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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Sex toys: vamos brincar?

21.11.18, Miguel Oliveira

Nas palavras da psicóloga clínica e sexóloga Alexandra Carvalheira, autora do livro "Em defesa do erotismo", as fantasias sexuais são como as impressões digitais, cada um tem as suas, mais ou menos elaboradas, mais ou menos ficcionadas, passíveis de serem realizadas ou não. Porém, todas elas têm a função de "recriar e elaborar as vivências sexuais com o objetivo da excitação sexual", afirma a autora. 

Cada pessoa é detentora do seu património erótico, uma espécie de arquivo onde colecionamos fantasias, sensações, memórias e cheiros de caráter erótico. Surge, assim, o erotismo como "aquilo que a imaginação acrescenta à natureza". Estas parecem-me ser ideias essenciais para princípio de conversa, com o objetivo de clarificar as nossas cabeças e as nossas conversas, empregando naturalidade ao que é natural, ao que é humano. A imaginação não tem limites, faz parte de todos nós e é um dos componentes principais do erotismo, essa chama que acende o desejo sexual. 

Autorizada que está a liberdade da minha imaginação e criatividade (sexuais), passo ao assunto principal deste texto - os sex toys (brinquedos sexuais).

Antes de qualquer outra coisa, lanço a questão: já visitou uma sex shop, em loja física ou loja online? Curioso por natureza, só mesmo para ter conhecimento de causa, devia ter os meus 16/17 anos quando visitei uma pela primeira vez. São um mundo. Se não conhece, existem várias lojas online, onde a timidez e a vergonha de dar uma espreitadela não têm lugar. 

Agora, uma pergunta que só me lembro de fazer a duas pessoas com quem tenho muita confiança, mas que mesmo assim me causou algum desconforto no momento de a fazer: já usou um brinquedo sexual?

Já por aqui partilhei que o sexo tem vindo a ser banalizado, estando presente em novelas, filmes, livros, programas de televisão, etc. Conseguimos falar de sexo com alguma naturalidade, sobretudo quando as pessoas pertencem à mesma faixa etária. Nos mais novos, penso que é ainda mais fácil de falar, sobretudo nas primeiras experiências sexuais, com um pouco de vaidade até, onde a "nossa primeira vez" constitui um marco que tende a ser partilhado. E aqui não vou entrar em questões de género, porque sexo é sexo e é uma necessidade fisiológica para todos. Mas então, não estará aqui a maior porta de entrada para a nossa intimidade? Falamos da nossa maior conquista íntima com grande naturalidade, mas somos incapazes de falar abertamente sobre brinquedos sexuais, meros acessórios que dão cor e vida às nossas fantasias? Falar de dildos, vibradores ou algemas não é "coisa de tarado". Pode, isso sim, ser uma realidade que faça sentido a umas pessoas e não a outras, consoante os seus desejos e fantasias. E sim, sei que as questões sociais e culturais, nomeadamente no que diz respeito ao papel de género e às orientações sexuais, têm muito impacto nesta temática. Mas porquê? Falta de informação? Falta de conhecimento? Será que falta chegar informação como esta a mais casas? 

E desengane-se quem pensa, como eu julgava, que isto dos brinquedos é algo recente. Uma antropóloga brasileira que se dedica a este assunto descobriu referências a objetos sexuais, de madeira ou couro, com a forma do órgão genital masculino, no século III. Mais próximo da nossa realidade, no início do século XX, os vibradores eram aconselhados por médicos americanos como prendas que os maridos deviam oferecer às esposas. 

É já depois da segunda metade do século XX, com o aparecimento das sex shops, que surge a noção de sex toy, definido como um acessório, um elemento adicional que serve para divertir. E é apenas isto: um acessório, de entre muitos, onde as suas formas, cores e materiais convidam a outras possibilidades de fantasias. Independentemente da orientação sexual, sozinho(a) ou com parceiro(a) sexual, os brinquedos sexuais são meros auxiliares de prazer e diversão. Foram criados com esse intuito. Não vamos complicar o que não é complicado. A maldade das coisas está na mente das pessoas, como dizem as gentes do Norte, por utilizarem asneiras na sua comunicação.

Vamos a um exemplo dos meus que, para quem não sabe, são sempre ao lado daquilo que é o foco da conversa: as lojas de bijuteria têm brincos, colares e pulseiras. Existem peças masculinas e femininas. Usa quem gosta, quem se identifica com o acessório e faz as combinações que julga adequadas à sua imagem. Há quem os use a todos e quem use apenas um. Há quem os use todos os dias,  com alguma regularidade ou quem os coloque uma vez por festa. Com os brinquedos sexuais é exatamente a mesma coisa. 

Se me dizem alguma coisa? Dizem!

Se todos temos que os usar? Não!

Se tem de haver constrangimento ao falar neles? Nem pensar!