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ÂNCORA DE PAPEL

ÂNCORA DE PAPEL

À distância de um toque

É incrível quando encontramos espelhado num livro algo em que acreditamos e da forma como pensamos, certo? Isto ganha ainda mais força e interesse quando as palavras são proferidas por alguém a quem atribuímos valor e conhecimento. Foi o que me aconteceu ao ler um capítulo sobre sexualidade no casamento, de um conceituado Professor. 

A comunicação é algo inerente a nós, é o nosso veículo, a nossa forma de transmitirmos mensagens. Porém, na maior parte das vezes, usamos os conceitos "a torto e a direito", sem sabermos como realmente se definem e ao que dizem respeito. Acredito que é o que acontece quando falamos (e pensamos) em sexualidade. Por isso mesmo, e à semelhança do autor, trago a definição de sexualidade da Organização Mundial de Saúde - "a sexualidade é uma energia que nos motiva para encontrar amor, contacto, ternura e intimidade; ela integra-se no modo como sentimos, movemos, tocamos e somos tocados, é ser-se sensual e ao mesmo tempo ser-se sexual. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações e, por isso, influencia também a nossa saúde física e mental.". Considero que este post já seria útil só com esta definição, mas vou tecer alguns comentários. 

Quando falamos em sexualidade, independentemente das faixas etárias em causa, o nosso pensamento direciona-se para o coito ou para as nossas posições sexuais preferidas. Isto acontece porque resumimos a sexualidade à penetração e à interação entre os órgãos genitais. Perante tal situação, como afirma o Professor, é natural a existência de um foco no desempenho sexual.

Vejamos um exemplo do que poderia ser uma fofoca entre amigas: "Como correu ontem à noite? O sexo foi bom? Ele é bom na cama?". São perguntas simples, sem maldade aparente, mas que espelham a forma como encaramos este tema e como são proliferadas algumas ideias. O foco é quase sempre colocado no desempenho, na obtenção de prazer pela penetração e pela duração do ato sexual, o que reforça os papéis de género nas relações heterossexuais, em que é colocada no homem a obrigação de satisfazer a parceira, como se o seu pénis fosse a varinha mágica de um bom envolvimento. Privilegia-se, assim, o desempenho em detrimento do momento. É-se muito sexual e pouco sensual. Procuramos ser muito físicos, mas recorremos muito pouco a tudo aquilo que dois corpos podem oferecer para um momento prolongado, intenso e prazeroso, o que é possível de acontecer mesmo sem penetração. 

Estes aspetos ganham ainda mais importância numa relação de longa duração, como nos casamentos, onde a rotina tende a ganhar poder e o envolvimento íntimo fica comprometido. 

A vida adulta é complicada, traz muitas obrigações e exige demasiado de cada um. Numa casa, onde dois adultos são simultaneamente pessoas, cônjuges, profissionais e pais, tudo ganha outros contornos. Por este motivo, o Professor afirma que "o sexo no casamento não é química inesperada, mas intenção valorizada pela imaginação". É preciso criatividade, mistério, sedução e surpresa. É preciso entrega e investimento para criar momentos que as circunstâncias nem sempre deixam que sejam espontâneos. 

Nas relações mais longas é natural que o casal se conheça bem, que saibam muito um do outro, podendo pensar-se que não existe espaço para que nada novo surja, que o outro já não consegue surpreender. Ora, é mesmo aí que se deve intervir - "para levar o desejo para dentro de casa precisamos de repor a distância que tão arduamente nos empenhamos em anular". O tempo passa e as pessoas vão partilhando muito. Tudo é familiar e conhecido. É preciso recuar um pouco, ganhar espaço individual e dar largas à imaginação. Ambos precisam de redescobrir o seu corpo e o(a) do(a) parceiro(a), redescobrir sensações e fantasias. É preciso brincar, erotizar os momentos e despertar novas vontades. É preciso beijar, tocar, sentir e imaginar. Afinal de contas, tudo pode estar à distância de um toque. 

Um menu repleto de ingredientes extra

Hoje fui a um workshop sobre intervenção sexual em terapia de casal. A paixão pela terapia de casal descobria-a o ano passado, aquando do meu estágio curricular. As questões da intimidade, do sexo e do erotismo sempre me disseram muito, pela naturalidade e abertura que tenho para os assuntos e, paralelamente, pelo tabu que existe em torno destas questões. 

Quem fala abertamente de sexo anal?

Quem fala abertamente de ejaculação na boca? 

Quem fala abertamente de prazer e de tudo aquilo que vai além da penetração? 

Não sou nenhum entendido na matéria, longe disso. Mas sou um curioso, teórico e prático, gosto de saber, de explorar, de aplicar naturalidade no que é natural. 

