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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Sem rótulo, por favor

17.04.19, Miguel Oliveira

Aprendemos na escola que os adjetivos são palavras que caracterizam os nomes, indicando-lhes qualidade, defeito, estado ou condição. Por outras palavras, adjetivos são palavras que colocam "peso" em cima dos nossos ombros, quer sejam positivos ou negativos. E é esse peso que colocamos aos nossos ombros quando decidimos rotular tudo e mais alguma coisa.

Rotulamos tudo num abrir e fechar de olhos. De imediato, dizemos que aquela experiência foi "boa" ou "má"; que tivemos um "bom dia" ou um "dia terrível"; que terminarmos aquela relação nos deixa na "pior fase da nossa vida", etc. O esquema é simples: há um acontecimento -> rotulamo-lo -> passamos a interpretar a situação com base no rótulo atribuído e agimos em conformidade, o que faz com que sejamos excessivamente emocionais e não olhemos de forma objetiva para os acontecimentos.

É natural que haja uma reação emocional a um determinado acontecimento. É natural que fiquemos excitados e queiramos gritar ao mundo o quão "maravilhoso" foi o nosso dia, da mesma forma que é natural que choremos e nos deixemos levar pela dor do momento, quando alguma coisa corre "mal". Somos humanos, seres dotados de racionalidade e sensibilidade, mas há que haver equilíbrio. 

O exercício que tenho procurado executar nos últimos meses, perante um qualquer evento que ocorra e me toque, quer positiva quer negativamente, é encarar aquele evento como uma experiência, uma ocorrência. Procuro não rotular. Procuro não dar nome ao que me aconteceu. Procuro, na medida do possível e com o tempo necessário, olhar para a situação como quem olha para uma peça de arte, em busca de um entendimento, em busca de um fio condutor que permita a sua interpretação. Dessa forma, olho "cruamente" para o que aconteceu, tentando perceber o que realmente está em causa, que importância e peso é que aquela situação tem, efetivamente, na minha vida. 

Este é um exercício que exige dedicação, que se vai aperfeiçoando com o tempo e com prática mas é, acima de tudo, um exercício que tende a tranquilizar-nos e a permitir que não atribuamos desmedidamente tamanho e importância aos eventos. Nas palavras do psicólogo Rafael Santandreu, perante uma qualquer situação que te aconteça, pergunta a ti mesmo "Em que medida é que o que me aconteceu (ou pode vir a acontecer) me impede de realizar ações válidas por mim e pelos outros?". Segundo o autor, esta é uma forma mais objetiva e construtiva de avaliarmos os acontecimentos que nos vão surgindo e, consequentemente, uma forma de cuidarmos de nós e do nosso bem estar psicológico. 

Não temos de negar a nossa capacidade sensitiva nem de ser "frios". Devemos, isso sim, procurar estratégias que nos façam sentido e nos ajudem a interpretar o mundo com maior leveza. 

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