Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

ÂNCORA DE PAPEL

ÂNCORA DE PAPEL

O regresso

Voltei.

Voltei!

Voltei a este espaço que tanto me deu em 2018. E olhando bem, o ciclo repete-se - encontro-me, com todas as diferenças que o tempo foi imprimindo em mim, exatamente da mesma forma que em 2018. Estou em transição, em progresso, em pausa. Estou em construção. Estou, apenas.

Mas voltei!

Tenho saudades de escrever, de pensar a vida, de dar forma aos pensamentos, às ideias, aos receios, aos sonhos. Saudades de exteriorizar o que vai surgindo em mim. Saudades de sentir o poder da escrita, como ferramenta que nos permite dar forma aos demónios, reduzindo-lhes o tamanho real, ao mesmo tempo em que nos torna um pouco mais senhores da nossa própria vida. Olá, ansiedade. Reconheço-te na literatura e no dia a dia. Mas agora, importa isto - voltei!

Deixar saudade

O poema diz-nos que "As coisas vulgares que há na vida/ Não deixam saudades/ Só as lembranças que doem/ Ou fazem sorrir" (Chuva, de Jorge Nunes). 

Ao atentar na letra, questionei-me sobre tudo aquilo que temos na vida e que poderia não deixar saudade. É certo que tudo faz parte e talvez precisemos das mais insignificantes vivências da mesma forma como precisamos dos grandes amores e das grandes aprendizagens, mas olhando para nós, para o que temos, para quem nos rodeia, o que é que não deixaria saudade? Que tempo e disponibilidade estamos a dar a pessoas e acontecimentos que nada nos acrescentam e dos quais não nos vamos recordar? 

Saudade

Sentimos saudades muitas vezes, de muitas coisas. São saudades de experiências vividas, saudades de pessoas, de locais que nos marcaram. Porém, uma questão se impõe: já alguma vez sentiu saudades suas? Saudades das suas melhores características, da sua melhor gargalhada, do seu olhar mais brilhante? Já alguma vez sentiu saudades de estar feliz apenas por si, por um feito seu?

Às vezes perdemo-nos. Perdemo-nos nas obrigações, nas tarefas, nos sonhos, nos medos, nos pensamentos negativos, nas ansiedades, mas, o pior de tudo, perdemo-nos de nós! Desviamo-nos do que somos, daquilo que podemos fazer de positivo, daquilo que podemos fazer por nós. Se é verdade que temos em nós todos os sonhos do (nosso) mundo, então temos em nós a possibilidade de dar gás a tudo aquilo que precisa de energia para se mover. 

Temos de ir à nossa procura, de nos resgatarmos da agitação que é a nossa vida e de procurarmos em nós o nosso melhor lado, o nosso melhor amigo, o nosso mais fiel companheiro. 

A nossa viagem

Lembro-me como se fosse ontem. Na rua, o vento e a chuva faziam-se ouvir. Nós, no aconchego do colo um do outro, sonhávamos com dias mais alegres e luminosos. Dali a dois meses iríamos celebrar uma data importante, tão importante que era desejada desde o primeiro dia. Foi naquele sofá, ao lado um do outro, que preparámos a nossa primeira viagem. O gosto de viajar e descobrir novos mundos era de ambos. O sonho de viver as descobertas ao lado de alguém especial era comum. A vontade de partir de mãos dadas e sorriso no rosto estava presente. Era uma data há muito desejada e não nos queríamos poupar a nada. Tudo tinha de ser como sempre desejámos, mesmo antes de nos conhecermos e de termos o privilégio de estarmos nos braços um do outro. Quase em jeito de telepatia, desejávamos o mesmo quarto de hotel com janela virada para o mar. A vontade de fazer amor, tendo o mar como fundo, era enorme. Sabíamos que éramos pirosos entre quatro paredes, mas também sabíamos que era essa a nossa forma de amar. Se era para ser, era com tudo. E lá aconteceu. Procurámos, procurámos e procurámos, até que encontrámos o quarto perfeito. De um lado um hotel lindo, do outro um mar imenso. Era ali. Tinha de ser ali. Escolhemos o melhor quarto e fizemos a reserva. Nesse momento, sorrimos e beijámo-nos. Lembro-me como se fosse ontem. Olhaste-me com um sorriso rasgado, deste-me a mão e assim ficaste, como uma criança feliz, de coração cheio e olhar brilhante. Estavas feliz. Estávamos felizes. 

Escolhido o local, preparámos tudo o resto. A minha vontade de preparar tudo com antecedência sempre foi acompanhada da tua permissão e vontade de fazer acontecer. Gostávamos de ter tudo controlado, não fosse acontecer algum imprevisto que nos impedisse de estarmos como mais gostávamos: nos braços um do outro.

O tempo foi passando, a espera dava cabo dos nossos corações, mas lá chegou o momento de irmos. Depois de meses de espera, chegou a nossa hora. 

A viagem, à semelhança de todas as outras, foi feita entre olhares e sorrisos, gestos simples de dois adolescentes apaixonados que vão em busca de um sonho, de um momento desde sempre desejado e que estava a dois passos de acontecer. Lembro-me como se fosse ontem. Estávamos de mão dada em frente ao mar. O vento frio que envolvia aquele cenário idílico fez-nos andar sempre abraçados. O mar dava-nos calma, esperança e vontade de seguir em frente, sempre juntos. Depois de muito andarmos, era tempo de irmos para o nosso castelo, aquele que por trás de nós guardava o nosso sonho. Meio a medo, entrámos no quarto. Parecia ter sido desenhado e pensado por nós. Tudo estava como deveria estar. Um longo quarto, fresco mas acolhedor, com um mar a perder de vista mesmo à nossa frente. De lado, uma cama imensa, com roupas brancas e delicadas. Como duas crianças, saltámos para ela e testamos a sua resistência. Estávamos no nosso sonho, no nosso mundo, com tudo aquilo que sempre quisemos viver ao lado um do outro, mesmo antes de nos conhecermos. Foi uma longa tarde de amor. Os nossos olhares sorriam, os nossos lábios pediam só mais um beijo e a nossa pele estava quente. Perdemo-nos nos braços um do outro. Algum tempo depois, o pôr do sol avizinhava-se e não o poderíamos deixar escapar. Sentados no chão, abraçados e apaixonados, ali ficamos, a sorrir e a sentir cada segundo. Devagarinho, o sol desapareceu e nós apenas nos olhámos. De tudo, foi sempre o que mais gostei: os nossos olhares, intensos mas serenos, que tanto nos davam um ao outro. 

Esta foi a nossa primeira viagem, ou melhor, aquela que seria a nossa primeira viagem. Quis a vida que nos separássemos antes de ela acontecer. Dizem que a passagem de ano é tempo de introspeção e foi ela quem te levou para um caminho diferente do meu. De ti guardo tudo, até mesmo o sonho de uma viagem que só aconteceu na minha cabeça e com o meu coração. Mas sei que, estejas onde estiveres, guardas esta viagem com tanto carinho como eu. Afinal de contas, esta será sempre a nossa viagem.

Mais sobre mim

imagem de perfil

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D