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ÂNCORA DE PAPEL

ÂNCORA DE PAPEL

O casal do lado

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Estão sentados ao meu lado. Aparentam estar na casa dos 30 anos. Parecem serenos. 

As luzes da sala vão diminuindo lentamente. A sala fica escura. Pouco depois, no palco, a iluminação faz-se sentir. Olho para o lado e lá estão eles, de mãos dadas, virados um para o outro. Nunca lhes consegui ver os rostos, mas já que os corpos também falam, percebi que os deles gritavam amor.

Foram duas horas de concerto. Duas horas de abraços, de mãos dadas, de carícias trocadas e de sensações partilhadas um com o outro. Sempre que os músicos exigiam, o público levantava-se e os meus fiéis companheiros daquela noite, o casal do lado, envolvia-se numa dança sincronizada e apaixonada. Só podia ser amor. Não sei se um amor recente, em que a paixão faz com que tudo seja intenso, onde o mais simples parece ser o mais inacreditável dos momentos, ou se seriam um casal daqueles que podemos ler nos livros, dos casais felizes, que tudo fazem para se respeitarem e cuidarem de algo que resolveram criar. Seja como for, foram duas horas de amor ao meu lado. Um amor que se vê na carícia, na simplicidade, na partilha, na dádiva genuína. Um amor suficiente. Um amor sem explicação. Um amor que, apesar de todos os altos e baixos, lá vai continuando com a certeza de que é por ali o caminho. Um amor que nos serve de abanão para acordar para aquilo que queremos, para aquilo que achamos ser o nosso propósito, para aquilo em que acreditamos e que, não raras vezes, as paixões não correspondidas nos fazem perder a noção. 

Se houvesse uma disciplina nas escolas sobre isto, podia ser a OPT ("Olha Por Ti") a figurar nos horários escolares. Se fosse coisa de gente crescida, então que a OPT surgisse nas nossas agendas com regularidade. Não nos podemos esquecer do que temos para dar, do que queremos dar e do que merecemos receber. Não nos podemos deixar afundar em paixões vazias que nada nos acrescentam. Não nos podemos deixar levar por cantigas mal cantadas, versos ocos e desprovidos de sinceridade. Não nos podemos deixar influenciar por caminhos rápidos que não são os nossos, ainda que desconfiemos se serão ou não. Temos de ir mais vezes à OPT. Temos de ver mais vezes casais do lado. Só assim manteremos presente o que nos faz sentido, o que realmente almejamos e o que verdadeiramente nos faz sorrir. 

Sexualidade(s)

Celebrou-se ontem, dia 4 de setembro, o Dia Mundial da Saúde Sexual e o jornal Público apresentou os resultados de um estudo feito em Portugal. Conclusões? 40% dos portugueses assumem ter problemas sexuais. Noutro jornal, no Expresso, é feito um retrato da vivência da sexualidade em Portugal. No vídeo ("Saúde sexual: Temos mesmo de falar sobre isto") são apresentados os resultados de uma investigação feita com portugueses, abordando questões como o tempo médio da relação sexual, a avaliação do desempenho sexual e o desejo sexual sentido. 

Falar abertamente sobre sexo parece que ainda é um pouco tabu, apesar da grande visibilidade que a temática tem em tudo à nossa volta, desde séries, filmes ou livros. Somos capazes de dizer, protegidos pelo tom de brincadeira, que "até os bichinhos gostam", mas sempre que a temática surge noutro contexto, parece vir acompanhada de algum prurido e um tom de voz mais trémulo, mesmo entre amigos. Mas é preciso falar de sexo, da vivência da sexualidade e da forma como esta temática (tão importante) é discutida pelos casais. 

Arrisco-me a dizer que as relações amorosas são um pack completo, envolvendo não só estabilidade e romantismo, mas também a existência de uma satisfação emocional e sexual. Porém, estas não são dimensões definidas da mesma forma por todas as pessoas (muito menos de casal para casal) nem tão pouco apresentam a mesma importância para cada par conjugal. Ora, como em tudo na vida, é necessário que os casais comuniquem (e/ou aprendam a comunicar) sobre todas estas questões (não sendo esta "a" solução infalível, é a este aspeto importante que agora me refiro). Parece-nos claro que um casal discuta se é muito ou pouco "meloso", se gosta ou não de surpresas românticas, se fazem muita ou pouca coisa juntos, entre outras coisas, mas fico com a sensação de que não se fala muito sobre a vivência da sexualidade. Do que vou lendo, ouvindo e até da minha experiência pessoal, fico com a ideia que se fala (mais ou menos) abertamente de sexo no início da relação, onde a paixão e o desejo sexual iniciais exigem o levantamento das questões. Conseguimos partilhar algumas experiências anteriores, algumas fantasias, trocar uma ou outra posição sexual preferida, tudo porque é importante conhecer os gostos do(a) parceiro(a), a fim de agradarmos. E quando o tempo passa? E quando as relações vão passando para patamares superiores, onde outras questões são valorizadas e intensificadas? Ainda se fala sobre sexo? Ainda há disponibilidade/abertura para que se diga (e se seja ouvido sobre) o que se gosta e o que não se gosta? Conseguimos dizer, com frontalidade e firmeza, o que queremos que continue igual e o que queremos que mude porque não estamos satisfeitos? Arrisco-me a dizer que na maioria dos casos não, sobretudo porque as questões de falta de desejo sexual ou o fingimento dos orgasmos, por parte do sexo feminino, não são resultados só de agora. 

Vivemos numa época bastante sexual (esta é apenas uma opinião pessoal), mas tirando a concretização do ato, enaltecido e sobrevalorizado, pouco mais é falado. Consequências disso? Casais sem intimidade. Casais que procuram ajuda profissional devido à insatisfação sexual. Casais que se separam porque encontram fora a chama e o desejo que se perdeu dentro de casa. As pessoas têm gostos e necessidades diferentes. Têm um historial sexual diferente, marcado por experiências diversas. Todas as pessoas são diferentes e o que é bom e suficiente para uma, pode ou não ser suficiente para outra, ainda que seja bom. Se temos alguém ao nosso lado, temos que o conhecer, saber o que gosta, como gosta, o que precisa, em que quantidade/intensidade, etc.

Costumo dizer que dou exemplos muito inapropriados para retratar as situações, mas pense comigo: se não perguntarmos a uma criança qual o sabor do gelado que mais gosta, como é que lhe vamos satisfazer o desejo? Se não perguntarmos a um professor quais as orientações para a formatação de um trabalho, quais são as hipóteses de obtermos uma boa nota sem sermos penalizados por termos feito tudo ao lado? Não será igual na vivência da sexualidade do casal? Se um não fala sobre a sua insatisfação e o outro nada pergunta, tudo vai continuar na mesma, até ao dia em que terminam as relações sexuais, eventualmente (sim, sou exagerado por natureza, mas acontece!). 

Tal como é referido no vídeo acima mencionado, é necessário que se comunique sobre o que se gosta e o que não se gosta, que se partilhem receios e vontades, inquietações e fantasias. A vivência da sexualidade num casal é uma dimensão importante, que deve ser alimentada e explorada como qualquer outra dimensão/temática. 

Não existe a sexualidade, existem múltiplas "sexualidades", cada pessoa com a sua, cada casal com a sua, algo que é construído (e destruído) a quatro mãos. 

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