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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Sexualidade(s)

05.09.18, Miguel Oliveira

Celebrou-se ontem, dia 4 de setembro, o Dia Mundial da Saúde Sexual e o jornal Público apresentou os resultados de um estudo feito em Portugal. Conclusões? 40% dos portugueses assumem ter problemas sexuais. Noutro jornal, no Expresso, é feito um retrato da vivência da sexualidade em Portugal. No vídeo ("Saúde sexual: Temos mesmo de falar sobre isto") são apresentados os resultados de uma investigação feita com portugueses, abordando questões como o tempo médio da relação sexual, a avaliação do desempenho sexual e o desejo sexual sentido. 

Falar abertamente sobre sexo parece que ainda é um pouco tabu, apesar da grande visibilidade que a temática tem em tudo à nossa volta, desde séries, filmes ou livros. Somos capazes de dizer, protegidos pelo tom de brincadeira, que "até os bichinhos gostam", mas sempre que a temática surge noutro contexto, parece vir acompanhada de algum prurido e um tom de voz mais trémulo, mesmo entre amigos. Mas é preciso falar de sexo, da vivência da sexualidade e da forma como esta temática (tão importante) é discutida pelos casais. 

Arrisco-me a dizer que as relações amorosas são um pack completo, envolvendo não só estabilidade e romantismo, mas também a existência de uma satisfação emocional e sexual. Porém, estas não são dimensões definidas da mesma forma por todas as pessoas (muito menos de casal para casal) nem tão pouco apresentam a mesma importância para cada par conjugal. Ora, como em tudo na vida, é necessário que os casais comuniquem (e/ou aprendam a comunicar) sobre todas estas questões (não sendo esta "a" solução infalível, é a este aspeto importante que agora me refiro). Parece-nos claro que um casal discuta se é muito ou pouco "meloso", se gosta ou não de surpresas românticas, se fazem muita ou pouca coisa juntos, entre outras coisas, mas fico com a sensação de que não se fala muito sobre a vivência da sexualidade. Do que vou lendo, ouvindo e até da minha experiência pessoal, fico com a ideia que se fala (mais ou menos) abertamente de sexo no início da relação, onde a paixão e o desejo sexual iniciais exigem o levantamento das questões. Conseguimos partilhar algumas experiências anteriores, algumas fantasias, trocar uma ou outra posição sexual preferida, tudo porque é importante conhecer os gostos do(a) parceiro(a), a fim de agradarmos. E quando o tempo passa? E quando as relações vão passando para patamares superiores, onde outras questões são valorizadas e intensificadas? Ainda se fala sobre sexo? Ainda há disponibilidade/abertura para que se diga (e se seja ouvido sobre) o que se gosta e o que não se gosta? Conseguimos dizer, com frontalidade e firmeza, o que queremos que continue igual e o que queremos que mude porque não estamos satisfeitos? Arrisco-me a dizer que na maioria dos casos não, sobretudo porque as questões de falta de desejo sexual ou o fingimento dos orgasmos, por parte do sexo feminino, não são resultados só de agora. 

Vivemos numa época bastante sexual (esta é apenas uma opinião pessoal), mas tirando a concretização do ato, enaltecido e sobrevalorizado, pouco mais é falado. Consequências disso? Casais sem intimidade. Casais que procuram ajuda profissional devido à insatisfação sexual. Casais que se separam porque encontram fora a chama e o desejo que se perdeu dentro de casa. As pessoas têm gostos e necessidades diferentes. Têm um historial sexual diferente, marcado por experiências diversas. Todas as pessoas são diferentes e o que é bom e suficiente para uma, pode ou não ser suficiente para outra, ainda que seja bom. Se temos alguém ao nosso lado, temos que o conhecer, saber o que gosta, como gosta, o que precisa, em que quantidade/intensidade, etc.

Costumo dizer que dou exemplos muito inapropriados para retratar as situações, mas pense comigo: se não perguntarmos a uma criança qual o sabor do gelado que mais gosta, como é que lhe vamos satisfazer o desejo? Se não perguntarmos a um professor quais as orientações para a formatação de um trabalho, quais são as hipóteses de obtermos uma boa nota sem sermos penalizados por termos feito tudo ao lado? Não será igual na vivência da sexualidade do casal? Se um não fala sobre a sua insatisfação e o outro nada pergunta, tudo vai continuar na mesma, até ao dia em que terminam as relações sexuais, eventualmente (sim, sou exagerado por natureza, mas acontece!). 

Tal como é referido no vídeo acima mencionado, é necessário que se comunique sobre o que se gosta e o que não se gosta, que se partilhem receios e vontades, inquietações e fantasias. A vivência da sexualidade num casal é uma dimensão importante, que deve ser alimentada e explorada como qualquer outra dimensão/temática. 

Não existe a sexualidade, existem múltiplas "sexualidades", cada pessoa com a sua, cada casal com a sua, algo que é construído (e destruído) a quatro mãos.