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ÂNCORA DE PAPEL

ÂNCORA DE PAPEL

Síndrome da figura pública

"Foi tão bom, tão bonito, tão completo que a gente nem fotografou, nem localizou, nem postou. Apenas viveu!"

 

O novo ano trouxe-me um novo olhar sobre as redes sociais ou, pelo menos, um à vontade maior de afirmar o que já há algum tempo pensava. No tempo dos diretos e das stories, as redes sociais são um elemento presente na vida de qualquer um, deixando de ser algo que apenas diz respeito à malta nova. Para uns é uma ferramenta de trabalho, para outros um hobby ou ainda uma ocupação. O que é certo é que elas fazem parte do nosso dia a dia e se queremos saber alguma coisa, é a elas que recorremos. 

As redes funcionam quase como o espelho da nossa vida, o álbum de memórias do nosso dia a dia. Se aconteceu, está lá publicado. Se não está, é porque não aconteceu nada na vida daquela pessoa. Era esta a ideia que me vinha a acompanhar há já algum tempo. Uma quase obrigação de partilharmos, de retratarmos o momento, de mostrarmos o que fazemos, onde estamos e com quem estamos. Caso contrário, não temos vida nem somos gente. É um exagero, eu sei, mas é muito isto que sinto. 

As redes sociais estão repletas de corpos sem rosto, de copos ao alto, mesas com vários pratos de sobremesa e de pernas entrelaçadas numa cama de um qualquer quarto ou hotel. De todos estes acontecimentos, na grande maioria das vezes, apenas conhecemos a identidade de um dos intervenientes. E não é em vão. Não precisam de nos dizer com quem estão, até porque o objetivo é simples: mostrarem ao mundo que não estão sozinhos, que fazem e acontecem. O importante é partilharem a "felicidade", a "alegria" e a imensa capacidade de "serem sociais". No fundo, com um jeito subtil e muito filtrado, gritam ao mundo: "E tu, tens disto? Toma e embrulha!". 

Talvez fosse útil repensarmos a nossa conduta. Talvez nos fizesse bem preservarmos o que é nosso, a nossa intimidade, que é algo bem mais lato do que a pessoa com quem dormimos. E porquê? Porque qualquer dia sofremos do Síndrome da figura pública: partilhamos tudo, deixamos que nos entrem em casa, nas férias, nas relações, nos aniversários e na nossa rotina mas, de forma imperativa, queremos que não se metam na nossa vida. Como não nos metermos na vida de alguém que está de portas abertas à distância de um deslizar de dedos? Além disso, existe um pormenor de relevo: partilhamos tudo, de forma inocente, até, mas não sabemos onde a informação chega e o que pode ser feita com ela. Alarmismo? Exagero? Talvez. Ou então, talvez seja até ao dia em que nos acontece aquilo que pensamos que só acontece aos outros. 

Não temos de acabar com as redes sociais nem precisamos de desativar perfis. Podemos, em vez disso e daquilo que fazemos em modo "piloto automático", resfriar os ânimos, pensar no porquê das coisas e sermos comedidos. Nada, por si só, é prejudicial. Tudo depende do uso que damos às coisas.

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