seja como for, os rituais atribuem especificidade e unidade a cada um de nós, seja a nível mais pessoal ou grupal.

Dentro dos rituais, interesso-me especialmente por aqueles que são vividos a dois, no seio de um relacionamento. Acredito que é (também) na construção e vivência de rituais que se dá força à relação, que se fortalecem as ligações e que tornamos único o que vivemos com alguém. 

Há cerca de dois meses fui a um congresso centrado nas crises que o amor enfrenta, na atualidade. Nele, uma conceituada terapeuta de casal partilhou o que aconselha a todos os casais que a procuram: sempre que um membro do casal chega a casa, o outro deverá largar tudo o que está a fazer e receber o parceiro num abraço tão carinhoso e tão duradouro quanto o outro precisar, até que deixe tudo o que traz consigo fora de casa.

Quantas vezes vimos imbuídos nas chatices e confusões do dia a dia, despejando tudo em cima do outro, assim que chegamos a casa? Quantas vezes um membro do casal é o saco de boxe do outro, num momento de descompressão depois de um dia duro? "Obrigando" o outro a acalmar, deixando fora de casa as arrelias que a ela não pertencem pareceu-me um momento muito especial, como se recebêssemos alguém (ou alguém nos recebesse) com tudo o que tem, num momento de puro carinho e conforto.

Este é só um exemplo daquilo que poderá ser feito quando se chega a casa ou numa outra circunstância qualquer. Precisamos de encarar as nossas relações com mais respeito, com mais importância, onde o cuidar deve ser um ritual a seguir. 

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