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ÂNCORA DE PAPEL

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Festinhas para homens de barba rija

barba rija

Uso barba, mas sempre a aparei e desfiz em casa. Porém, e pela primeira vez, hoje tive oportunidade de ir a uma barbearia, daquelas barbearias modernas que se instalaram nas cidades. 

Adorei o atendimento, a atenção e o trabalho. Foi, de facto, uma boa experiência. Mas não é sobre ela que quero falar. 

Estava eu recostado na cadeira do barbeiro, já no fim do serviço, de cara tapada com uma toalha humedecida, quando o senhor que me estava a atender me coloca o after shave na cara. Com pele macia e mãos delicadas, aplicou-me o produto no rosto, em movimentos suaves. No fundo, fez-me festinhas na cara. Eu, amante de mimos e cuidados, adorei! Mas enquanto recebia aquela massagem final, pensei nos homens de barba rija a levarem tal tratamento. Eu, por mim, adoro mimos e ter um homem a fazer-me festas na barba ou na cara não é novidade. Mas deve haver aí muita gente avessa a tais demonstrações, ou pelo menos assim o expressam em relação aos outros.

Continuo a ter para mim que a questão do preconceito tem por base o desconhecimento, a desinformação e a ideia que se faz sobre interações físicas e sexuais. O amor, o sentimento, esse não se mede nem é visível e, portanto, não importa. Agora, imaginar dois homens ou duas mulheres a tocarem-se, a ter sexo, isso sim é assunto e gera opiniões formadas. 

Naquela posição, apenas pensei na mudança dos tempos. Lembrei-me como seria um homem de barba rija a levar festinhas na cara de outro homem. De fora, estamos a ver dois homens a tocarem-se, ou um funcionário e um cliente? Usam-se dois pesos e duas medidas? 

Apenas uma palavra: aceitação. Dá menos trabalho. Gera menos conflitos e fica tudo feliz! 

Vaidades

Comecei a minha vida profissional. À falta de um trabalho a tempo inteiro, inscrevi-me numa agência de trabalho temporário e tenho sido chamado para hotéis da zona onde resido. Num deles sou copeiro, pessoa responsável pela louça e limpeza/arrumação das cozinhas; noutro, tecnicamente sou empregado de manutenção, que mais não é do que andar a acartar móveis e materiais de uns pisos para os outros, assim como separar lixo e entulho das obras de requalificação que o hotel sofreu. 

Sempre tive a ideia de que o trabalho não me assustava. Adoro dinheiro, adoro juntar e gastar dinheiro, por isso, sempre tive a ideia de que não haveria problema em trabalhar, fosse no que fosse, porque seria para mim, para as minhas poupanças e para as minhas coisas. No entanto, durante as tarefas que são solitárias, dou muitas vezes por mim a pensar no que faço, e em como seria, um dia mais tarde, um filho meu dizer que eu fazia mudanças num hotel ou que lavava louça, fosse um desses o meu emprego a tempo inteiro. Desconfio que seria muito melhor, ou por outra, melhor aceite pela sociedade/colegas/amigos, ele dizer que o pai era psicólogo, médico, advogado... Mas a ser verdade esta minha ideia, por que razão assim seria? Pelo trabalho? Pelo ordenado? Pela ideia que se cria em torno da pessoa em função da sua profissão? Não me faz sentido. Não acredito em trabalhos menores. Há trabalho, ponto! Agora, o que pode haver é trabalho que podemos querer fazer a vida toda e outros não, mas isso por gosto e ambição pessoal. E se olharmos bem, não é nobre lavar bem a louça para servir bem um cliente? Não é de extrema importância deixar uma cozinha arrumada e lavada, com tachos e utensílios prontos para o chefe brilhar com as suas receitas? Como se instalava confortavelmente um hóspede num hotel se houvesse lixo e mobília antiga à entrada do seu quarto? Que seria este mundo sem os pedreiros/trolhas? Como teríamos iluminação em casa se não houvesse eletricistas? Como seriam as ruas das cidades cada vez mais cheias, se não houvesse quem recolhesse o lixo? Penso nisto e só me lembro de uma frase que a minha avó costuma dizer: vivemos num mundo de vaidades. 

Trabalhem e lutem pelo que querem. Há uns trabalhos melhores que outros, uns mais fáceis do que outros, uns bem remunerados e outros, tantos outros, muito mal pagos, mas é trabalho. Não precisamos de o fazer a vida toda, se não for esse o nosso objetivo/desejo. Mas lá por não ser algo a longo prazo para nós, não quer dizer que seja desprezível ou que não seja algo onde outra pessoa se sinta bem e o queira para si. 

Descompliquemos o que é simples. Vivamos sem grandes aparências, vaidades ou fogos de artifício. Haverá sempre quem nos aponte o dedo, quem nos olhe de alto a baixo, quem nos critique, quem não goste. O que podemos fazer? Viver e seguir em frente. Com amor, sempre com amor! 

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