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ÂNCORA DE PAPEL

ÂNCORA DE PAPEL

"Pais e namorados" (Jesper Juul)

O mote é simples mas bastante poderoso - "As famílias precisam de pais que pensem mais em si próprios". 

Pais e namorados

Não é preciso estudar a área para perceber que cada etapa da nossa vida vai trazendo consigo novos desafios, exigindo dos intervenientes novos comportamentos e responsabilidades. Assim, quando um casal passa a ser também par parental, surgem novos desafios, novas rotinas, novas crises e novas oportunidades de mudança. 

Nas "Leituras" de hoje trago este livro que achei maravilhoso! Com uma postura assertiva e bem documentado com casos reais, o conferencista e terapeuta familiar Jesper Juul procura oferecer "um guia prático para os pais aprenderem a encontrar tempo para ser pais... e namorados". O autor reconhece que "existe uma grande pressão social para os pais colocarem as necessidades dos filhos à frente das suas; mas se o casal não cuidar da sua relação, o efeito que isso tem nas crianças pode ser devastador". Assim, adverte para que os parceiros se aceitem mutuamente, respeitando que são pessoas diferentes e que se comportam de forma distinta. Essas diferenças são o resultado de todas as experiências de vida e da personalidade, e "existindo pais que se tratam com empatia e respeito, os filhos irão aprender que as pessoas são diferentes e que isso não é o problema.". 

"A felicidade da relação é a felicidade da família", "Crescer em conjunto na adversidade", "Unha com carne: a ligação intuitiva e o que ela faz à relação" e "Quando é que a separação é o melhor caminho?" são os tópicos sobre os quais são lançadas questões e tecidos comentários. 

Um livro reflexivo para namorados e pais enamorados.

Papéis e papás

António sempre foi o palhacinho da família. Desde pequeno que fazia rir todos à sua volta. Na escola era o mestre das situações inusitadas e das gargalhadas. Cresceu, formou-se e hoje é advogado, profissão que exigiu de António um lado mais sério e concentrado. 

Somos seres humanos, seres inseridos numa sociedade com a qual vivemos. Nela, temos múltiplos papéis, diferentes funções em variadíssimas circunstâncias. Somos filhos, irmãos, colegas, profissionais, amantes, amigos, pais. Cada circunstância, cada momento exige de nós um papel, um determinado comportamento, uma postura que tem de ser adequada àqueles que nos rodeiam. Imaginam o palhacinho do António a contar anedotas numa audiência? Talvez não. Mas não deixa de poder ser uma pessoa extrovertida e que aplica os seus dotes no seio de amigos e da família, certo? Apenas tem de se adequar ao local em que se encontra e ao papel que ocupa. O exemplo deste António é apenas isso, um exemplo para falar de algo bem mais sério. 

Ontem, na TVI, foi transmitida uma reportagem que procurava abordar a questão dos divórcios e da violência doméstica, levantando-se a questão de os filhos serem também vítimas da mesma violência, pelo facto de estarem envolvidos e presenciarem as guerras dos pais. Pois bem, é sobre pais que quero falar. 

Duas pessoas começam uma relação. Neste momento, forma-se um casal. Posteriormente, existe a possibilidade de este casal querer alargar a sua família e querer ter filhos. Quando tal acontece, o casal passa também a desempenhar a função de pais. Aquelas duas pessoas, que inicialmente tinham recebido o papel de serem companheiras uma da outra, agora receberam um novo papel - o de serem responsáveis por alguém.

É comum ouvir-se dizer, sobretudo aquando do nascimento do primeiro filho, que os recém papás não se podem esquecer que também são um casal, devendo olhar por si e pelos momentos a dois, pois é importante conciliar todos os papéis. Até aqui acho que está tudo claro e parece ser fácil distinguir as coisas. Porém, tudo se complica quando um casal com filhos se separa. E complicam-se quando existe a dificuldade em diferenciar tais papéis.

O que ali está a terminar é o tal primeiro papel que aquelas duas pessoas assumiram, o de serem companheiras uma da outra, o de terem uma relação amorosa. O que ali se finda é o projeto de vida conjunta que aquelas duas pessoas decidiram começar. Os filhos, aqueles que foram gerados por dois adultos, são e continuarão a ser isso mesmo, filhos. Da mesma forma, aqueles dois seres adultos que agora romperam com a sua união enquanto casal, continuarão a ser pais, estatuto que lhes foi atribuído a partir do momento em que geraram uma criança. É tudo uma questão de papéis.  

Os filhos não escolheram a sua família nem tão pouco o rumo amoroso da relação dos seus pais. Nasceram e a eles deve apenas incumbir-se a tarefa de serem filhos. Aos pais, cabe-lhes a tarefa de proteger, acarinhar e responder, na medida do possível, a todas as necessidades dos filhos. Por outro lado, e porque são coisas distintas, ao casal que agora se desfez resta-lhes resolver o que a eles diz respeito, enquanto ex-casal. Se há guerras entre A e B, devem ser resolvidas entre A e B, sem envolver os filhos. Se um não paga a pensão de alimentos ou o outro agarrou o seu direito de seguir com a sua vida, constituindo uma nova família, isso não deve ser colocado aos ombros de um filho. Não se têm de fomentar e alimentar jogos de rivais entre pais e filhos. Não é preciso A dar mais do que B; B comprar viagens mais caras do que A; A continuar solteiro(a) para mostrar que só quer amar o(a) filho(a) e não outra pessoa. Não é preciso nada disso. Sendo pais, porque o são até morrerem, têm apenas de cumprir o seu papel, permitindo à sua descendência a existência de dois progenitores, num ambiente harmonioso e de qualidade.

 

Quando termina um casamento, termina uma relação amorosa entre dois adultos, e não a obrigação desses dois adultos cuidarem e protegerem os seus filhos. É tudo uma questão de papéis, queridos papás. 

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