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ÂNCORA DE PAPEL

ÂNCORA DE PAPEL

Atração: uma paleta de cores

Todos os dias nos cruzamos com imensas pessoas. Porém, há dias em que nos cruzamos com alguém que mexe connosco, alguém portador de um qualquer magnetismo que nos prende a ela horas sem fim. Chamamos-lhe atração, dizemos que temos borboletas na barriga e suspiramos sem fim, a olhar o vazio, com um sorriso ingénuo e sincero. É isto que vem com a paixão, que vem com a atração por alguém. 

Mas por que é que umas pessoas nos chamam à atenção e outras nada nos dizem? Por que é que umas nos agarram como se tivessem um íman e outras passam despercebidas? Será o seu cheiro? O seu corpo? O sorriso ou o andar?

Muitas (e variadas) são as características que nos levam a sentirmo-nos atraídos por uma pessoa, e de todas as pessoas que vamos conhecendo, não nos atraímos sempre pelas mesmas características. Se cada pessoa está repleta de singularidades, no Manel posso gostar do sorriso alinhado e brilhante, na Maria das suas curvas, no Zé das suas pernas arqueadas e na Amélia das suas mãos finas e sempre bonitas. E se só falo em traços físicos, por algum motivo é. É porque reduzimos a atração ao físico, ao corpo, à imagem e vendemos sonhos cheios de ar e ilusão.

Não acredito em corpos atraentes e corpos não atraentes. Não acredito em corpos de revista que façam suspirar qualquer pessoa, da mesma forma e com a mesma intensidade. Isso não interessa. Na verdade, não é o corpo que interessa. O que realmente importa é o efeito que cada corpo tem em nós. Não é por aquele corpo não nos despertar interesse que se trata de um mau corpo, desprovido de charme e sedução. Apenas não nos diz nada. Acredito que 80 a 90% das pessoas escolham um “bom corpo” como um corpo definido, onde as formas de glúteos e mamas nas mulheres, ou braços e peitorais nos homens estão em destaque. Porém, não temos de gostar todos do mesmo e, mais importante do que isso, não gostamos todos do mesmo! 

Se nascemos com uma fisionomia, com um "tipo de corpo", é esse que devemos explorar. É esse que devemos tratar e alimentar da melhor forma que conseguirmos, para que nos sintamos bem nele e, só depois, usá-lo como complemento à arte de sedução. 

Passamos muito tempo a olhar o outro, como se andássemos todos com um espelho de corpo inteiro ao nosso lado, a olhar para nós e para "a perfeição". Culpamo-nos. Crucificamo-nos. Julgamo-nos em vão. Talvez seja importante que nos aceitemos mais, que nos exploremos mais em vez de nos maltratarmos. Talvez seja importante sermos mais sensíveis e mostrarmos que na paleta de cores que é a arte de sedução, há mais do que o preto ("corpo não atraente") e o branco ("corpo atraente"). Há tons de cinza ("o corpo que me atrai"), há laranjas e amarelos (traços de personalidade), azuis e verdes (formas de estar na vida), roxos e cremes (interesses e sonhos), e tantos, tantos outros tons que vão além do físico e que nos atraem tão fortemente. 

Somos mais do que um corpo. E quem não entender isso, talvez só tenha mesmo o corpo para oferecer a alguém. 

Banho de realidade

Vivemos numa época em que a evolução é rápida, a mudança é permanente e instantânea e somos obrigados a seguir todo o fernezim, todos os jogos, todos os desafios online e tudo aquilo que as mentes brilhantes se lembram de inventar. É um jogo de sim ou não, cuja resposta define se estamos ou não incluídos na sociedade, se somos ou não interessantes. É um jogo em espiral, uma espiral de modas e ilusões sem fim, que nos engole por inteiro. Fora desta espiral ficam a individualidade, o sentido crítico e a realidade. Vivemos a nossa realidade com base num fragmento da realidade dos outros e, muitas vezes, sem darmos conta que isso acontece.

