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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

(s)Em rede

23.09.18, Miguel Oliveira

Todos sabemos que o mundo hoje em dia é feito de conexões. Estamos constantemente ligados e o nosso smartphone é o fiel companheiro de todas as horas. Nele, temos tudo, sobretudo com as redes sociais, que nos permitem manter contacto com amigos, familiares, conhecidos, famosos e até estar a par de tudo o que acontece nos grupos de trabalho. Num instante, com apenas meia dúzia de cliques, conseguimos saber tudo o que queremos, seja sobre o que for ou sobre quem for. 

No entanto, no outro dia, numa entrevista, ouvi algo que ainda não me tinha ocorrido, pelo menos de forma consciente. O entrevistado dizia que não usa redes sociais e que o deixou de fazer porque além das suas vantagens, as redes sociais tiravam a magia de um primeiro encontro, do começo de algo novo. Segundo ele, quando nos encontramos pela primeira vez com alguém, graças às redes sociais e ao facto de ser o primeiro contacto direto que temos com aquela pessoa, já levamos uma ideia feita sobre ela, porque vimos as fotos que publica, os sítios que frequenta, com quem se dá, etc. Confesso que nunca me tinha ocorrido mas de facto acredito que isso aconteça. Pelo menos comigo já aconteceu (e acredito que isto aconteça não só com pessoas por quem possamos ter algum interesse íntimo, sexual ou de amizade, mas também em termos profissionais. Vamos aceitar numa empresa que segue um padrão rigoroso de valores e de ética de conduta alguém que coloca fotos de nu integral ou que frequenta locais "pouco recomendados"?! É melhor não...). Temos ali “tudo” à nossa frente: as poses, os efeitos, as companhias, os locais, os momentos que resolve partilhar, as legendas que acompanham cada publicação que, em última instância, podem ser um vislumbre da forma de pensar e estar na vida daquela pessoa. Recebemos muita informação, ainda que filtrada, mas é informação "fidedigna", pelo menos por ter sido partilhada pela pessoa que estamos prestes a conhecer. E na lógica do que uma professora costumava dizer, não podemos negar algo que sabemos, e não nos é fácil ir conhecer alguém desprendidos de qualquer ideia, depois de tamanha recolha de informação. E por muito que se tente fazer o oposto, facilmente delineamos um perfil para a pessoa, formamos as mais variadas ideias sobre ela, indo a um primeiro encontro com uma série de considerações elaboradas do ar porque, em bom rigor, nem a conhecemos. Perde-se parte da magia e da curiosidade sobre aquela nova pessoa, quem é, o que gosta, o que faz e o que já viveu. Criam-se expectativas, imagens e rótulos que interferem no único momento em que poderíamos tecer qualquer tipo de consideração: o momento em que estamos frente a frente com a pessoa. E com este processo também nós mudamos. Mudamos porque já criámos uma imagem, já a delineamos e preenchemos com meias verdades, filtrando o que damos porque já "sabemos" o que podemos receber, porque já a "lemos", já a "sentimos" e "interpretámos". 

Peço desculpa se esta descrição não acontece desse lado. Talvez seja eu muito influenciável e ainda bem que o mesmo não acontece convosco. Porém, no fim desta entrevista, fiquei a pensar em quem já tinha conhecido e antes de estar olhos nos olhos com a pessoa, já a tinha olhado e pensado. Daqui percebi que se perde a liberdade e a genuinidade de um primeiro encontro, sempre rico e recheado de novidade. Vivemos em rede mas, na verdade, sem rede nenhuma.