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ÂNCORA DE PAPEL

ÂNCORA DE PAPEL

"E se fosse consigo?"

Considero-me uma pessoa curiosa. Gosto de questionar, de perguntar como e porquê, de saber o que está na origem das coisas. Gosto de ver como já fomos e como chegámos ao que somos hoje. Porém, também gosto de saber como estamos hoje, porque agimos desta ou daquela forma, com esta ou aquela ideia. E é por isso, à semelhança do que já disse noutros posts do blog, como na Sexualidade casa adentro ou no Menu repleto de ingredientes extra, que gosto de lançar questões, que se fale abertamente sobre as coisas para que as consigamos limpar de teias e mitos, para que se possa falar delas sem ser em tom jocoso ou baixinho. 

"E se fosse consigo?" é um bom exemplo disso. Vai na sua terceira temporada, na SIC, e coloca-nos em situações reais, em contexto real, e com a real noção daquilo que é a nossa sociedade. 

Já se falou de racismo, de violência no namoro, de homossexualidade, homoparentalidade e homofobia, do peso da imagem, de assédio e descriminação da pessoa com deficiência, por exemplo. Esta semana foi tempo de dar voz às ideias erradas sobre o HIV e a SIDA. 

São sempre temas atuais, não porque são "moda" ou porque os media resolvem insistir neles, mas porque acontecem todos os dias, em todos os estratos sociais e que nos envolvem a todos nós. E envolvem porque fazemos pouco por eles. Envolvem porque continuamos desinformados ou desatualizados. A base do preconceito é a falta de informação, são os pré-conceitos que temos sobre os temas e que assumimos como verdadeiros, porque se ouviu aqui ou ali. É preciso ir mais fundo nas questões, procurar saber mais, procurar questionar, ouvir e contactar com as situações. Não nos podemos ficar pelo diz que disse ou reféns desta ou daquela situação que vimos e generalizamos. A realidade é complexa, sempre multifatorial e há sempre, mas sempre, bem mais do que aquilo que eventualmente podemos presenciar. 

É por isso que gosto destes programas, que dão nomes às coisas, que procuram saber o que se pensa e como se pensa. Questiona, investiga e clarifica. Precisamos de mentes clarificadas, desempoeiradas e livres, porque hoje pode ser com alguém, mas amanhã pode ser consigo! 

Sexualidade casa adentro

Gosto da Cristina Ferreira. E gosto dela enquanto pessoa, pelo que me é permitido saber sobre a sua pessoa, e enquanto profissional, pelo empenho, pela entrega, pela energia e pelo olhar sincero. Já tive oportunidade de estar com ela mais do que uma vez, e vê-la em off só fortalece o que é no ar. 

Nos seus projetos, que acompanho desde o início, gosto da naturalidade com que procura abordar os assuntos, mais ou menos delicados, porque se existem, então fazem parte da nossa vida e, como tal, devem ser encarados com naturalidade para que não se criem tabus. E o que é que o nome dela tem a ver com sexualidade, o título deste post? A resposta é só uma: naturalidade, a naturalidade com que fala da sexualidade e do que ela envolve. 

Já falou de brinquedos sexuais no seu Programa, assim como perguntou à Filomena Cautela, na sua revista, se tinha e se usava algum brinquedo. Já levou mais do que uma vez sexólogos ao seu Programa para abordar temas relacionados com a intimidade de um casal. Mais recentemente, na sua revista, trouxe o tema da sexualidade na deficiência, onde deu voz a uma mãe, que se viu confrontada com a necessidade de o seu filho, portador de deficiência, se estimular sexualmente e de assistir a pornografia. No mesmo sentido, deu voz à diretora de uma associação que acolhe pessoas com deficiência, onde fica o testemunho, em primeira mão, da importância e da necessidade de se considerar este domínio também em pessoas portadoras de deficiência. 

E porquê o exemplo da Cristina Ferreira? O que tem a ver com o post? Tudo. Porque aborda com naturalidade o que é natural, porque procura dar voz àquilo que ainda é falado baixinho ou em contextos muito específicos, como na área da Psicologia ou da Medicina. Mas não fazemos todos sexo? Não temos todos fantasias sexuais? Não temos todos dúvidas e desejos? Não conhecemos todos alguém portador de deficiência, com maior ou menor proximidade? E é nisso que ela se diferencia.

É através dela que os temas nos entram casa adentro, de forma gratuita, porque basta ter a televisão ligada ou seguir as suas redes sociais para saber do que fala. E ao contrário dos comentários que lhe fazem, de ser "porca", "depravada", "sem nível" ou "ter falta de sexo", o que ela faz é educar, é contribuir para que as coisas sejam chamadas pelos nomes, em horário livre, de acesso a todas as idades, da mesma forma para todas as classes sociais. E não a estou a defender. Nem sou ninguém para tal. Estou apenas a defender a necessidade de se falar de sexualidade, das suas múltiplas formas e de se desmistificar o que não tem de ser mito nem tabu. Só falando é que se esclarece, é que se ganha liberdade para pensar e refletir a mais do que uma voz.

Comprar um objeto sexual não é de alguém depravado. É o mesmo que comprar uma lingerie mais atrevida ou uns boxers mais provocantes. Há quem goste de investir nessas peças e há quem não lhes reconheça utilidade porque se acaba sempre nu. Isso depois é uma opção de cada um. Mas todos servem para o mesmo: contribuir para a intimidade do casal, contribuir para o bem-estar e para a satisfação, individual e/ou conjunta. 

Talvez hoje, porque na maioria das novelas dos diferentes canais existem pares homossexuais, seja mais fácil lidar com a homossexualidade. Estamos na sala a ver a novela e está ali um casal à nossa frente, ainda que ficcionado. Não dá para evitar o assunto. Talvez porque existe um prostituto masculino numa novela, nos seja oferecida a possibilidade de encararmos essa realidade e ganhemos consciência para refletir sobre a sua existência e eventuais desafios. 

É preciso educar. É preciso que se fale, que se mostre o que existe para que sejam alargados horizontes, para que se deixem cair muros e se conheça o que há a nossa volta. Fale-se ou não, as coisas existem, e quanto mais se falar, quanto mais for divulgado, mais fácil é interagirmos uns com os outros, conhecendo um pouco melhor a realidade de cada um e enfrentarmos as coisas como elas são. 

Cultura também é educação, e se há programas de televisão, revistas, filmes, novelas, onde existe visibilidade para esclarecer novelos de confusões e mitos, então que lhes seja sempre dado espaço para isso. 

Obrigado, Cristina!

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