Este workshop, além de um cheirinho essencial daquilo que deverá fazer parte da formação de um técnico, foi uma amostra do que deveria ser apresentado à população em geral. As pessoas precisam de ser informadas, precisam de ter as cabeças desempoeiradas e as ideias desmistificadas. Como em muitas outras questões, hoje temos um acesso fácil e instantâneo à informação, mas não a retemos, nem sempre a filtramos e não raras vezes serve apenas para complicar uma situação que já nos incomoda, só por si. 

Existem disfunções e dificuldades sexuais, existem questões muito específicas que deverão ser trabalhadas individualmente ou em casal, mas existe muito além disto. Existe um trabalho muito grande que chamaria de educação sexual, uma passagem de informação pertinente e esclarecedora, que chegue às pessoas e que permita a abertura que esta temática exige.

Questões como “pode haver sexo sem penetração”, “o orgasmo não é o objetivo do sexo” ou “os homens deviam ter o pénis nas costas” são ideias que podem soar a estranho e descabido. Mas não, longe disso. Já as tinha ouvido proferidas pela terapeuta sexual que deu a formação e hoje pude compreendê-las melhor. 

A ideia, errada, de que sexo é sinónimo de penetração (vaginal, dado que a penetração anal é uma questão ainda mais sensível) reduz a muito pouco aquilo que é a vivência da intimidade, do erotismo, do toque e da descoberta dos corpos de cada um dos parceiros. Chamar preliminares ao que antecede o “verdadeiro sexo” atribui-lhe um caráter secundário/opcional, enfraquecendo a envolvência íntima de um casal. Ter o orgasmo como o fim último de uma relação, que já por si está reduzida a muito pouco, quando se aplica sinonímia entre sexo e penetração, é uma ideia que precisa de ser trabalhada. Como nos foi dito, e que faz pensar, o orgasmo são os últimos 10 segundos de uma relação sexual. Valerá a pena sobrevalorizar este momento em detrimento de tudo o resto? E o toque? E a pele? E as sensações tidas em cada parte do corpo? E os arrepios que nos fazem morder o lábio? E a exploração das fantasias e dos desejos de cada elemento do casal?

Já aqui falei da necessidade de se ser criativo, de se descobrir o próprio corpo antes de descobrir o corpo do outro e continuo a achar que é uma tarefa muito útil, mesmo na vivência de uma intimidade a dois. E pensar num corpo a ser explorado imaginando-o sem mamas/mamilos e sem genitais? Parece estranho? Ora aí está um trabalho interessante de ser feito. 

E se for dito que SIM e NÃO têm (ou deveriam ter) o mesmo caráter positivo quando se fala de um convite sexual por parte do parceiro? Tal como explicado pela terapeuta, “honestidade”, “bem estar” e “liberdade” são questões essenciais a trabalhar com os casais, e elementos a estarem presentes nas bases da sua relação. É com base nestes conceitos que haverá abertura para a comunicação, para a expressão sincera daquilo que são as vontades e os desejos de cada um. 

Este post não serve, nem de longe nem de perto, para transmitir aquilo que pude aprender e vivenciar hoje. Antes disso, e à semelhança do que tento fazer em muitos outros posts, serve para dar voz às coisas, chamá-las pelos nomes e lançá-las para o mundo, esperando que façam alguém questionar-se, pensar sobre elas e daí surgir algo novo. 

Como diz a terapeuta, Marta Crawford, a sexualidade deve ser entendida como um menu de degustação (e há tanto por degustar)...

Masturbação

Masturbação. Sim, masturbação!

Por definição, masturbar é o ato de estimular os próprios órgãos genitais para obter prazer sexual. E se for mais do que isso? Se a masturbação for além da zona central do nosso corpo e se prolongar por todo ele? Se somos dotados de sensações, porquê restringir a fonte de prazer apenas aos nossos genitais?

Hoje em dia, sobretudo nas camadas mais jovens, fala-se abertamente sobre sexo. Porém, a ideia que tenho é que se fala apenas do ato em si, da sua consumação e, muitas vezes, para isso mesmo - dizer que já aconteceu (e com quem aconteceu). Mas não será o sexo muito mais do que um ato? Não será antes uma espécie de dimensão, com os seus truques e particularidades? Não estarão incluídos nesta dimensão aspetos de cariz individual, que cada um deve explorar e conhecer?

Faço-lhe uma pergunta: conhece o seu corpo? Sim, pode saber as suas medidas e as suas formas físicas, mas conhece mesmo o seu corpo? Sabe como ele responde ao seu toque? Já experimentou deitar-se confortavelmente, fechar os olhos e percorrer todo o seu corpo? Já sentiu como a sua respiração muda consoante a zona do corpo em que toca? Sabe onde se arrepia e com que intensidade? 

Conhecemo-nos realmente bem ou preferimos insistir na descoberta do corpo do outro quando nem o nosso conhecemos?

Descubra o seu corpo, o que ele pede e como reage. Dê asas à sua imaginação. Quanto melhor se conhecer, mais prazer terá, sozinho(a) ou acompanhado(a). 

 

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