Pense comigo: lembra-se quando íamos aos casamentos e tirávamos fotografias ora à saída da igreja, ora na quinta do copo de água, ora nos momentos de pausa, muito divertidos e de estômago aconchegado? De volta e meia lá vinha o fotógrafo de máquina em punho, pronto a disparar mais umas dezenas de flashes no meio dos convidados. Horas depois, ao fim do dia, surgia de novo, mas com aqueles painéis repletos de fotografias, prontas a serem escolhidas para serem reveladas (peço desculpa se esta é uma visão retrógrada dos casamentos, mas já não vou a nenhum há muito tempo e a última vez que fui era assim). A questão é: que fotografias escolhíamos? Por que razão teríamos de escolher duas ou três fotografias e não eram reveladas todas aquelas em que estávamos presentes? Em todas elas estávamos nós, com tudo aquilo que somos, de bom e menos bom. Então por que razão existia uma seleção? A resposta mais óbvia deve ser por questões financeiras, que os fotógrafos trabalham bem mas também são bem pagos. Por outro lado, selecionávamos as fotografias porque apenas queríamos aquela(s) que mais gostávamos, onde estávamos mais aprumados, com um melhor sorriso e o cabelo no lugar. Queríamos a melhor das melhores, que retratasse de forma fiel aquele dia de festa, aquele momento especial. Porém, outras questões me surgem: aquele pedacinho de papel brilhante era o retrato da nossa realidade? A pessoa aprumada da fotografia, agora guardada no álbum de família, era a mesma do dia a dia? Em casos muito pontuais diria que sim, que há pessoas na faculdade, por exemplo, da mesma forma como vão a um casamento, mas de resto a resposta é não! Aquela fotografia retrata um momento; simboliza um acontecimento que há de ficar datado e guardado. É o resultado de uma seleção feita de dezenas de momentos de um dia inteiro de festa.

Até aqui acho que não disse nenhuma barbaridade e com arestas mais ou menos limadas, todos se hão de identificar com esta minha descrição. Mas então, se é claro que aquelas fotografias são meros momentos, que vimos e aceitamos com grande naturalidade, porque nos deixamos iludir (e deprimir) com aquilo que chega aos nossos olhos quando entramos nas redes sociais? Não será aquele quadradinho bonito o resultado de uma edição atenta, da aplicação de um ou outro filtro, de uma seleção entre duas ou três (ou até mais) fotografias? A pessoa que colocou aquela paisagem bonita e paradisíaca não está ali toda a sua vida. Sabe Deus, passo a expressão, o que trabalhou e o que teve de abdicar para estar ali. Aquele corpo bonito, atraente e delineado não surgiu do dia para a noite. É o resultado de meses de treino e de uma alimentação mais ou menos cuidada, já para não falar das edições, das poses, dos jogos de luz e da forma certa de colocar a roupa para que se acentuem as formas do corpo. Aquela casa linda, toda arrumada e brilhante só está assim quando é acabada de limpar e de ser arrumada. Experimente olhar para a sua, com pessoas de um lado para o outro, e pense quantos minutos seriam necessários para que aquela imagem idílica se desvanecesse... 

Tal como acontece (ou acontecia) nos casamentos, aquilo que recebemos ao abrir uma aplicação é um momento, o retrato fiel de uma seleção, de um conjunto de escolhas em prol da melhor versão de si ou da sua vida. Só muito pontualmente encontramos alguém carregado de olheiras, a salientar a sua gordura e celulite, a mostrar a quantidade de compras de mercearia que tem para arrumar ou a mostrar o seu quarto desarrumado, pouco iluminado e com a vista para os portões ferrugentos das garagens. Se pensarmos no próprio jogo que fazemos quando publicamos alguma coisa, na seleção que fazemos daquilo que mostramos ao mundo, com mais ou menos edição, com mais ou menos critérios de seleção, não nos deixamos levar tão levemente por uma espiral de ilusões, de mundos glamorosos e vidas fantásticas, onde a nossa fica encostada às boxes, à espera que aconteça um milagre e a nossa triste realidade seja reparada.  

Vamos levantar o cu do sofá e lutarmos por nós, pela melhor versão de nós mesmos, vivendo a realidade tal como ela é, a nossa e a de todos os que nos rodeiam, que todos somos humanos - com dias bons e dias maus, com todos os nossos defeitos e imperfeições. Se sonhar com alguma coisa, sonhe consigo e com aquilo que pode fazer para conquistar o que deseja, e não com a vida de A ou B. Há muito, mas muito mais, para além daquilo que os nossos olhos recebem! 

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