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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Três semanas de mim

04.08.19, Miguel Oliveira

A vida é curiosa, e se estivermos atentos às pequenas coisas que nos vão acontecendo, conseguimos encontrar um fio condutor na maior parte das situações. 

Este post é um desabafo. Um desabafo que surge na altura em que já me sinto preparado para o fazer. Este blog não é um mero blog, onde partilho coisas bombásticas ou pensamentos brilhantes, nem tão pouco habituo os seguidores a qualquer tipo de periodicidade. Este é um "caderno meu", é a minha âncora que não sendo de papel, é onde escrevo sempre que sinto a necessidade de os meus pensamentos ganharem uma outra forma. E é por isso que tenho escrito menos. Mas isso já se perceberá.

Dia 7 de julho, 14h50 - viagem para Lisboa. Um compromisso do meu irmão fez-me acompanhá-lo até Lisboa. Era um domingo e, aproveitando a viagem, quis aproveitar a estadia por lá. Resolvi ficar dois dias, regressando a casa na terça feira seguinte. 

Lisboa

Dia 8 de julho, 9h00 - saída de casa de um amigo que nos deu guarida. Essa segunda feira seria um dia diferente, para mim. Sempre que vim a Lisboa, cidade onde venho com frequência há 5 anos, andei acompanhado. Com namorado ou amigos, sempre fiz questão de não andar sozinho pela cidade. O meu lado medroso afastava-me das linhas de metro e dos autocarros. O meu lado prático e curioso levava-me para os sítios que se veem nas reportagens, novelas ou redes sociais. Os grandes pontos turísticos eram o meu fascínio. Queria ir descobrir aqueles locais e, sendo centrais, estaria mais protegido. Era assim que me sentia. Porém, naquela segunda feira, estava determinado a fazer diferente. E fazer diferente porque 5 anos se passaram; fazer diferente porque eu estou diferente; fazer diferente para ser diferente. Considero que tenho um lado aventureiro e colocar uma mochila às costas e partir é das melhores sensações que me podem proporcionar. Porém, nessas partidas, nunca fui sozinho, e era disso que sentia vontade de viver. Então, ia passar o dia sozinho. Iria onde nunca tinha ido, andaria pelas ruas à descoberta de novos caminhos, passaria por nunca antes tinha passado. 

E assim foi! Andei imenso a pé. Passei por sítios onde nunca tinha ido. Senti os cheiros, os sons, a correria dos tuk-tuks e dos turistas. À hora de almoço, sentado no Miradouro de São Pedro de Alcântara, com uma cidade imponente à minha frente, escrevi um postal a uma amiga. Lembro-me de estar sentado e de pensar na pequenez que sentia por estar ladeado por uma cidade tão grande e que, apesar de a visitar há muito tempo, não conhecia. Dali a uns meses, aquela cidade faria parte da minha vida. Dali a uns tempos, teria de passar por Lisboa todas as semanas. Talvez fosse esse o objetivo daquele dia: conhecer a cidade que havia de me acolher; conhecer-me numa nova cidade. Sentado, de postal na mão, lembro-me de pensar, feliz: "hoje é um bom dia. Estou a perder-me para me encontrar!". E aqui está o lado curioso da vida...

São Pedro de Alcântara

Perto do fim do dia lembro-me de estar numa paragem de autocarro, a partilhar com um amigo a aventura do dia. Já tinha ido a todos os locais que estavam destinados àquele dia, e tinha tido a sorte de me cruzar com tantos outros que nem estavam nos planos. E o melhor de tudo é que estava feliz e sentia-me muito mais rico! Rico pelos locais que visitara, pelas sensações que carregava e pela força que sentia. Naquele momento, a frase de um filme de animação ("a única forma de enfrentarmos o medo é agirmos como se não tivéssemos medo") fazia sentido a 100%. Só pensava na quantidade de vezes que adiei ou evitei andar sozinho por medo, na quantidade de vezes que desperdiçara sensações tão boas! Estava realmente feliz! 

Dia 9 de julho, 10h30 - viagem de regresso para casa. Regressava feliz. O cansaço dos muitos quilómetros percorridos era sinónimo de alegria, de conquista, de uma força que não me lembrava ter sentido alguma vez. Adormeci durante a viagem. Às 12h acordei com o telemóvel a tocar. Do outro lado, uma senhora dizia-me "O IEFP aprovou o seu estágio. Pode fazer estágio connosco, mas é para começar no dia 15, na próxima segunda feira. Consegue?". Fiquei sem chão. Tinha acabado de sair de Lisboa e, do nada, o estágio que procurava há mais de 10 meses, ia acontecer. Tinha acabado de sair de Lisboa e, no domingo seguinte, tinha de voltar com tudo. Tinha acabado de sair de Lisboa e dali a uma semana, seria ela a minha casa. Chorei. Ri. Tremi. Agradeci. Oscilei entre o pânico e a excitação. No dia anterior tinha pensado que me estava a perder para me encontrar. E não é que essa era a moleta que havia de servir de motor dali em diante? Como as coisas são... 

Os restantes dias dessa semana foram uma autêntica loucura. Entre fazer malas, procurar quarto, ver preços e fazer contas, ainda não me tinha caído a ficha. Como é que dali a uma semana, aquela já não seria a minha casa? Como é que dali a uma semana não seria aquela a minha rotina? Onde ficava o meu quarto? Onde ficava a minha família? Onde ficava a senhora da padaria que todos os dias tentava adivinhar quantos pães ia querer, porque nunca levava o mesmo? Onde ficavam aquelas ruas que quase podia fazer de olhos fechados por serem as mesmas que percorria há anos? Como é que tudo podia mudar tão de repente? Não dormi nessa semana. 

