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ÂNCORA DE PAPEL

ÂNCORA DE PAPEL

Amor, uma brincadeira de criança

Hoje venho falar-vos de amor, amor nos tempos modernos. 

Imaginem duas crianças. Uma delas tem um quarto cheio de brinquedos, de todas as cores e feitios, um cenário idílico capaz de abrilhantar o olhar da pequenada. No entanto, esta criança salta de brinquedo em brinquedo, não se satisfazendo com o muito que tem, dizendo que não prestam, que já não gosta de brincar com eles, que não servem para aquilo que gostava de fazer.  Por outro lado, a segunda criança tem apenas um brinquedo, ali no centro do quarto, ladeado por mobílias. Esta está satisfeita, brincando todos os dias com o mesmo, sendo-lhe exigido que se reinvente, que seja criativa, que ora use o alto da sua cama para simular um castelo, onde um guerreiro vai salvar a sua aldeia das tropas que vêm lá longe, como o mesmo boneco serve de professor de artes marciais, naquele tapete vermelho farfalhudo, onde todos os seus alunos o escutam com atenção, lá no fundo da sala. Apenas um boneco, que ora é uma coisa ora é outra; ora tem dias em que serve todo o imaginário daquela pequena criança, ora outros há em que falta ali qualquer coisa, mas brinca e procura fazer diferente.

Agora perguntam-me o que é que isto tem a ver com o amor nos tempos de hoje? Tudo! Uma simples analogia que retrata bem aquilo que somos e aquilo que fazemos com o que temos e com o que sabemos.

Dizem os mais velhos que somos a geração do digital, onde tudo é feito online e sem ele não vivemos. É um facto, não o posso nem o quero negar. Mas neste jogo do online, há coisas que se ganham e outras, tantas outras, que se perdem. Nestas, nas que ficam pelo caminho, fica a noção de amor, de conquista, de entrega, de luta, de paixão, de felicidade, de brilhantismo. Trocamos de parceiro da mesma forma como a primeira criança troca de boneco, não se envolvendo verdadeiramente com nenhum, não se dedicando ao momento, ao seu par, não dando de si nem esperando para receber. Salta, joga fora, deixa esquecido, olha e nada sente. Com bonecos ou com sentimentos, a conduta é sempre a mesma: falta de envolvimento, de entrega, de sentido, de dedicação, de vontade de fazer mais, de fazer e ser diferente. Troca-se em busca de algo melhor, mais fácil, mais imediato, mais e mais e mais, um mais que nunca se concretiza porque nada será suficiente para alguém insatisfeito e que não dá de si. 

Podem dizer que este desapego, esta falta de vivência das emoções é um sinal dos tempos. Não diria que seja um sinal dos tempos, mas antes uma consequência dos tempos. É por haver tanta facilidade que nada se valoriza; é por haver tanto e tanto estímulo que queremos chegar a todo o lado; é por não nos darem amor, que não sabemos reconhecê-lo e vivê-lo; é por sermos tão egoístas na nossa forma de estar e viver a vida, que vamos atrás de uma ilusão de felicidade plena, algo que não acontece por muito que se mude. E porquê? Porque muda o brinquedo mas a criança continua sem saber viver o momento, sem se deixar envolver, sem ser genuína o suficiente para que se entregue e descubra se realmente aquela janela pode ser um local secreto para os espiões, ou se tem luz a mais para tal efeito, aprendendo que da próxima vez tem de agir de forma diferente. 

Porém, tudo isto é simples de ser entendido pela primeira criança, não porque se resigna ao facto de ter só um brinquedo, mas porque vê nele todas as suas potencialidades, mesmo quando lhe falta um braço, perdido numa guerra, ou fica com um pé esborrachado, sendo o paciente ideal para uma operação. Há entrega, há criatividade, há espírito de sacrifício, há imaginação, há entusiasmo. E o amor, simplesmente amor, é isso mesmo: é sacrifício, energia, brilho, lágrimas, excitação, esforço e entusiasmo. É como uma moeda, onde as suas diferentes faces se casam em harmonia para constituir aquele objeto perfeitamente harmonioso, redondo e simétrico. E o amor, seja por quem for ou pelo que for, será sempre assim! Tudo o resto são tentativas frustradas de uma brincadeira que não apaixona, que não envolve, que não prende, que não faz crescer nem sonhar.

 

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