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Âncora de papel

by Miguel Oliveira

Um menu repleto de ingredientes extra

30.11.18, Miguel Oliveira

Hoje fui a um workshop sobre intervenção sexual em terapia de casal. A paixão pela terapia de casal descobria-a o ano passado, aquando do meu estágio curricular. As questões da intimidade, do sexo e do erotismo sempre me disseram muito, pela naturalidade e abertura que tenho para os assuntos e, paralelamente, pelo tabu que existe em torno destas questões. 

Quem fala abertamente de sexo anal?

Quem fala abertamente de ejaculação na boca? 

Quem fala abertamente de prazer e de tudo aquilo que vai além da penetração? 

Não sou nenhum entendido na matéria, longe disso. Mas sou um curioso, teórico e prático, gosto de saber, de explorar, de aplicar naturalidade no que é natural. 

Este workshop, além de um cheirinho essencial daquilo que deverá fazer parte da formação de um técnico, foi uma amostra do que deveria ser apresentado à população em geral. As pessoas precisam de ser informadas, precisam de ter as cabeças desempoeiradas e as ideias desmistificadas. Como em muitas outras questões, hoje temos um acesso fácil e instantâneo à informação, mas não a retemos, nem sempre a filtramos e não raras vezes serve apenas para complicar uma situação que já nos incomoda, só por si. 

Existem disfunções e dificuldades sexuais, existem questões muito específicas que deverão ser trabalhadas individualmente ou em casal, mas existe muito além disto. Existe um trabalho muito grande que chamaria de educação sexual, uma passagem de informação pertinente e esclarecedora, que chegue às pessoas e que permita a abertura que esta temática exige.

Questões como “pode haver sexo sem penetração”, “o orgasmo não é o objetivo do sexo” ou “os homens deviam ter o pénis nas costas” são ideias que podem soar a estranho e descabido. Mas não, longe disso. Já as tinha ouvido proferidas pela terapeuta sexual que deu a formação e hoje pude compreendê-las melhor. 

A ideia, errada, de que sexo é sinónimo de penetração (vaginal, dado que a penetração anal é uma questão ainda mais sensível) reduz a muito pouco aquilo que é a vivência da intimidade, do erotismo, do toque e da descoberta dos corpos de cada um dos parceiros. Chamar preliminares ao que antecede o “verdadeiro sexo” atribui-lhe um caráter secundário/opcional, enfraquecendo a envolvência íntima de um casal. Ter o orgasmo como o fim último de uma relação, que já por si está reduzida a muito pouco, quando se aplica sinonímia entre sexo e penetração, é uma ideia que precisa de ser trabalhada. Como nos foi dito, e que faz pensar, o orgasmo são os últimos 10 segundos de uma relação sexual. Valerá a pena sobrevalorizar este momento em detrimento de tudo o resto? E o toque? E a pele? E as sensações tidas em cada parte do corpo? E os arrepios que nos fazem morder o lábio? E a exploração das fantasias e dos desejos de cada elemento do casal?

Já aqui falei da necessidade de se ser criativo, de se descobrir o próprio corpo antes de descobrir o corpo do outro e continuo a achar que é uma tarefa muito útil, mesmo na vivência de uma intimidade a dois. E pensar num corpo a ser explorado imaginando-o sem mamas/mamilos e sem genitais? Parece estranho? Ora aí está um trabalho interessante de ser feito. 

E se for dito que SIM e NÃO têm (ou deveriam ter) o mesmo caráter positivo quando se fala de um convite sexual por parte do parceiro? Tal como explicado pela terapeuta, “honestidade”, “bem estar” e “liberdade” são questões essenciais a trabalhar com os casais, e elementos a estarem presentes nas bases da sua relação. É com base nestes conceitos que haverá abertura para a comunicação, para a expressão sincera daquilo que são as vontades e os desejos de cada um. 

Este post não serve, nem de longe nem de perto, para transmitir aquilo que pude aprender e vivenciar hoje. Antes disso, e à semelhança do que tento fazer em muitos outros posts, serve para dar voz às coisas, chamá-las pelos nomes e lançá-las para o mundo, esperando que façam alguém questionar-se, pensar sobre elas e daí surgir algo novo. 

Como diz a terapeuta, Marta Crawford, a sexualidade deve ser entendida como um menu de degustação (e há tanto por degustar)...

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