Dia 14 de julho, 12h - viagem para Lisboa. Vinha carregado. Comigo vinham as malas, os livros, a ansiedade, o olhar apreensivo, e uma vontade enorme de continuar a viver o que havia vivido na segunda feira anterior. Só indo em frente é que se consegue algo novo. Só indo à descoberta é que se pode descobrir. Não há outra forma. Tinha sido tão bom o que tinha sentido! Não podia ignorar a capacidade que agora estava a descobrir em mim. 

Lisboa

Dia 15 de julho, 11h - chegada ao local de estágio. Uma associação com a sua grandeza, uma sala cheia de pessoas que conversam e trabalham. Ali estava eu. Entre telefonemas, saídas e entradas, seria aquela a minha casa durante os próximos nove meses. Seria aquela a minha rotina dali em diante. Estava ansioso mas muito curioso. "Ok, consegui o estágio. Agora é deixar este medinho em casa e aproveitar o que isto tem para me dar.", pensei durante todo aquele dia. Ao fim do dia entrei na casa que seria a minha. Adorei a casa. Arrumei tudo o que tinha. A rotina tinha de ganhar forma e dali em diante o gps do telemóvel seria o meu fiel companheiro. Tinha paragens de autocarro para conhecer, ruas para descobrir e supermercados para visitar. Fiz-me à estrada, a pé como sempre, e lá fui eu. Ao fundo da avenida estavam os meus queridos amigos - os supermercados. Fiquei feliz só por isso. Comida não me havia de faltar. 

Ao longo dessa semana tudo foi novidade. Novas pessoas/colegas a cada dia, novos percursos, novas conversas, novos locais visitados. Entre leituras, nomes para fixar e rotinas para aprender, estava alguém que oscilava entre a vontade de querer mais, de querer ver o que havia para descobrir, e a necessidade de encontrar um espaço confortável e acolhedor que o reconfortasse. 

Dia 19 de julho, 18h30 - correria para apanhar o expresso para casa. No caminho, duas viagens de metro, sozinho, de malas na mão. Que felicidade! Nunca subi uma montanha, mas sentia-me como tal. Que conquista imensa. Como já aqui escrevi uma vez, os nossos desafios têm na base as nossas experiências de vida. Aquilo que é desafiante para uns, pode ser a rotina para outros. Não importa. Importa ir e vencer o desafio. Foi o que senti ali, encostado à porta do metro. À minha frente estava um bebé. Como é hábito meu, sorri-lhe. Mas não lhe sorria só para interagir com ele. Sorria-lhe porque queria sorrir, porque estava orgulhoso de mim. Que semana! 

Dia 20 de julho, 1h30 - chego a casa, à minha casa. Voltar para os braços da minha mãe era o meu maior desejo. No caminho jantei com os meus avós. Sempre presentes, sempre na primeira linha à minha espera. Que bom que foi voltar à minha cidade, aos meus locais, às minha paisagens. Que bom que era sentir a segurança de andar sem medo de me perder.

Dia 21 de julho, 12h30 - regresso a Lisboa. Sair de um expresso, apanhar o metro e apanhar um outro autocarro que me levaria a casa, a uma casa que começava a ser minha. Um cheiro que me começava a ser familiar. Sentia-me mais solto, mais capaz, mais Eu. Estava a mudar, porque era obrigado a isso, mas estava a ser tão bom! Estava a descobrir tanta coisa. 

Nas duas semanas seguintes descobri muitas coisas. Descobri que tenho um medo imenso de que a comida que tenho em casa não seja suficiente; descobri que afinal consigo ver filmes em casa, o que dificilmente acontecia porque adormecia sempre; descobri que não chorei como achava que ia fazer todas as noites; descobri que a vida continua a acontecer e que nos continua a dar coisas boas, assim estejamos disponíveis para ela; percebi que o hábito de cozinhar ao domingo é uma ótima forma de aproveitar os fins de tarde, durante a semana; percebi que o pão pode não ser o mesmo, mas que há ótimas padarias onde o posso ir comprar, como fazia em casa, para tomar um pequeno almoço mais descansado ao fim de semana, ainda que sozinho; percebi que limpar a casa ao sábado de manhã, enquanto ouço a minha música, é a melhor desculpa para dormir uma valente sesta à tarde; percebi que família, a de sangue e a escolhida, continua cá, mais longe ou mais perto, porque entre clips de voz, mensagens ou chamadas, tudo continua igual; descobri que sou mais autónomo do que pensava; assegurei-me de que sou realmente pragmático e desenrascado; senti que há dias menos bons, e que acontecem não porque estou longe de casa, mas porque a vida também é feita deles e de pessoas que pouco nos dizem; aprendi a relativizar as coisas e que as mesmas têm a importância, atenção e peso que lhes dermos; aprendi a olhar ainda mais por mim, porque sou o único a quem pertenço e só eu  mesmo posso cuidar de mim em qualquer momento. 

Ericeira.jpg

Nestas três semanas de muita novidade e descoberta, tive três semanas de mim. E como é bom sermos abanados e podermos descobrir novas coisas todos os dias! Há dias frios, cinzentos e carregados, mas também há dias de sol, de força e vontade de vencer, mesmo quando a chuva lá fora se faz sentir.

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